Pelo menos 188.694 crianças e adolescentes da rede municipal do Rio de Janeiro tiveram seus trajetos casa–escola afetados por interrupções no transporte público causadas pela violência armada entre janeiro de 2023 e julho de 2025.
Os dados integram o estudo “Percursos interrompidos: efeitos da violência armada na mobilidade de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro”, lançado nesta quinta-feira (26) pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Instituto Fogo Cruzado e Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos (GENI/UFF).
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No período, 2.228 interrupções foram registradas no sistema de transporte da cidade. Embora amplamente disseminadas, as ocorrências se concentram em determinados territórios, revelando que a mobilidade interrompida afeta de forma desproporcional alguns bairros e comunidades.
Das 4.008 unidades escolares ativas em 2024, cerca de 95% (3.825 escolas) registraram ao menos uma interrupção do transporte público em seu entorno ao longo do período analisado.
As interrupções duram tempo suficiente para inviabilizar um dia inteiro de aula. A média registrada foi de sete horas por evento, e um quarto das ocorrências ultrapassou 11 horas. Quando acontecem em dias letivos e horário escolar (quase metade dos casos, com 1.084 registros), o impacto é ainda maior: a duração média sobe para 8 horas e 13 minutos, e mais da metade dos episódios passa de quatro horas.
Barricadas responderam por 32,4% dos registros em horário escolar, seguidas por ações ou operações policiais (22,7%). Manifestações (12,9%), ações criminosas no local (9,6%) e registros de tiros ou tiroteios (7,2%) também aparecem entre as causas.
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Territórios mais afetados
Penha, Bangu e Jacarepaguá aparecem como os principais epicentros da mobilidade interrompida, acumulando, respectivamente, 633, 175 e 161 eventos.
Em duração acumulada, a Penha permaneceu o equivalente a 176 dias sem circulação de transporte público. Jacarepaguá registrou 128 dias de interrupção acumulada, enquanto Bangu somou 45 dias.
No recorte de horário escolar, Penha e Jacarepaguá somaram, respectivamente, 296 e 108 ocorrências, correspondendo juntas a cerca de 88 dias letivos de paralisação. Em contraste, 70 dos 166 bairros do município não apresentaram qualquer registro de interrupção nesse período.
A análise demonstra que as interrupções incidem de maneira desigual sobre o território carioca.
A concentração dos eventos em determinados bairros revela que a mobilidade interrompida se organiza em áreas já marcadas por desigualdades urbanas e raciais.
Das mais de 4 mil escolas municipais, apenas 120 (2,9%) foram classificadas como de risco Alto ou Muito Alto. A Zona Norte reúne 71 dessas escolas (59,2% do total), seguida pela Zona Oeste, com 48 unidades (40%). Embora a maior parte das matrículas (72,5%, ou 911.216 estudantes) esteja em escolas de menor risco, 25,8% — 323.359 crianças e adolescentes — estão vinculadas a escolas com risco Moderado, Alto ou Muito Alto.
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Recomendações para ação imediata
O estudo aponta medidas prioritárias para proteger o direito à educação e reduzir desigualdades. Entre as recomendações está a integração do monitoramento de incidentes e dados operacionais em tempo real.
O objetivo é garantir resposta rápida e coordenação entre transporte, segurança pública e educação.
Outra medida proposta é a instituição de planos de continuidade da mobilidade em territórios críticos, com rotas alternativas e protocolos claros. Esses planos devem assegurar a proteção integral de crianças e adolescentes mesmo em contextos de instabilidade.
O fortalecimento da governança intersetorial também aparece como prioridade. A coordenação permanente entre transporte, segurança pública e políticas sociais deve proteger atividades essenciais, especialmente a educação.
A prevenção territorial estruturada, com participação de adolescentes, jovens e comunidades locais, é apontada como forma de reduzir vulnerabilidades que tornam recorrentes as interrupções.
Por fim, o estudo recomenda a garantia de continuidade educacional e suporte psicossocial para crianças, adolescentes, famílias e profissionais nas áreas mais afetadas.