“A gente foi forçada a investigar. Ali naquele momento, me tornei pesquisadora”, conta Débora Maria da Silva, líder do movimento Mães de Maio.
No início de maio de 2006, 59 agentes públicos, a maioria de profissionais de segurança, foram mortos, em circunstâncias pouco conhecidas. A responsabilidade foi atribuída à facção criminosa PCC, o Primeiro Comando da Capital.
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Na sequência, policiais passaram a executar moradores das periferias da baixada santista e da capital do estado de São Paulo. Ao todo, cerca de 505 civis foram mortas ao longo do mês de maio, a maioria entre os dias 12 e 21 do mês. O episódio ficou conhecido como os crimes de maio.
As Mães de Maio surgiram desse luto. O movimento, formado por familiares de vítimas civis — principalmente mulheres —, passaram a cobrar justiça e a denunciar o que muitos definem como uma chacina promovida pelo estado, sobretudo contra jovens negros. Elas afirmam que foram mais de 600 mortes.
“A gente está falando do crime organizado fardado. Eles que mataram os nossos filhos”, afirma.
Na época, a Polícia Civil e o Ministério Público, órgãos responsáveis por investigar crimes — inclusive os cometidos por agentes de segurança —, ficaram inertes e pouco se movimentaram para descobrir o que de fato aconteceu naquele mês. Mais do que isso: na época, 79 promotores do MP-SP assinaram um ofício em que destacavam a “eficiência” da resposta da polícia militar.
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Foi só em 2011, em decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, que o Estado reconheceu sua responsabilidade pelo assassinato de Edson Rogério Silva, na época com 29 anos, e filho de Débora Maria da Silva. Ela recebe uma pensão vitalícia de um terço do salário mínimo, pouco mais de R$ 500, um valor que ela insuficiente diante da perda do filho e das marcas que o trauma deixou em sua vida.
A Alma Preta conversou com Débora Maria da Silva em São Vicente, na Baixada Santista, região com histórico de chacinas policiais. Ela, uma mulher negra de cabelos cacheados um pouco avermelhados, estava com um vestido com listras brancas e vermelhas. Durante o papo, a mesma firmeza padrão de quem condena as execuções sumárias em São Paulo.
“Quando a gente vê, a gente está atrás de mães, donas de casa, que tiveram que aprender a investigar, a se virar nos 30. As investigações eram uma dança de carimbo: a delegacia batia o carimbo, mandava pro Ministério Público, o Ministério Público mandava pra eles e o que eles investigavam era a vida pregressa do meu filho, pra ver se existia”, relata Débora Maria da Silva.

Para a polícia, as mortes de civis ocorreram em circunstâncias de confronto. No entanto, dados mostram que apenas 6% das vítimas tinham alguma passagem pelo sistema carcerário, o que contradiz a narrativa de que os mortos seriam criminosos ou membros do crime organizado.
O governo do estado de São Paulo alegou que os ataques do PCC contra agentes públicos foram motivados pela transferência de 765 presos para unidades de segurança máxima no interior do estado, realizada às vésperas do Dia das Mães.
Mas outras razões são apontadas, como um esquema de extorsão de policiais civis contra familiares de presos. Em abril de 2005, policiais civis prenderam o enteado de Marcola, líder do PCC, e extorquiram a facção. A continuidade dessa prática teria irritado a alta cúpula do crime em São Paulo.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou à reportagem que “todas as ocorrências foram apuradas” e que todas as mortes por intervenção policial são “rigorosamente investigadas” no estado. A pasta não respondeu sobre uma possível reunião entre o governo e a cúpula do PCC na época.
O Ministério Público de São Paulo, em nota, afirmou que foram instaurados procedimentos de investigação na época que resultaram em ação contra o Estado de São Paulo para o desenvolvimento de políticas para contenção da atividade policial e outra medida para que o Estado de São Paulo reconheça a sua responsabilidade e que seja feita uma indenização individual e coletiva às vítimas e à sociedade.
O Tribunal de Justiça de São Paulo, por sua vez, afirmou não comentar sobre decisões judiciais.
Dias das Mães, dia de luto
Conhecida pelas colocações duras diante de autoridades, por não esmorecer em qualquer espaço acadêmico, institucional ou oficial, Débora Maria da Silva parece sentir a morte do filho na mesma intensidade de 20 anos atrás. Ao falar de Edson Rogério Silva, que na época tinha 29 anos e trabalhava como gari, a voz fica trêmula. Os olhos procuram o chão em alguns momentos.
“Uma semana antes, eu estou assim, muito mexida. Isso é muito foda”, conta.
No Dia das Mães deste ano, 10 de maio, Débora Maria da Silva faz aniversário. Mas ela não usa essa palavra para descrever a data. O dia em que ela completa 67 anos, que seria de festa para qualquer família, será de luto para ela.
“O [mês de] maio não foi mais o mesmo para nós, por ser muito sinistro. Para além da morte do meu filho, eu faço ano domingo. Será que eu ainda faço ano? Não faço. Minha vida parou ali. E isso é revoltante, porque isso eles tiraram de mim”, recorda.

Fatos comprovados
Depois de se tornarem investigadoras, a Mães de Maio também viraram pesquisadoras. Cansadas de serem objeto de estudos, sem participar de estudos sobre o massacre de 2006, elas provocaram a universidade para pesquisarem o que aconteceu e as mortes dos próprios filhos.
O Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), instituto da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicou em 2018, com a participação de mães como Débora, um relatório sobre o massacre.
O estudo analisou as 60 mortes que aconteceram na Baixada Santista, entre 12 e 20 de maio de 2006, confrontou a versão oficial, de que as pessoas foram mortas em trocas de tiros ou que eram integrantes da facção criminosa PCC. “No entanto, uma análise baseada em documentos, contas das vítimas e notícias de eventos questiona fortemente esta versão oficial do ‘PCC versus forças de segurança’”, diz o texto.
De acordo com o levantamento, o massacre seguiu um padrão: homens encapuzados atiraram contra homens jovens, a maioria em periferias da Baixada Santista. Os casos não tiveram investigação policial e foram exigidas das famílias provas desses crimes.
Chamam atenção análises sobre os exames de perícia das vítimas, com uma persistência de tiros de curta distância e uma quantidade expressiva de disparos de cima para baixo, características de execuções e não de confrontos. De todos os exames observados, 77% das vítimas morreram com tiros na cabeça e 57% no peito. Em 45% dos casos, a vítima tinha tiros no peito e na cabeça.
Lacunas das investigações ainda persistem
Passados 20 anos, os Crimes de Maio seguem cercados de dúvidas — em grande parte pela falta de transparência e investigação do próprio estado. Para as mães, a ausência de respostas não é acidental: é reflexo de uma omissão deliberada do poder público.

A falta de resposta do Ministério Público e da Polícia Civil de São Paulo, combinada com a morosidade para a transferência do caso para a Polícia Federal, reforça essa suspeita. A federalização das investigações, que tiraria o caso da influência estadual e daria maior liberdade aos investigadores, aconteceu só em 2022.
Um dos exemplos mais evidentes dessa omissão é a trajetória do Ministério Público de São Paulo no caso: o órgão só entrou na investigação em 2012, seis anos após o crime. Além disso, chegou a pedir o arquivamento da investigação de 12 mortes que ocorreram na Baixada Santista em 2023.
O processo foi enviado para nível federal só quando as provas já haviam sido apagadas e pouco poderia ser feito. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconheceu a falha nas investigações dos órgãos públicos de São Paulo e julga, desde 2024, se os crimes podem ser considerados como “graves violações de direitos humanos”. Isso os tornaria imprescritíveis.
A Justiça de São Paulo, por sua vez, já havia entendido que os crimes prescreveram, inviabilizando qualquer condenação. Até hoje nenhum policial foi condenado.
Neste ano, o movimento Mães de Maio, junto da organização de direitos humanos Conectas, fez uma denúncia para a ONU sobre a omissão do Brasil na investigação dos crimes.
Outra dúvida que persiste é sobre um suposto trato feito entre o governo de São Paulo e as lideranças do PCC. Segundo depoimento de um policial civil, teria havido uma reunião no presídio de Presidente Bernardes, a 620 km da capital, onde estava a liderança da facção, o Marcola, como forma de cessar as hostilidades do grupo contra agentes de segurança pública. O encontro teria ocorrido com a anuência do então governador do estado, Cláudio Lembo, mas nunca foi oficialmente confirmado ou investigado.
“O capitão do mato só muda a farda. Ele continua sendo o Estado, aniquilando vidas humanas, encarcerando e torturando”, afirmou Débora Maria da Silva.
O suposto acordo não foi suficiente para evitar ou cessar o derramamento de sangue. No dia 15 de maio, data que a reunião teria ocorrido, as mortes se intensificaram.
Naquela segunda-feira, às 22h, Wagner Lins, filho de Sônia Lins, foi executado na Baixada Santista, em São Vicente. Menos de duas horas depois, às 23h20, Edson Rogério Silva, filho de Débora Maria da Silva, foi morto em Santos. Sônia Lins e Débora Maria se tornariam, mais tarde, lideranças das Mães de Maio.
Da solidariedade católica no cárcere à luta pela memória do filho
Desde 1997, Sônia Lins, hoje pensionista, conhece a violência do Estado brasileiro contra jovens da periferia. Católica, daquelas que gosta de frisar o apego a Deus, atua há 29 anos junto da Pastoral Carcerária. O projeto ligado à Igreja Católica faz visitas ao sistema carcerário para denunciar violações de direitos humanos e prestar assistência aos encarcerados e a adolescentes apreendidos no sistema socioeducativo.

“De lá para cá, a gente segue ajudando os meninos encarcerados, as famílias… A gente esteve também na Febem, que agora é a Fundação Casa. A gente lutou muito para que eles não [apanhassem]… Eles apanhavam muito. Era uma tortura muito grande”, contou. Ela segue como parte dos grupos da entidade que visitam os seis presídios existentes na Baixada Santista.
Solidária, ela participou de momentos marcantes nos presídios na Baixada Santista. No ano de XXX, quando existia uma unidade prisional feminina, mobilizou junto da Pastoral Carcerária uma campanha para garantir absorvente para as mulheres, que até então usavam miolo de pão para estancar a menstruação.
Sônia Lins, contudo, nunca imaginou que sentiria a violência do Estado cair sobre a sua casa, sobretudo contra seu filho caçula, Wagner Lins, um homem que teve o último almoço com a mãe aos 22 anos de idade. Ele tinha 1,94 m de altura e é descrito pela mãe como “só tamanho”.
“Só tinha tamanho. Era uma pessoa muito doce. Nunca foi de xingar… Eu nunca vi aquele menino fazer isso”, recorda.

A mãe lembra, orgulhosa, que ele foi contratado para uma pizzaria de São Vicente como auxiliar na preparação das pizzas, mas que logo ganhou o cargo de pizzaiolo principal. “Era muito inteligente”, disse.
No dia 15 de maio, uma segunda-feira, os dois almoçaram juntos. Wagner Lins saiu de casa mais tarde, porque tinha de trabalhar na pizzaria. Sônia, como qualquer mãe, pediu cuidado para o filho. As coisas nas ruas estavam estranhas. Wagner pediu para a mãe se acalmar, que tudo ficaria tranquilo. Ainda pode falar, pela última vez, “eu te amo” para a mãe.
Depois de ver que a pizzaria, assim como os demais estabelecimentos comerciais estavam fechados, Wagner Lins decidiu caminhar pelas ruas de São Vicente. Primeiro, foi visitar o sobrinho, um bebê. Depois, foi ao encontro de um primo para jogar videogame.
No caminho para a casa do primo, eles se depararam com dois homens encapuzados, de moto, que atiraram contra Wagner, o primo e outros homens que estavam em um bar. O primo foi baleado na perna. Outros dois homens que estavam em um bar de esquina também foram atingidos, mas sobreviveram. Wagner foi atingido no abdômen. Todos foram juntos para o hospital em uma ambulância: os feridos sentados de um lado, e Wagner deitado, já morto, do outro lado do compartimento para os pacientes.
A partir daí, a vida de Sônia Lins se transformou. Ela, que antes não tinha problemas de saúde, passou a acumular complicações.
“Eu era uma pessoa que não tinha nenhuma dor de cabeça, não tinha nada. Eu tomava cerveja. Aí, quando ele faleceu, eu comecei a ficar adoecida”, contou. Após o assassinato de Wagner Lins, ela teve depressão e três hérnias de disco na coluna cervical. Hoje vive com uma placa nas costas, além de ter acumulado cistos na tireóide, que foram retirados.
A vida só ganhou fôlego quando conheceu a Débora Silva, líder do movimento Mães de Maio. Ela ganhou uma nova luta, de maneira coletiva e organizada, com outros familiares da violência de Estado.
“As Mães de Maio se transformaram em uma família estendida. Quando eu preciso delas, quando eu tenho qualquer coisa, eu ligo pra elas”, afirma.
Apesar do acolhimento e do apoio oferecido pelo grupo, Sônia Lins não terá um Dia da Mães, novamente — como acontece todos os anos desde a execução de Wagner Lins. Enquanto pedia desculpas por não conseguir falar muito sobre a data, compartilhou o sofrimento deste dia.
“Para mim, esse dia é muito doloroso. Faz tantos anos que eu perdi meu filho, e não tem justiça. Agora querem prescrever, querem deixar todo mundo impune. E as mães ficam com a dor”, conta.
Edição: Camila Rodrigues da Silva.