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Relatório documenta aumento alarmante da violência sexual em Porto Príncipe, no Haiti

Em meio à deterioração das condições de vida, número de ataques a meninas e mulheres quase triplicou no país
Imagem mostra as mãos de uma mulher negra sob um portão branco.

Imagem mostra as mãos de uma mulher negra sob um portão branco.

— Divulgação/Médicos Sem Fronteiras

31 de janeiro de 2026

A violência sexual e baseada em gênero aumentou drasticamente em Porto Príncipe, capital do Haiti, desde 2021 e tem sido usada sistematicamente para aterrorizar a população, com impacto desproporcional sobre mulheres e meninas, segundo um relatório divulgado pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) no dia 28 de janeiro. Essa crise ocorre enquanto infraestrutura, serviços públicos e condições de vida se deterioram profundamente em meio à violência generalizada e à insegurança.

O relatório “Violência sexual e baseada em gênero em Porto Príncipe, Haiti” tem como base dez anos de dados médicos e depoimentos coletados na clínica Pran Men’m, operada pela organização. Desde sua abertura em 2015, a clínica forneceu cuidados médicos e psicossociais abrangentes para quase 17 mil pessoas, das quais 98% são mulheres e meninas.

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“O número de sobreviventes de violência sexual e baseada em gênero que recebem cuidados na clínica quase triplicou — de uma média de 95 admissões por mês em 2021 para mais de 250 em 2025”, afirmou Diana Manilla Arroyo, coordenadora do projeto de MSF no Haiti. “Isso mostra como a explosão de violência no Haiti nos últimos anos teve um impacto direto sobre os corpos de mulheres e meninas em Porto Príncipe”.

O relatório mostra que mulheres e meninas de todas as idades têm sido alvo da violência, e que um número crescente de pessoas sobreviventes foi deslocado de suas casas, expondo-as a mais riscos. Quase um quinto das sobreviventes tratadas no Pran Men’m sofreu múltiplos episódios de violência sexual.

Também houve um aumento na brutalidade dos ataques. Entre as sobreviventes atendidas no Pran Men’m desde 2022, 57% relataram ter sido agredidas por membros de grupos armados, frequentemente em ataques coletivos cometidos por vários criminosos. Mais de 100 pacientes relataram ter sido agredidas por dez ou mais agressores ao mesmo tempo.

“Eles me bateram e quebraram meus dentes”, disse uma sobrevivente de 53 anos citada no relatório. “Três jovens que poderiam ser meus filhos… Quando eu me recusei a dormir com eles, me bateram e eu caí. Enquanto eu lutava, eles me chutavam nas costas, que ainda doem meses depois. Depois de me violentarem, violentaram minha filha e espancaram meu marido.”

Segundo o documento, também há falhas persistentes na oferta de serviços para sobreviventes. O MSF frequentemente não consegue encaminhar seus pacientes para assistência essencial não médica — como instalá-los em abrigos seguros, oferecer-lhes opções de realocação ou apoio para sua subsistência — que são indispensáveis para muitas dessas pessoas. Essa situação reforça a necessidade urgente de ampliar e sustentar o financiamento para serviços de proteção.

Sobreviventes também enfrentam inúmeras barreiras — como medo de estigma, dificuldades financeiras, insegurança e falta de informação — que as impedem de acessar atendimento em tempo hábil, o que traz consequências médicas graves. Desde 2022, apenas um terço das sobreviventes que procuraram a clínica Pran Men’m chegou dentro de três dias após o ataque — prazo após o qual não é mais possível prevenir a transmissão do HIV. Da mesma forma, 59% das pacientes nesse período não conseguiram acesso ao atendimento dentro de cinco dias para evitar uma gravidez indesejada.

O relatório faz um apelo por ações urgentes e coordenadas das autoridades haitianas, prestadores de serviços, financiadores, agências das Nações Unidas e atores de segurança, a fim de promover uma resposta centrada nas pessoas sobreviventes e voltada para sua recuperação de longo prazo.

“Pedimos a ampliação do acesso a cuidados médicos e psicossociais abrangentes e gratuitos, o que só pode ser alcançado por meio de um aumento sustentável no financiamento desses serviços”, afirmou Manilla Arroyo. “Igualmente importante, pedimos o reconhecimento inequívoco da natureza disseminada da violência sexual e de seu uso deliberado por grupos armados como ferramenta para controlar e subjugar mulheres e meninas. Esses são os desafios que precisam ser enfrentados para que as sobreviventes possam recuperar o controle sobre seus corpos e suas vidas.”

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