“Não fazemos só comida. Estamos levando cultura, memória e ancestralidade para toda cidade brasileira”. Essa é a proposta do projeto Chez Kimberly Food, liderado pelo chef Rikler Makabu Sekelembe, produtor cultural e palestrante natural da República Democrática do Congo, ao difundir no Brasil a gastronomia africana e as tradições de seu país.
Em entrevista à Alma Preta, Sekelembe conta como o empreendimento criado há seis anos no Rio de Janeiro o ajudou a reencontrar suas raízes na gastronomia.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
A iniciativa surgiu durante uma visita do chef a uma prima, que também deixou a RD Congo. Ao perceber a presença de imigrantes africanos na cidade, mas a ausência de iniciativas voltadas à cultura africana, Sekelembe decidiu reunir amigos aos domingos para cozinhar pratos típicos. “Começamos a nos encontrar todo fim de semana, eu levava a comida, preparava os pratos e assim nasceu o projeto”, relata.
A relação do profissional com a cozinha começou ainda na infância. Único homem em uma família com cinco mulheres, ele aprendeu a cozinhar com a mãe e a irmã. Para o congolês, a comida é uma forma de preservar memórias e fortalecer a conexão com a própria identidade.
“Perguntei para a minha mãe qual era o segredo da comida dela e ela respondeu que era amor e paciência. É isso que tento transmitir. Já vi gente chorar ao provar um prato e lembrar da avó”, conta.
Entre as receitas servidas pelo chef está o prato “Sekelembe”, feito com a folha fumbwa e pasta de amendoim. O prato possui uma história ligada à guerra civil em Angola, conflito que durou 27 anos e levou muitos angolanos a se refugiarem na RD Congo. Segundo o congolês, foi nesse contexto que a folha passou a ser consumida como alimento.
“As pessoas fugiram da guerra de Angola e vieram para o Congo. No meio do mato, descobriram essa folha”, compartilha.

Semelhanças com o Brasil
Sekelembe destaca a proximidade entre ingredientes usados no Brasil e na culinária da RD Congo e de Angola, como folha de mandioca, dendê, banana-da-terra e batata-doce.
Um exemplo é o Pondu, ensopado tradicional da República Democrática do Congo feito com folhas de mandioca. No Brasil, há semelhança com a Maniçoba, prato típico da culinária paraense.
“No Congo, chama Pondu, que é folha de mandioca. Em Angola se chama kizaka e aqui no Brasil se chama Maniçoba, mas são pratos um pouco parecidos”.
Gastronomia como intercâmbio cultural
Atualmente, o chef participa de eventos gastronômicos como a Feira da Glória, além de promover projetos voltados ao fortalecimento da cultura africana. Um deles é o “Jantar Africano”, que reúne chefs de diferentes países do continente para preparar pratos típicos acompanhados de música, dança e exposições culturais.
No projeto “Convivência Africana: Sabor e Saber”, Sekelembe ensina o preparo de receitas tradicionais. Já na iniciativa “Vamos Nos Ajudar”, distribui gratuitamente comida africana em territórios periféricos, ampliando o acesso à gastronomia do continente.
Sekelembe também criou o “Dia dos Países Africanos”, evento mensal dedicado a uma nação específica, com gastronomia, moda, música, empreendedorismo e palestras. A próxima edição será o “Dia de Angola”, marcada para 28 de fevereiro, no Atelier Bonifácio, no centro do Rio, com entrada gratuita.