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‘Herdeiras de Carolina’: Unidos da Tijuca faz desfile emocionante com protagonismo de escritoras negras

Último carro da escola reuniu filha da escritora e vozes da literatura negra contemporânea em alegoria que rejeita o apagamento e propõe a eternidade do legado da autora de "Quarto de Despejo"
Escritora negra se apresenta em desfile da Unidos da Tijuca em frente a uma imagem que retrata a escritora e memorialista da periferia brasileira Carolina Maria de Jesus durante a segunda noite do Carnaval do Rio, no Sambódromo Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, Brasil, na madrugada de 17 de fevereiro de 2026.

Escritora negra se apresenta em desfile da Unidos da Tijuca em frente a uma imagem que retrata a escritora e memorialista da periferia brasileira Carolina Maria de Jesus durante a segunda noite do Carnaval do Rio, no Sambódromo Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, Brasil, na madrugada de 17 de fevereiro de 2026.

— Mauro Pimentel/AFP

17 de fevereiro de 2026

Na madrugada desta terça-feira (17), a Unidos da Tijuca encerrou o segundo dia de desfiles do Carnaval 2026 no sambódromo do Rio de Janeiro. A agremiação foi a última a passar pela Sapucaí, em uma noite que também recebeu a Mocidade Independente de Padre Miguel, Beija-Flor de Nilópolis e Unidos do Viradouro.

A Tijuca escolheu como enredo “Carolina Maria de Jesus”. A escola homenageou a escritora mineira autora de “Quarto de Despejo”, um dos livros mais impactantes da literatura brasileira. A proposta do desfile afirmou sua identidade como “a escritora que foi favelada” e não o contrário, em resposta aos rótulos que reduziram sua obra à condição de miséria ao longo de décadas de apagamento histórico.

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O último carro alegórico da escola, intitulado “Lendo um novo final – O Palácio da Eternidade para Carolina, a Imortal”, encerrou o desfile com a presença de escritoras negras contemporâneas e da filha da homenageada, Vera Eunice de Jesus Lima, que realizou o sonho da mãe ao se tornar professora.

O abre-alas, publicação interna da Liga Independente das Escolas de Samba (LIESA), descreve a alegoria como um templo erguido simbolicamente por Carolina Maria de Jesus, “um lugar de permanência e imortalidade, a Academia Carolina de Letras: espaço que permite, que honra e reconhece”. A escola optou por não abordar a morte literal da escritora com a intenção de “mudar o final da história”.

“Para quem viveu, lutou, venceu e renasceu tantas vezes como Carolina, o fim triste nas sombras de um apagamento é injusto e inaceitável”, afirma o texto da escola. “Ao entendermos seu renascimento no legado que se perpetua, reascendendo seu nome incessantemente ao longo do tempo, concluímos que o verdadeiro final é a vitória, a potência que nenhum preconceito, arbitrariedade ou violência são capazes de impedir.”

As herdeiras de Carolina

O carro reuniu escritoras identificadas pela escola como herdeiras da escrita, representantes da continuidade do legado de Carolina Maria de Jesus na literatura brasileira contemporânea. Confira abaixo nomes que participaram da alegoria.

Conceição Evaristo integrou o grupo. Linguista e escritora, é uma das mais influentes literatas do movimento pós-modernista no Brasil, com produção nos gêneros da poesia, romance, conto e ensaio. Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra a integrar a Academia Brasileira de Letras, também ocupou a alegoria.

Também esteve presente Eliana Alves Cruz, jornalista e escritora, que desenvolve obras focadas em ficção e contos com ênfase em perspectivas afro-brasileiras. Bárbara Carine, escritora e vencedora do Prêmio Jabuti na categoria Educação, esteve na alegoria junto de Elisa Lucinda, atriz, poetisa, escritora e cantora.

Miriam Alves, escritora, assistente social, professora, ativista e poetisa, esteve presente. Rosana Paulino, artista visual e pesquisadora, considerada uma das vozes mais potentes da arte contemporânea brasileira, também participou. Sônia Rosa, escritora de literatura negro-afetiva para crianças e jovens, integrou a homenagem.

Fernanda Felisberto, pesquisadora das narrativas de mulheres negras nas literaturas africanas, negro-brasileira, afro-americana e afro-latina, com pesquisas sobre a presença da autoria negra no mercado editorial brasileiro, ocupou o carro. Lu Ain-Zala, pedagoga e escritora afrofuturista, também esteve presente.

Sandra Menezes, escritora e jornalista conhecida por seu trabalho literário afrofuturista, compôs a homenagem junto de Ana Cruz, poeta, escritora e cantora. Aline Midlej, jornalista, escritora e âncora, completou a lista de autoras negras contemporâneas que, ao lado do destaque Vera Eunice, filha de Carolina, ocuparam o último carro da Unidos da Tijuca.

O apagamento e a resistência

O desfile da Tijuca abordou a trajetória de Carolina Maria de Jesus marcada pelo racismo estrutural, pela ação da burguesia e pelo mercado editorial, conforme descrito no material da escola. “O apagamento de Carolina Maria de Jesus, promovido pelo racismo estrutural, a burguesia e o mercado editorial, não foi capaz de extinguir sua potência”, registra o livro abre-alas.

A alegoria final apresentou Carolina “com imponência majestosa”, ressurgida “pela força inquebrantável de seu legado”. Suas herdeiras, “as mulheres negras que lutam diariamente pelo direito à escrita, representam cada parte de sua história permanente e transformadora”.

A escola afirmou que a homenageada ergueu “o castelo dourado de seus sonhos, a verdadeira Casa de Alvenaria, através de suas obras e suas persistências, deixando ensinamentos e inspirações para as tantas Carolinas que hoje ocupam os espaços antes destinados apenas para a branquitude”.

A expressão “Casa de Alvenaria” remete ao segundo livro de Carolina Maria de Jesus, publicado originalmente em 1961, que narra sua saída da favela do Canindé e a adaptação à vida nos bairros de classe média de São Paulo.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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