Entre janeiro e abril de 2025, os Médicos Sem Fronteiras (MSF) atenderam quase 10 mil vítimas de violência sexual apenas na cidade de Goma e arredores, na província de Kivu do Norte, leste da República Democrática do Congo. Os dados foram divulgados na quarta-feira (11) pela organização, que considera a situação uma emergência persistente e agravada pela expansão dos confrontos entre o exército congolês e o grupo armado M23.
Do total, 7.400 casos foram registrados em Goma. Em Saké, município localizado a 20 quilômetros da capital provincial, outras 2.400 pessoas buscaram atendimento em centros apoiados pela MSF. Os números refletem o aumento de episódios de violência após a desativação de campos de deslocados e a permanência de civis em abrigos improvisados, sem segurança e serviços básicos.
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“Eles me mandaram escolher entre meu corpo ou a morte”
Conforme relatado pelo o órgão de ajuda humanitária, sobreviventes relatam agressões em grupo, violência armada e assassinatos. Nasha*, atacada enquanto se abrigava com outras mulheres no pátio de uma escola, viu o marido ser morto ao tentar defendê-la diante dos filhos. Rika*, moradora de um vilarejo a 40 km de Goma, relatou ter sido ameaçada de morte para se submeter aos agressores.
Embora muitos ataques ocorram durante invasões noturnas ou emboscadas, MSF alerta que, em algumas áreas, como Goma, casos já ocorrem em plena luz do dia. A organização destaca o papel da presença de forças armadas, sejam regulares ou não, na perpetuação dos abusos e na dificuldade de responsabilização.
A violência sexual também se intensificou em Kivu do Sul. Entre janeiro e abril, cerca de 700 pessoas foram atendidas nos territórios de Kalehe e Uvira. Segundo MSF, muitas vítimas foram atacadas no caminho até os centros de saúde, obrigadas a atravessar áreas de risco após fugirem de suas casas.
Os deslocamentos forçados para áreas isoladas, como matas e montanhas, ampliaram a vulnerabilidade de mulheres e crianças. A falta de segurança nas rotas e a distância até os postos de atendimento dificultam a busca por ajuda.
Consequências sociais e riscos à continuidade do atendimento em Goma
O impacto das agressões ultrapassa o físico. A MSF observa que muitas vítimas enfrentam estigma, rejeição familiar, ruptura de vínculos conjugais e traumas duradouros. Homens e meninos também são afetados, embora em menor escala.
A organização oferece tratamento médico e psicológico em Goma, Rutshuru, Masisi e Walikale (Kivu do Norte), além de Kalehe e Uvira (Kivu do Sul). Os atendimentos incluem profilaxia contra infecções sexualmente transmissíveis, contracepção de emergência, vacinação, apoio ao aborto seguro e encaminhamento hospitalar.
Entretanto, a continuidade dos serviços está ameaçada. A escassez de medicamentos e materiais, provocada pela instabilidade e pela redução do financiamento internacional, compromete a assistência. Os hospitais operam sob pressão e os centros de saúde enfrentam dificuldades crescentes.
François Calas, coordenador de programas da MSF em Kivu do Norte, defende a urgência da resposta. A organização exige garantias de segurança para civis e acesso pleno aos cuidados. “O cuidado às vítimas deve ser tratado como prioridade absoluta”, afirmou em nota.
*Os nomes das vítimas foram alterados para preservar suas identidades.