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‘Presença das igrejas neopentecostais nas favelas faz população evangélica negra crescer’, diz teólogo

Pesquisa do Datafolha divulgada nesta semana indica que 59% dos brasileiros evangélicos são negros

15 de janeiro de 2020

O perfil do brasileiro evangélico é marcado pela característica racial, conforme aponta uma pesquisa do Datafolha divulgada no dia 13 de janeiro. Quase 60% das pessoas que compõem esse segmento religioso no país se autodeclaram negras (pretas ou pardas). O número é superior ao da proporção de negros no país, que chega a 55,8%, de acordo com a estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para João Luiz Moura, teólogo, coordenador de projetos no Instituto Vladimir Herzog e organizador do livro “Jesus e os Direitos Humanos”, a população negra é maioria entre os evangélicos em razão de as igrejas neopentecostais, aba religiosa que inclui congregações como a Igreja Universal do Reino de Deus, estarem presentes na maioria das periferias.

“A população evangélica negra tem crescido porque a igreja neopentecostal chega nos lugares que quase nenhuma outra tradição cristã e/ou social chegam”, afirma.

Segundo o teólogo, nas igrejas pentecostais localizadas nas periferias, negros e negras ocupam cargos de liderança como pastores e pastoras, irmãos de oração e autoridades comunitárias. “Desta forma, além de encontrarem acolhimento, negros e negras sentem-se reconhecidos e representados”, explica.

A pesquisa do Datafolha também mostra que o número de evangélicos tem se aproximado do total de católicos. No país, 30% das pessoas seguem a primeira religião, enquanto 50% professam a segunda. Entre os católicos, 55% são negros.

A vertente evangélica da fé cristã tem atraído mais negros do que a católica por uma questão de identificação. É o que também avalia João Luiz Moura. O teólogo destaca que o catolicismo ainda é marcado por ritos e costumes característicos da Europa, enquanto nas igrejas evangélicas neopentecostais a população negra pode se identificar de várias maneiras.

“Na igreja católica há padres que até hoje rezam missas em latim, ou seja, os negros quase não se identificam nessas comunidades. Por outro lado, nas igrejas pentecostais, assim como no candomblé e em outras expressões de matriz afro, os negros têm mais liberdade de expressar sua cultura. Nos cultos neopentecostais a linguagem corporal é bem-vinda”, analisa.

Realidade dos negros se sobressai a orientações políticas

Apesar de os negros formarem maioria entre os evangélicos, boa parte deles mantém opiniões opostas das que predominam nas igrejas. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, aponta que a população negra, assim como a feminina, é a mais crítica ao governo Bolsonaro, apoiado explicitamente por lideranças evangélicas como Edir Macedo.

“Para muitos evangélicos, especialmente os mais pobres, a realidade violenta e carente das periferias se sobrepõe às possíveis orientações políticas dos cultos”, pontua Paulino.

A pesquisa do Datafolha foi feita nos dias 5 e 6 de dezembro de 2019, com 2.948 entrevistados em 176 municípios brasileiros. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

  • Nataly Simões

    Jornalista de formação e editora na Alma Preta. Passagens por UOL, Estadão, Automotive Business, Educação e Território, entre outras mídias.

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