A trajetória da ex-jogadora da Seleção Brasileira de Vôlei Hélia de Souza, conhecida como Fofão, evidencia os desafios enfrentados por mulheres no esporte.
Ao longo de 30 anos de carreira, a atleta se consagrou como uma lenda na modalidade e se tornou a primeira treinadora da seleção de vôlei. Referência como levantadora e campeã olímpica, Fofão relembrou, em entrevista à Alma Preta, as barreiras que enfrentou para chegar onde está e o projeto social que desenvolve.
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A ex-camisa 7 permaneceu 17 anos na seleção, participou de cinco Olimpíadas e conquistou dois bronzes — em Atlanta 1996 e Sydney 2000 — além do ouro em Pequim 2008 como capitã da equipe. A atleta também acumulou seis títulos do Grand Prix, seis títulos da Superliga e conquistas como campeã sul-americana e campeã pan-americana.
Diante de tantos títulos, Fofão afirma que só teve dimensão do impacto de sua carreira após encerrar a trajetória como atleta na última olimpíada.
“Subir no pódio, conquistando a medalha olímpica, sendo capitã daquela seleção, foi muito importante. Tem muitos significados ali, porque existe uma luta muito forte por trás daquela conquista. Não é só aquela medalha em si, é toda a minha história, tudo aquilo que desejei na minha vida e lutei para fazer da melhor maneira possível. Sempre joguei vôlei por amor, e você não tem a dimensão do que acontece, do que você representa para as pessoas. Só fui ter essa dimensão quando eu parei de jogar”, diz.
Ao comentar o desafio de assumir o cargo de treinadora, Fofão destaca a responsabilidade como mulher negra de ocupar um espaço historicamente dominado por homens e de dar continuidade a uma função que nunca havia sido exercida por uma mulher.
“Um esporte que existe há tantos anos, mas que nunca tinha sido comandado por uma mulher. Na minha trajetória foi muito importante mostrar que as mulheres têm capacidade de dirigir qualquer coisa. Muitas vezes o que falta é oportunidade e alguém acreditar que realmente somos capazes”, reforça.

Da periferia à referência no esporte
Nascida no bairro Lauzane Paulista, na periferia da Zona Norte de São Paulo, a ex-atleta afirma que sempre buscou ser uma referência positiva para outras pessoas, especialmente para as periféricas.
“Sempre quis ser uma referência positiva, até porque também sou uma mulher negra. A responsabilidade é maior, porque os olhares se voltam para você. Eu queria demonstrar a capacidade das pessoas da periferia, de onde eu vim, e mostrar que é possível mudar a nossa realidade”, afirma.
O início da carreira foi marcado por dificuldades financeiras e pelos desafios para se manter no esporte, devido à falta de recursos.
“O início foi muito difícil. Vim de uma família sem muitas condições financeiras e o vôlei é um esporte caro e elitizado. Se você não tiver um tênis ou uma joelheira, você não consegue estar ali no meio. Tive que me adaptar a esse ambiente sem muitas condições para treinar. Depois veio outro desafio, que foi me firmar em um ambiente muito competitivo”, recorda.
Outra barreira na trajetória de Fofão foi a distância da família e as exigências por alto rendimento. Segundo a ex-atleta, o apoio dos pais foi fundamental para continuar no vôlei e nos estudos.
“Encontrei muitas barreiras que eu tive que ir quebrando, mas venci através da educação, de ter pai e mãe que me deram uma boa educação para poder superar esses momentos. O maior desafio para mim era a distância, com 17 para 18 anos eu saí de casa e nunca mais voltei. E nas quadras era o dia a dia, superar lesões, superar dores”, comenta.
Em reconhecimento à trajetória no esporte, Fofão foi incluída em 2015 no Hall da Fama Internacional do Vôlei, nos Estados Unidos. Em 2022, também foi homenageada no Hall da Fama do Comitê Olímpico do Brasil (COB), em alusão à sua contribuição ao esporte olímpico.
Atuação fora das quadras
Além da carreira esportiva, Fofão atua como sócia e embaixadora de uma marca de cosméticos voltada para cabelos cacheados e crespos. O convite veio durante seu processo de transição capilar, quando ela buscava aprender a cuidar do próprio cabelo.
“Eu me identifiquei muito porque realmente é algo pensado para o nosso tipo de cabelo, cacheado e crespo. Fiquei muito feliz de fazer parte disso, porque acho que precisamos ter produtos que nos representem”, comenta.
A paixão pelo esporte também a motivou a criar o “Projeto Fofão 7”, uma escola de vôlei no bairro onde nasceu, na capital paulista. A iniciativa aposta no esporte como ferramenta de transformação social.
“A gente dá oportunidade para as crianças conhecerem o esporte e sentirem que são capazes de mudanças através dele. Não é um trabalho de alto rendimento, nem para formar futuros atletas profissionais. A gente quer formar seres humanos, e isso sempre foi meu sonho”, conclui.
O projeto também busca promover valores como disciplina, convivência e desenvolvimento pessoal entre as crianças e os jovens atendidos.
Edição: Nataly Simões