A pesquisa “Sonhos da Favela 2026“, realizada pelo instituto de pesquisa Data Favela com 4.471 moradores de comunidades de todas as regiões do Brasil, identificou trabalho, renda e moradia como as três prioridades centrais para os próximos anos. Os dados mostram um cenário de vulnerabilidade econômica que molda essas demandas: 60% dos entrevistados sobrevivem com até um salário mínimo e 60% não possuem uma renda fixa.
A amostra é majoritariamente composta por adultos entre 30 e 49 anos (58%), mulheres (60%) e pessoas que se declaram pretas ou pardas (82%). A situação no mercado de trabalho é marcada pela precariedade, apenas 30% possuem emprego formal com carteira assinada. Outros 34% estão na informalidade, 17% estão desempregados e 8% estão fora da força de trabalho. Apenas 15% dos entrevistados declararam receber mais de R$ 3.040 por mês.
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Quando questionados sobre seus sonhos profissionais, 38% dos moradores afirmam que desejam ter um negócio próprio. Outros 24% almejam trabalhar com o que amam e 16% pretendem passar em um concurso público. Para 64% deles, o principal obstáculo à realização desses planos é a falta de acesso à dinheiro.
O estudo foi realizado por amostragem, com aplicação de questionário on-line via WhatsApp entre moradores de favelas das cinco regiões do Brasil. A amostra de 4.471 respostas foi ponderada por região conforme dados do Censo 2022 do Instituto Brasilero de Geografia e Estatística (IBGE),, com ênfase nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Infraestrutura precária e desconfiança no Estado
A busca coletiva por trabalho e renda ocorre em um território onde a infraestrutura pública não oferece a base necessária para o desenvolvimento. Saneamento básico (26%), educação (22%) e saúde (20%) são as principais mudanças que os moradores citam para seus territórios. Em relação à avaliação de serviços já existentes, 40% consideram o acesso à saúde apenas “regular”, e 31% o avaliam como ruim ou muito ruim. Na região Norte, esse índice negativo sobe para 36%.
O acesso à internet, essencial para estudos e trabalho remoto, é considerado ruim ou instável por 33% dos moradores. Equipamentos de esporte, lazer e cultura são avaliados como ruins ou muito ruins por 35% da população.
A desconfiança nas instituições estatais, em especial nas forças de segurança, separa os moradores do poder público. Seis em cada dez entrevistados (60%) afirmaram não confiar na polícia para protegê-los. No Rio de Janeiro, esse índice chega a 70%. A presença policial no território gera medo e insegurança para 13% dos moradores; em São Paulo, esse percentual sobe para 29%.
Apesar desse cenário, o principal anseio para 2026 no tema segurança não é por mais repressão, mas por garantias básicas. Entre os entrevistados, 47% desejam simplesmente o direito de ir e vir com tranquilidade. A pesquisa também revela que, enquanto 60% não confiam na polícia, a mesma proporção afirma se sentir mais segura e respeitada dentro da própria favela do que em outros bairros da cidade.
Demandas específicas de mulheres: emprego como escapatória da violência
Para as mulheres, que representam seis em cada dez entrevistados, a questão do trabalho e da renda se conecta diretamente com a luta por sobrevivência e autonomia. Elas apontam a violência doméstica e o feminicídio como o maior desafio que enfrentam dentro da favela, com 70% das citações. A dificuldade com emprego e renda aparece em seguida, com 43%.
Nesse contexto, a política pública considerada mais urgente para as mulheres é a inserção no mercado de trabalho, com 62% das menções. Essa demanda é vista como um mecanismo concreto para gerar liberdade financeira, considerada uma ferramenta fundamental para que possam sair de ciclos de violência. Em São Paulo, 29% das entrevistadas também destacam a necessidade de delegacias e serviços de atendimento 24 horas para vítimas de violência.
A sobrecarga com o trabalho de cuidado familiar também é um desafio relevante, especialmente em São Paulo, onde quatro em cada dez mulheres apontam o apoio com os filhos como o segundo maior obstáculo que enfrentam.
Demandas da população negra: o peso da cor da pele nas oportunidades
A pesquisa confirma que a favela é majoritariamente negra. Quando questionados, 82% dos entrevistados se declaram pretos ou pardos. Desse total, 37% se entendem como pardos de cor clara e 23% como pretos de cor clara.
A questão racial se mostra uma barreira tangível no acesso a oportunidades. Metade dos entrevistados (50%) afirma que a cor da sua pele impacta suas chances na vida. Essa percepção se materializa no mercado de trabalho, onde a informalidade e o desemprego atingem de forma mais acentuada essa população.
Quando questionados sobre quais ações o poder público deveria promover para mitigar a desigualdade racial, 40% dos respondentes citam a criação de programas focados no mercado de trabalho para pessoas negras e o fortalecimento de ações afirmativas na educação, como as cotas raciais. Outros 30% mencionam a necessidade de apoio ao crédito para empreendedores negros. No Rio de Janeiro e em São Paulo, 28% dos entrevistados também consideram o combate à violência como uma política racial urgente.