Em dezembro de 2025, durante dois dias, Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz se sentaram frente a frente na Kaza 123, um quilombo urbano no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro. Não foi entrevista, não foi bate-papo de lançamento, foi conversa entre amigas. E o registro dela é o livro “Escreviventes”, que a Pallas Editora acaba de lançar. A obra é o primeiro volume da nova Coleção Memórias Brasileiras.
O livro nasce de um projeto idealizado por Estevão Ribeiro, que também assina a direção do longa-metragem documental homônimo, atualmente em pós-produção, com estreia em festivais prevista para 2027 e chegada ao circuito comercial em 2028.
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As páginas de Escreviventes antecipam, portanto, o que o público só vai ver na tela dentro de dois anos. Um material de arquivo afetivo que já existe mesmo antes do filme estar fechado.
O lançamento em julho de 2026 marca dois números redondos: Conceição completa 80 anos, Eliana completa 60.
Conceição já consolidada como a criadora do conceito de escrevivência, autora dos clássicos “Ponciá Vicêncio” (2003), “Becos da memória” (2006), “Olhos d’água” (2014) e “Canção para ninar menino grande” (2018), pela Pallas. Enquanto Eliana chegou à ficção em 2015 pelo Prêmio Oliveira Silveira e hoje soma o Jabuti de 2022 com “A vestida” e o Prêmio Guimarães Rosa da ABL na categoria Melhor Livro de Ficção com “Meridiana”. Pela Pallas, Eliana publicou” Nada digo de ti, que em ti não veja”, em 2019.
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A conversa percorre temas que não costumam vir lado a lado num único livro: racismo, maternidade, sexualidade, envelhecimento. Conceição lembra o nome que deu a essas semelhanças entre as duas: parecenças, termo que dá o tom afetivo de toda a obra.
Entre um capítulo e outro, a conversa das duas escritoras é entremeada por depoimentos de Itamar Vieira Junior, Renato Noguera, Teresa Cárdenas e Flávia Oliveira – vozes que ampliam, de fora, o que Conceição e Eliana constroem de dentro da amizade.
Escreviventes chega como desdobramento da própria escrevivência, não como um conceito a ser explicado, mas como o que ele sempre foi: duas mulheres negras contando suas próprias histórias, pelas próprias mãos, num livro que existe antes mesmo do filme que o originou chegar às telas.
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