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Espetáculo revisita memórias de família periférica de São Paulo

Peça teatral parte de vivências autobiográficas para investigar as marcas deixadas por uma família, uma cidade e uma década no corpo de quem sobrevive
Ensaio do espetáculo documental “Atravessados 1990”.

Ensaio do espetáculo documental “Atravessados 1990”.

— Divulgação

21 de junho de 2026

Espetáculo autobiográfico, documental e multilinguagem escrito e dirigido por Gabriel Viriatto, “Atravessados 1990” estreia nos dias 1º, 8 e 15 de agosto, com sessões às 18h e 20h, no Teatro Hórus, em São Paulo. Criada pelo Vértice — núcleo de criação cênica contemporânea da Tukumã Instituto de Artes, a montagem revisita memórias de uma família periférica paulistana durante a década de 1990 para investigar como violências, afetos, silêncios, desigualdades e formas de resistência permanecem inscritos no corpo e na construção da identidade.

Nem toda memória volta como lembrança organizada. Algumas retornam como imagem, ruído, gesto, ausência. Outras aparecem no corpo antes mesmo de virarem palavra. É nesse território instável, entre aquilo que se recorda e aquilo que ainda dói, que o espetáculo encontra sua força: olhar para o que uma família guarda, cala, repete e transforma para continuar existindo.

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A dramaturgia nasce das memórias de Gabriel, que revisita experiências vividas, ouvidas e percebidas ao longo da própria formação. Em vez de seguir uma linha cronológica, a obra avança como fluxo de lembranças, reunindo fragmentos de uma família atravessada por tensões, conflitos, afetos, violências, contradições e sonhos.

Nesse percurso, aparecem violência estrutural, abuso, violência policial, machismo, luto e desigualdades sociais. Nada surge como tema isolado ou tese fechada. A montagem parte da percepção de que a vida não separa os acontecimentos em gavetas: enquanto uma pessoa atravessa uma violência, também ama; enquanto vive o luto, continua trabalhando; enquanto sente medo, ainda encontra motivos para rir. Tudo se mistura à vida doméstica — ao quintal, à mesa, às conversas, às celebrações, aos silêncios e aos gestos de cuidado.

Em meio às dores e aos traumas, a obra evidencia o protagonismo feminino dentro da família. São as mulheres que sustentam grande parte da estrutura afetiva da narrativa: cuidam, acolhem, decidem, protegem e permanecem. A violência atravessa gerações, mas o espetáculo também afirma o afeto como herança possível — aquilo que resiste mesmo quando nem tudo encontra cura.

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“Atravessados 1990 nasce de memórias que me formaram e que continuam voltando ao corpo. Durante a criação, percebi que a vida não acontece separada por temas. Enquanto uma pessoa sofre uma violência, ela também ama. Enquanto vive um luto, continua trabalhando. Enquanto sente medo, ainda encontra motivos para rir. A peça fala das violências que atravessam muitas famílias brasileiras, mas também do afeto que permanece. Quando me pergunto o que foi herdado entre gerações, minha resposta não é a violência. É o afeto”, afirma Viriatto.

A pergunta que orienta a criação é simples e incômoda: “como somos atravessados pela vida?”. A partir dela, o espetáculo observa como experiências sociais, familiares e afetivas moldam identidades, relações e modos de existir. O cotidiano aparece como acúmulo: lembrança, vínculo, medo, humor, conflito, cuidado e permanência.

O olhar para a periferia evita a armadilha do estereótipo. A montagem não transforma esse território em lugar único da dor, nem suaviza suas violências. Prefere revelar sua complexidade: há brutalidade, mas também festa; há contradições, mas também mulheres que sustentam a casa, reorganizam vínculos e criam modos de seguir.

No palco, o quintal de uma casa paulistana dos anos 1990 funciona como arquivo afetivo. Televisão ligada, varal, mesa, objetos domésticos, ruídos da rua e músicas da época constroem uma atmosfera reconhecível, em que o íntimo e o social se encontram. Elementos como o arame farpado, a ferrugem, os televisores antigos e a imagem de uma criança dançando ballet ajudam a traduzir visualmente uma obra marcada por memória, infância, violência e delicadeza.

A encenação combina teatro documental, procedimentos épicos, fisicalidade, projeções e audiovisual, com fragmentos que surgem, retornam e se transformam entre passado, presente e lembrança. O corpo dos intérpretes é tratado como território de memória. Gestos, pausas, deslocamentos, figurinos e objetos acionam personagens, tempos e camadas da narrativa familiar. Na trilha sonora, samba rock, funk, música popular brasileira e sons do cotidiano aproximam a obra do imaginário afetivo da década.

Com classificação indicada para público jovem e adulto, “Atravessados 1990” é uma obra sobre aquilo que o tempo não apaga — famílias que continuam apesar das dores, a periferia como território de memória e criação, e a arte como possibilidade de dizer o que, por muito tempo, ficou preso entre o silêncio e a sobrevivência.

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Serviço

Espetáculo: “Atravessados 1990”
Datas: 1, 8 e 15 de agosto
Horários: 18h e 20h
Local: Teatro Hórus
Ingressos: disponíveis no Sympla
Classificação indicativa: recomendado para público jovem e adulto

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