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TrazFavela: plataforma democratiza entregas nas periferias de Salvador

“A periferia não é só violência, também tem sua potência”, diz um dos idealizadores da iniciativa, Iago Santos; iniciativa é a única do NE selecionada para a fase final de competição que elege as melhores startups do Brasil

Texto: Dindara Ribeiro | Edição: Lenne Ferreira | Foto: Divulgação/Traz Favela

TRAZ-FAVELA-site

8 de setembro de 2021

Só quem vive em áreas socialmente vulnerabilizadas sabe a dificuldade que é pedir delivery e descobrir que o aplicativo não faz entrega no bairro onde você mora. Por mais que você possa pagar a taxa de entrega, a estigmatização que alguns bairros periféricos sofrem cria uma resistência das empresas em apostarem nessas comunidades como mercado consumidor. Foi pensando em mudar essa realidade que Iago Santos, Ana Luiza Sena e Marcos Silva criaram o TrazFavela (@trazfavela), plataforma que democratiza as entregas nas periferias de Salvador.

Em entrevista à Alma Preta, o designer gráfico e um dos idealizadores da startup, Iago Santos, contou que a iniciativa partiu de um incômodo próprio, quando percebeu que as empresas não chegavam no bairro onde ela mora, em São Caetano, periferia da capital baiana.

“Surgiu de uma dor pessoal minha, em 2018. Onde eu trabalhava, no Centro, eu tinha acesso a diversos aplicativos de delivery, recebia cupons de desconto, várias coisas, mas quando eu chegava no meu bairro já alegava que estava fora da área de cobertura. Minha condição financeira, na época, estava bem tranquila e eu conseguiria pagar até o frete mais caro, mas mesmo assim eu não recebia […] Senti que era uma lacuna que não estava sendo atendida e pensava: “A galera do meu bairro deve passar pela mesma coisa que eu”, relata o empreendedor.

TRAZ FAVELA inside“Senti que era uma lacuna que não estava sendo atendida”, diz Iago Santos, um dos idealizadores do Traz Favela | Foto: Arquivo Pessoal/Traz Favela

O projeto surgiu em 2018 e, desde o início da pandemia, tem ajudado comerciantes e empresas que tinham dificuldades em fazer entregas justamente por causa do preconceito das empresas que oferecem esse tipo de serviço. Atualmente, o TrazFavela conta com 33 comerciantes, além de um banco de dados com 22 entregadores também oriundos de bairros periféricos, o que também contribui para ampliar o alcance de empreendimentos tocados por pessoas que conhecem e vivem nessas localidades.

Ingrid Reis foi uma das primeiras comerciantes a fazer parte do TrazFavela e faz as entregas com a intermediação desde 2019. Dona de um Sexy Shop na periferia da Fazenda Grande do Retiro, em Salvador, ela conta que antes tinha problemas em encontrar motoboy para fazer as entregas e já chegou a perder clientes por causa da dificuldade. Com a ajuda da plataforma, ela já triplicou as vendas e conquistou novos clientes.

“As vendas melhoraram bastante por conta da entrega à domicílio. Eu tive mais credibilidade, mais confiança, novos clientes. Vamos dizer que as vendas triplicaram graças à entrega do TrazFavela. Desde que eles me ofereceram o serviço eu confiei em imediato, não tenho problema com nenhuma entrega, todas são realizadas”, diz a empresária do sexy shop Doce Veneno (@docevenenosexyshop).

Com empreendimento no bairro de Narandiba, Gabriela Vieira é empresária da Cesta com Afeto (@cestascomafeto.ba) e está com o Traz Favela há dois anos. Para ela, a acessibilidade fornecida aos comerciantes é um dos pontos positivos.

“O Traz Favela ajudou a ‘Cestas com Afeto’ com o seu serviço pelo profissionalismo e abordagem diferenciada, com entregadoras mulheres, a minha experiência sempre foi positiva, mesmo nos imprevistos consegui ter as minhas demandas atendidas. A acessibilidade e pontualidade são o seus diferenciais”

O aplicativo funciona da seguinte forma: o comerciante recebe o pedido do cliente e envia a demanda pelo WhatsApp do TrazFavela, que é um intermediador. A partir daí, a plataforma aciona um entregador para levar o pedido ao cliente final. Hoje, o Traz Favela atua em 20 bairros da capital baiana, além de cidades da região metropolitana. Para se ter uma ideia, quando o Traz Favela começou a funcionar, no início da pandemia, foram feitas 42 entregas, totalizando 2.500 entregas em 2020. Atualmente, 100 entregas são feitas mensalmente em diversas localidades de Salvador, abrangendo também as regiões não periféricas e de classe média.

“Já tivemos clientes na Graça, no Garcia, na Pituba… A gente é bem diversificado e acaba atuando em toda a cidade”, explica Iago. O co-fundador também faz questão de pontuar que, muitas vezes, não são os entregadores que têm preconceito de entregar na periferia, mas sim, as empresas.

“O preconceito não está nos entregadores, está mais nos aplicativos do que nos entregadores em si. Claro que tem bairros que têm os seus problemas, mas todos os bairros têm. Mais de 90% dos entregadores são de áreas periféricas, então eles entendem que nesses locais tem comércios que precisam ser atendidos, não só nas áreas nobres […] Tem um recorte social nisso que acaba trazendo uma visibilidade para as periferias muito ruim e é algo que a gente sempre tenta combater. A periferia não é só violência, também tem sua potência”.

Visibilidade

Depois de ter passado por vários projetos para o desenvolvimento da plataforma, o TrazFavela agora participa da competição nacional ‘Amcham Arena’, realizada pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil, que visa reconhecer as melhores startups do Brasil. A Traz Favela é a única startup da Bahia selecionada para a fase final da competição.

“Essa ideia de abrir portas, alcançar lugares que um favelado não iria – na verdade, iria, mas lutando 4 vezes mais -, e ser o único representante da Bahia dentro dessa competição quer dizer que o que a gente luta hoje está sendo sentido pelos outros. Eu só estou sendo representante dessa luta. A Ana Luiza, o Marcos, os entregadores, os comerciantes… o apoio deles sempre motivou. E não é parar por aí, é tentar crescer, expandir para o Brasil e entender que a Traz Favela é uma representante da favela para o mundo”.

O TrazFavela ainda funciona por meio de atendimento no WhatsApp e está em fase de desenvolvimento de quatro aplicativos voltados para os comerciantes, entregadores, clientes e um canal de suporte. Sem dar muitos “spoilers“, Iago contou que o lançamento vai acontecer em breve pois ainda depende de ajustes. Para o futuro, a ideia é expandir o negócio para bairros periféricos de outros três estados: Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

A plataforma fornece pacotes de serviços com preços acessíveis para os comerciantes e os interessados em fazer parte do TrazFavela podem acessar as redes sociais, site ou entrar em contato com o número da central (71) 9 9407-4309 para mais informações.

Leia também: Plataforma reúne afro-empreendedores e empresas comandadas por pessoas negras

  • Dindara Paz

    Baiana, jornalista e graduanda no bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade (UFBA). Me interesso por temáticas raciais, de gênero, justiça, comportamento e curiosidades. Curto séries documentais, livros de 'true crime' e música.

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