Enviado especial a Boma, na República Democrática do Congo.
Boma, uma cidade à 468 km de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo (RDC), não tem monumentos ou locais de memória sobre o passado escravista da região. Como em outras áreas do país, existem avenidas em homenagem ao processo de independência, que aconteceu em 1960, e ao líder da luta contra os belgas, Patrice Lumumba.
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Os moradores da cidade, quando perguntados sobre a saída de escravizados para o Brasil, negam que isso aconteceu em Boma. Para eles, o comércio de seres humanos ocorria em outras cidades mais ao norte, ou próximas ou dentro do território de onde hoje é Angola.
“As pessoas não têm informações sobre a escravidão. Os congoleses falam sobre isso, em textos, em tudo. Mas não existe um monumento, uma estátua, nada”, conta Igor Matonda, pesquisador da Universidade de Kinshasa.
Para Matonda, que participa de pesquisas com brasileiros sobre o passado escravagista dos dois países, um dos motivos para isso é o cenário atual e as demandas urgentes vividas pelo povo congolês.
“Por conta da guerra, não há uma memória sobre a escravidão”, conta.
Há 29 anos a República Democrática do Congo vive um conflito na parte Leste do país. Hoje, o principal algoz é o grupo armado M23, apoiado por Ruanda. Segundo dados das Nações Unidas divulgados em 2014, mais de 5 milhões de pessoas haviam perdido a vida na região.
No caminho de Kinshasa para Boma, uma viagem de 8h de ônibus, existem três barreiras militares, mesmo no extremo Oeste do país, milhares de quilômetros do conflito.
As pesquisas sobre a escravidão na região da África Central
Entre 2015 e 2016, um grupo de pesquisadores da RDC visitou a região de Boma e escreveu o artigo “Primeiros levantamentos arqueológicos na foz do rio Congo”, texto assinado por Igor Matonda e os demais participantes da imersão.
Eles foram para a região para entrevistar pessoas, registrar a memória oral sobre a escravidão, e fazer trabalhos de arqueologia. Ao todo, encontraram oito locais com objetos na cidade do período escravista e colonial.
Durante as escavações, foram encontrados itens de origem inglesa, produzidos por manufaturas do século XIX. Outros fragmentos de cerâmica também foram encontrados durante os trabalhos, mas que dizem respeito a outros períodos históricos, anteriores ao nascimento de Cristo.
Os estudos contribuem para compreender os impactos da escravidão naquela área. A região da África Central, que hoje inclui a RDC, tem uma longa trajetória de exploração e venda de pessoas, conforme conta Marcos Leitão de Almeida, professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP).
“Essa região do Congo tem essa qualidade trágica de ser uma das primeiras áreas que começou a negociar escravizados e a última, praticamente a última do Oceano Atlântico, da África Atlântica, a negociar escravizados. Então é uma história bastante marcada pela escravidão”, conta. Os dados mostram que pelo menos desde 1502 essa região já fornecia pessoas escravizadas para o mundo e que isso seguiu até 1866, data do registro do último navio a partir da região.
A pesquisa “Para além do Congo – seguindo a origem linguística das origens de escravos que deixaram Angola entre 1811-1848” mostra o destino dessas embarcações. Os colonizadores acessaram a região, para além da costa, com o objetivo de capturar pessoas para o Brasil, Cuba, Estados Unidos e Haiti.
Somente entre os anos de 1821 e 1834, os portos de Boma e Cabinda exportaram 150 mil pessoas. Cabinda era o principal e Boma, o complementar, e ambos representavam 70% das exportações de pessoas da época.
Os dados ainda mostram que, entre 1825 e 1830, essa região enviou 143 barcos de escravizados para o Rio de Janeiro, 20 de Boma e 96 de Cabinda, e que, durante os anos de 1820, ofereceu 18% de todos os escravizados levados para o Brasil. Somente em 1829, foram enviadas 14.500 pessoas para o Rio de Janeiro.
A busca por pessoas na região aumentou com as pressões dos ingleses para o fim do tráfico de seres humanos. Em 1807, a coroa britânica proibiu escravizados no seu império e, a partir de 1845, passou a equivaler o tráfico de pessoas ao crime de pirataria.
Com isso, os comerciantes, que antes exploravam mais os portos de cidades que hoje estão na costa de Angola, passaram a buscar pessoas em Boma, na RDC, mais distante do radar dos ingleses. As estimativas é que durante os últimos 25 anos de tráfico de seres humanos, 200 mil pessoas tenham saído da região.
Marcos Leitão de Almeida apresenta os impactos negativos do tráfico de seres humanos naquela região.
“Nessa região do baixo Congo foi bastante profundo esse impacto demográfico do tráfico nessa região. A gente fala aí de 2 milhões de pessoas que foram escravizadas de 1817 até 1850 e o tráfico da costa do Congo”. Desse total, ele estima que entre 500 mil e 600 mil pessoas foram para o Brasil, um número descrito como “alarmante”.

A cidade de Boma, a primeira capital da RDC
Para chegar de Kinshasa, capital do país, à cidade de Boma, é necessária uma viagem de 8h de ônibus. Com uma estrada irregular, ora com asfalto, ora terra batida, as regularidades ficaram com a ausência de luzes, regra levemente quebrada pelas lanternas de soldados das barreiras militares de controle, e a rumba congolesa, trilha sonora de todo trajeto.
No centro, perto de onde os ônibus de outras cidades chegam, há um monumento com o símbolo do município, uma mulher agricultora, com um machado em uma das mãos, um saco nas costas, com uma calça azul, uma camiseta vermelha, e um pano amarelo na cabeça, um jogo de cores em alusão à bandeira congolesa. Ali ficam comerciantes de frutas, principalmente mexerica e banana, e de empresas de telefonia, na RDC usadas para por crédito de internet nos celulares.
Da região central ao porto, 10 minutos de moto. Para acessar o porto, 10 dólares são necessários para o segurança abrir os portões. Era domingo e a maior parte das atividades estavam paradas.

No porto, o segurança disse que ali não existem marcas da escravidão, que os escravizados saiam da região de Muanda, a cidade vizinha. Essa informação é compartilhada pelos demais congoleses da cidade, algo negado pelos pesquisadores do tema.
Igor Matonda, pesquisador da Universidade de Kinshasa, conta que ainda faltam estudos para identificar exatamente onde ficavam os locais precisos da escravidão. Essas dúvidas são razões para exigirem mais pesquisas.
“A única questão sobre Boma é se a cidade de hoje é a mesma do período colonial. Houve mudanças da antiga Boma, então a antiga Boma pode ser mais para baixo no Rio Congo, pode ser entre Boma e Muanda [outra cidade da região]. Tem um lugar chamado Luangwan Zambi, e aparentemente é lá onde era o antigo porto. É isso que as pesquisas podem explicar”, afirma.

Muanda e as falsas memórias
A distância entre Boma e Muanda é de uma viagem de 1h, com uma estrada sem muitos buracos. A viagem só é interrompida pelas duas barricadas militares e os pedidos de dinheiro dos policiais e soldados congoleses.
O local onde os moradores de Muanda afirmam guardar as memórias da escravidão fica distante do centro da cidade. No caminho, é possível ver o litoral, repleto de pescadores e pequenos quiosques. Mais perto do local, o motorista precisa de cautela no volante para desviar o carro de quintais de famílias com crianças e animais, como galinhas e cabras.
O primeiro local era um buraco, com uma escada de ferro, com pesadas correntes na parte de baixo e um caldeirão. “É ai onde os escravizados cozinhavam”, disse o motorista e guia.
Uma pequena informação ao lado dizia que o local estava em manutenção, e que era proibido descer até a base da área rebaixada. Ao lado, uma coberta construída, uma casa sem paredes, onde ficavam os escravizados antes de partirem para o portal.
Igor Matonda, pesquisador da universidade de Kinshasa, afirma que os objetos dessa área são falsos e foram construídos mais recentemente, apesar dos estudos históricos apontarem que na cidade também houve comércio de pessoas.
“Em Muanda, os artefatos apresentados como da escravidão são, na verdade, falsos. Eles são objetos falsos. Eles não têm nada a ver com o processo de escravidão. Sim, os navios chegavam em Muanda, mas tudo o que é apresentado é completamente falso. A famosa corrente era do mastro de um navio. As pessoas pegaram isso na década de 1990, quando um projeto sobre a escravidão foi lançado”.

As influências da região sobre o dia a dia brasileiro
O artigo “Malungu, n’goma vem”, escrito por Robert Slenes, aborda as influências linguísticas da África Central sobre o Brasil. O principal exemplo é o termo “malungo”, utilizado até os dias de hoje no Brasil para descrever uma comunidade.
A palavra aparece como sinônimo de amizade ou companheirismo por parte dos africanos que eram escravizados no Brasil.
O termo era principalmente utilizado por pessoas do chamado tronco Bantu, como falantes de Kikongo, Umbumdu e Kimbundu. Diante de variações e do uso das palavras no Brasil, o termo se consolidou com o significado de “companheiro de barco”, em referência à travessia feita da África para o Brasil.
Outra maneira de atestar a presença desses grupos no Brasil é por meio da influência na cultura dos jongos.
“Esses jongos, coletados em entrevistas com ex-escravos, contêm palavras africanas, ou expressões africanas traduzidas, inseridas em frases de português. Eles retratam situações em que os escravos – agora, no final do período do cativeiro, predominantemente crioulos – recorriam a sua herança africana, trocando de códigos para não serem entendidos por senhores e feitores”, diz o artigo.
A palavra “Ngoma” tem o significado de “tambor” para as línguas de origem bantu. No Brasil, a ngoma era um tipo de tambor, que hoje é chamado de “tambu”.
