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Marcha Global pelo Clima reúne 50 mil em Belém com movimentos sociais de todo o mundo

O protesto ocorre no fim da primeira semana do evento, como uma tradição do encontro. Nas três edições anteriores, no Egito, Emirados Árabes Unidos e Azerbaijão, não houve protestos por conta das legislações locais.
Vinícius Martins/Alma Preta.

— Vinícius Martins/Alma Preta.

Belém – Às 9h deste sábado (15), teve início a Marcha Global pelo Clima, um dos momentos mais emblemáticos da Cúpula dos Povos e da agenda paralela à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30). Ela reúne comunidades tradicionais, movimentos sociais, sindicais e populares, além de representantes da sociedade civil de diversos países.

A concentração do ato se iniciou às 7h30, no Mercado de São Brás, espaço historicamente associado às manifestações populares desde a ditadura militar. A caminhada saiu a partir das 9h, com destino à Aldeia Cabana.

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Até as 11h45, a expectativa do governo federal era de que cerca de 50 mil pessoas participavam do ato.

O protesto ocorre no fim da primeira semana do evento, como uma tradição do encontro. Nas três edições anteriores, no Egito, Emirados Árabes Unidos e Azerbaijão, não houve protestos por conta das legislações locais. Os últimos atos de uma COP aconteceram na Escócia, em 2021, e na Espanha, em 2019.

Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil, durante ato, Belém, 15 de novembro de 2025. (Andreia Coutinho/CBJC)

Trajeto da Marcha

A marcha deixou o mercado pela avenida José Bonifácio e seguiu até a avenida Duque de Caxias, uma das principais vias de acesso ao Hangar, polo da Blue Zone (Zona Azul), área restrita às negociações da COP30. Mas a área teve seu policiamento reforçado pela Força Nacional para evitar aproximações de manifestantes.

Ao longo da semana, depois da entrada de movimentos indígenas sem credenciais no evento, houve uma crescente militarização do perímetro do centro de convenções.

Antes de alcançar o Hangar, porém, a caminhada dobrou na avenida Mauriti e seguiu pela Pedro Miranda rumo à Aldeia Cabana — espaço de desfiles das escolas de samba cujo nome remete à Cabanagem.

A Cabanagem foi uma revolta popular ocorrida na Província do Grão-Pará entre 1835 e 1840, durante o período regencial. O movimento, liderado por caboclos, indígenas, negros, pobres urbanos e ribeirinhos, tomou o poder em Belém por um período, antes de ser violentamente reprimido pelo governo imperial.

Participação do Arraial da Pavulagem

Apesar de a marcha ter começado no meio da manhã, o sol já estava intenso, fazendo com que os participantes recorressem a sombrinhas ou buscassem abrigo nas poucas árvores ao longo do percurso — uma contradição para uma cidade localizada no coração da Amazônia, a maior floresta tropical do planeta.

Para Júnior Soares, músico e fundador do Arraial do Pavulagem, essa é uma demonstração direta dos efeitos das mudanças climáticas. “Olha a hora que nós estamos na rua e olha como está o calor, né? Então acho que os projetos que, porventura, venham para urbanizar as cidades precisam considerar isso. É preciso criar sombra para que a cultura popular possa se exercitar nas ruas”, afirmou.

O Arraial do Pavulagem é um dos principais símbolos da cultura popular junina de Belém e do Pará há 38 anos. O cortejo ocupa as ruas anualmente em dois períodos: na quadra junina e em outubro, durante o Círio de Nazaré. Neste sábado, porém, o movimento foi às ruas para somar à marcha com 250 brincantes.

“O Arraial do Pavulagem tem tudo a ver com este movimento. A floresta amazônica, os nossos rios, todo esse visual que temos aqui servem de base para nossas composições e inspirações enquanto mestres e produtores de cultura desta região. Esse cenário amazônico precisa ser preservado para que a cultura popular — ou a cultura de modo geral — também seja preservada”, declarou Soares.

Vinicius Martins/Alma Preta

Mercado São Brás

Ponto de concentração da Marcha, o Mercado de São Brás recebeu R$ 150 milhões em investimentos para receber a COP30.

Antes um espaço carente de manutenção, que abrigava feirantes e vendedores, a reforma transformou o local em um centro gastronômico, cultural e turístico com 86 empreendimentos, enquanto os permissionários foram realocados para a parte posterior.

Além disso, a área frontal do mercado, que antes acolhia eventos culturais periféricos e servia de ponto de concentração de manifestações, foi cercada, restringindo o fluxo de pessoas que não frequentam os estabelecimentos.

Gizelle Freitas, ex-vereadora de Belém pelo PSOL e assistente social, relembra:

“Eu milito há 23 anos e o Mercado de São Brás sempre foi um ponto de encontro dos movimentos sociais e dos lutadores de Belém. Poderia citar muitos momentos marcantes, mas lembro especialmente das duas marchas do ‘Ele Não’, em 2018. Reunimos mais de 80 mil pessoas que, naquele momento, lutavam para que um candidato abertamente misógino e inimigo dos setores oprimidos não chegasse à presidência”.

“Ele acabou se tornando presidente, o Jair Bolsonaro, mas nós — mulheres e povos oprimidos — que fizemos o ‘Ele Não’ pelo país, fomos uma pedra no caminho. Esse foi, sem dúvida, um dos momentos mais emblemáticos. É difícil escolher, mas esse me emociona até hoje”, completou.

Para Freitas, o ato deste sábado simbolizou a retomada do espaço pela população. “A reforma gourmetizou o mercado, ainda mais com aquela cerca ao redor da praça, que era justamente o espaço que ocupávamos. Isso dificulta que o mercado continue sendo visto como um local de confluência dos movimentos sociais. Mas a decisão da marcha de hoje, com cerca de 50 mil pessoas, de sair de lá é muito importante. Marca uma retomada. E, daqui em diante, acredito que nós, movimentos sociais de Belém, vamos continuar escolhendo o mercado como ponto de concentração, mesmo com a cerca, mesmo com tantos impedimentos para o uso popular”.

O ato em imagens

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  • Fernando Assunção

    Repórter do Alma Preta Jornalismo na Amazônia paraense. Foco na cobertura de temas como direitos humanos, meio ambiente, política e questões relacionadas a povos e comunidades tradicionais.

  • Solon Neto

    Cofundador e diretor de comunicação da agência Alma Preta Jornalismo; mestre e jornalista formado pela UNESP; ex-correspondente da agência internacional Sputnik News.

  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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