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Organizações negras denunciam invisibilidade de pautas raciais no novo PNE

Documento aponta ausência de mecanismos para monitorar desigualdades raciais e de gênero e cobra participação social na implementação do Plano Nacional de Educação
Imagem mostra duas estudantes, de costas, caminhando abraçadas com mochilas nas costas.

Imagem mostra duas estudantes, de costas, caminhando abraçadas com mochilas nas costas.

— Marcelo Camargo/Agência Brasil

17 de julho de 2026

O Fórum Levantes Negros pela Educação, articulação que reúne educadoras de organizações do movimento social nas regiões Amazônia e Nordeste, publicou uma carta aberta em que denuncia a invisibilidade de pautas raciais e de gênero no novo Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em 2026. 

O documento, intitulado “O que as mulheres negras do Nordeste e da Amazônia estão refletindo sobre o novo PNE (2024-2034)”, é assinado pela Rede de Mulheres Negras do Nordeste, pelo Odara – Instituto da Mulher Negra e pelo Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), entre outras entidades.

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A carta afirma que as pautas e propostas consideradas “inegociáveis” pelas organizações foram invisibilizadas no novo PNE. “A invisibilidade dessas pautas pode significar a continuidade do epistemicídio, isto é, a exclusão de nossos saberes e cultura”, afirma o documento, citando a pensadora Sueli Carneiro.

O documento critica a ausência de mecanismos robustos para garantir a implementação da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas. 

As organizações afirmam que o enfrentamento ao racismo aparece de maneira difusa no plano, “escondida sob o conceito de equidade”. 

“É inadmissível que nossas escolas ainda centralizem a história e a cultura europeias”, afirma o texto.

A carta também denuncia o uso do termo “sexo” em vários momentos do documento, em substituição a “gênero”, o que as organizações classificam como “um retrocesso gritante diante do avanço das discussões sobre gênero e diversidade”.

O documento remonta à trajetória histórica do movimento negro na educação, desde o período pós-abolição até a aprovação da Lei 10.639/03 em 2003. 

A linha do tempo apresentada na carta inclui a fundação da Frente Negra Brasileira (1931), o Teatro Experimental do Negro (1944), a fundação do Movimento Negro Unificado (1978) e a Marcha Zumbi dos Palmares (1995).

As organizações destacam que a Lei 10.639/03 “representa uma conquista histórica do Movimento Negro brasileiro e evidencia o papel central das lutas sociais na transformação das políticas educacionais”. 

No entanto, afirmam que a lei não se efetivou plenamente por falta de monitoramento, financiamento e participação social.

Leia mais: Por anos ignoradas, agora crianças negras entram no centro do novo PNE

Propostas para o monitoramento do PNE

As organizações assumem como diretriz o fortalecimento do controle social e do acompanhamento permanente da implementação do PNE. Defendem a produção de indicadores desagregados por raça, gênero e território, a garantia de recursos para a Educação das Relações Étnico-Raciais e a ampliação da participação da sociedade civil nos processos de monitoramento.

O documento também reivindica o monitoramento efetivo das políticas de educação para pessoas privadas de liberdade e denuncia a falta de dados oficiais sobre a realidade educacional nas unidades socioeducativas.

“As mulheres negras já são, historicamente, as principais articuladoras da educação que faz frente ao racismo nos territórios”, afirma a carta, que cita pesquisa da Coletiva de Mulheres Negras da Paraíba – Abayomi apontando que mulheres negras representam 38,4% das participantes e são protagonistas na luta pela implementação da lei.

A carta aberta enfatiza o princípio da educação como direito e não como benefício. Denuncia o desrespeito à carga horária mínima, a falta de certificação e o encaminhamento de matrícula para a educação no pós-medida em unidades socioeducativas.

“A implementação do PNE significa para nós a possibilidade de criar condições para que meninas, mulheres, crianças e comunidades negras possam existir, aprender, ensinar e sonhar em contextos livres do racismo, do sexismo e de todas as formas de violência”, concluem as organizações.

Leia mais: Cresce o acesso, persiste a desigualdade: os desafios da educação infantil para crianças negras no país

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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