Neste domingo (19), Espanha e Argentina disputam a final da Copa do Mundo de 2026. Apesar do desempenho esportivo, ao longo da competição, acusações de racismo contra torcedores argentinos inflamaram uma velha polêmica envolvendo o país sul-americano, deixando o futebol de lado. Nos últimos anos, casos de racismo de torcedores e turistas argentinos ganharam notoriedade no Brasil, mas essa visão cresceu durante a competição e chegou a outros países.
A questão não passou despercebida na Argentina, cuja imprensa pautou a polêmica amplificada pelas redes sociais. Em páginas e jornais argentinos, não é difícil encontrar publicações questionando as acusações de racismo. Enquanto algumas dessas publicações reconhecem o problema, outras apontam exageros e chegam ao limite de afirmar que há uma perseguição contra o país.
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Os casos de racismo na Copa do Mundo não são exclusividade argentina. No início de junho, o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan teve sua entrada negada nos EUA, que impôs uma série de constrangimentos e restrições a torcedores de países árabes, islâmicos e africanos, inclusive contra a seleção do Irã.
Outro caso notório foi o da senadora paraguaia Celeste Amarilla, que relacionou o craque francês Kylian Mbappé a chimpanzés. Dias antes, o ex-goleiro da seleção paraguaia José Luis Chilavert se referiu à França — de maioria de jogadores negros e filhos de imigrantes — como uma “Seleção da África”. Dias depois, o ex-primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy afirmou que o time francês é uma seleção “sem franceses”.
Apesar disso, a frequência de casos de racismo na torcida argentina e o silêncio dos jogadores, que já entoaram cantos racistas, colocou o país sul-americano no centro das denúncias durante a Copa. Para discutir o assunto, a Alma Preta conversou com o cientista político argentino Federico Pita, fundador e presidente da organização afroargentina Diáspora Africana de Argentina (DIAFAR).
Ligado ao movimento negro argentino, Pita é editor da coluna Negrx no jornal Página/12, apontado por ele como o primeiro espaço antirracista da imprensa escrita argentina. O cientista político assina inúmeros textos na publicação denunciando o racismo na Argentina.
“É preciso repudiar e denunciar com firmeza as ações racistas e os cantos dos torcedores argentinos. Como venho sustentando no meu trabalho, o racismo não é um jogo, pois a violência racista verbal nos estádios é intolerável porque é precisamente o que naturaliza, legitima e pavimenta o caminho para a violência física e a morte de pessoas negras”, aponta o pesquisador entrevista à Alma Preta.
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Segundo Pita, as acusações de racismo ao longo desta Copa do Mundo contra a Argentina foram recebidas com uma postura amplamente defensiva pelos diversos setores da sociedade argentina.
“A recepção majoritária na Argentina diante do olhar internacional foi o abroquelamento e o fechamento defensivo. Um amplo espectro que atravessa o nacionalismo, os setores de direita e o próprio progressismo branco local — incluindo muitas vezes pessoas racializadas — rapidamente construiu a narrativa de que estamos diante de uma campanha de ódio anti-argentina ou de um ensanhamento geopolítico das redes sociais”, afirma Pita.
Para o pesquisador, essa postura diante do problema reflete e impulsiona uma visão local sobre o racismo estimulada por uma incompreensão interna e externa sobre as dinâmicas raciais argentinas.
“Essa reação transversal funciona como o combustível perfeito para um fenômeno que eu chamo de racismo criollo. Essa dinâmica se alimenta também de uma grande incompreensão por parte de certos influenciadores afro-americanos e afro-brasileiros nas redes sociais. […] Essa busca por estabelecer um pódio de qual país é o mais racista do continente acaba sendo funcional para a branquitude do Alasca à Patagônia”, reflete o cientista político.

Pita acredita que essa dinâmica funciona como uma “armadilha” que pode impedir a solidariedade antirracista entre os países da região. O pesquisador lembra que a violência estrutural racista é uma realidade tanto no Brasil e EUA como na Argentina.
“No nosso país, as principais vítimas da chamada violência institucional e da letalidade estatal são pessoas racializadas, as maiorias populares que sofrem diariamente com o perfilamento racial e a violência das forças repressivas. Enfrentar o racismo no futebol deve ser a porta de entrada para discutir com seriedade como essa mesma matriz de desumanização opera na sua dimensão mais letal e institucionalizada”, ressalta.
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Racismo na Argentina: desigualdade e ‘roubo de identidade’
O pesquisador e presidente do DIAFAR explica que na Argentina há um apagamento histórico da população negra e originária com o objetivo de “organizar o poder e consolidar a desigualdade” no país.
“O racismo criollo opera como um desenho sistêmico através de três operações contínuas que estruturam o nosso país: a invisibilização, a negação e a estrangeirização. Esse design atravessa as nossas leis, a distribuição do território e o relato oficial que a escola e os meios de comunicação repetem há gerações. Ao ensinar que a população negra desapareceu após as guerras de independência ou a febre amarela — discursos construídos para justificar a teoria da negação da nossa existência —, o Estado gerou uma amnésia coletiva que distorce completamente a percepção do problema”, afirma Pita.
O cientista político aponta que, apesar de “enorme subregistro” nas estatísticas oficiais, os afrodescendentes representam mais de 5% da população argentina e afirma que a maioria dos argentinos tem herança indígena direta.
“A maioria dos argentinos desenvolveu uma cegueira estrutural que associa a ausência de debate à inexistência do fenômeno. As profundas desigualdades materiais que afetam as pessoas racializadas no cotidiano são lidas pelo senso comum como meros problemas individuais ou estritamente de classe, ocultando deliberadamente essa longa história de exclusão e violência material”, aponta.

Para o pesquisador, esse contexto histórico e político se reflete também nos jogadores da seleção argentina, que parecem não reconhecer as próprias raízes e heranças negra e indígena. Segundo Pita, trata-se de um “sistemático roubo de identidade”.
“Os jogadores da seleção e a grande maioria do nosso povo, que é composta por uma população amplamente racializada, são vítimas diretas de um sistemático roubo de identidade. O racismo criollo coloniza a subjetividade e impõe a ilusão da branquitude como o único passaporte para a cidadania plena e o sucesso. É por isso que falar sobre racismo na Argentina se torna um tabu absoluto. O poder real e os discursos da direita concentrada fazem da branquitude o núcleo duro do seu poder, uma lógica à qual se somam os setores do progressismo branco que atuam de maneira cúmplice e funcional ao status quo, punindo a identidade real e premiando o esquecimento das próprias raízes”, aponta.
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Denúncia do racismo e busca por solidariedade internacional
O pesquisador Federico Pita explica que partes do movimento negro argentino, como a organização DIAFAR, atuam no país com duas frentes políticas centrais. A primeira delas é o combate à ideia de que a Argentina é um país “branco e europeu”.
“Denunciamos que a ideia de uma Argentina exclusivamente branca e europeia é o maior mito fundacional do nosso Estado, um relato construído para sustentar a hegemonia eurocêntrica por meio do apagamento e da negação explícita da nossa existência. O relato oficial não diz apenas que fomos invisibilizados, ele afirma categoricamente que os negros argentinos não existem. Esse design supremacista é tão profundo que está inserido no ordenamento jurídico e na própria Constituição Nacional, cujo artigo 25 promove a imigração europeia de forma diferencial, consolidando o racismo na raiz do nosso Estado”, diz Pita.
O cientista político aponta que outra frente de denúncia do movimento negro argentino é o alerta contra a acusações vindas de outros países, como o Brasil, de que a Argentina é um país puramente branco. Para ele, a reafirmação dessa visão serve de “escudo” para as branquitudes locais da região escondendo o próprio racismo estrutural.
“Convidamos a uma leitura solidária que reconheça que nós, os negros e os povos originários, existimos, resistimos e tivemos um papel protagonista no processo constitutivo da nossa nação”, conclui.
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