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Nilma Bentes, militante histórica do movimento negro, é homenageada com mural em São Paulo

Obra destaca legado da ativista paraense que foi uma das idealizadoras da Marcha das Mulheres Negras
Mural em homenagem à Nilma Bentes no CEU Inácio Monteiro, no distrito de Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo.

Mural em homenagem à Nilma Bentes no CEU Inácio Monteiro, no distrito de Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo.

— Divulgação/Wagner Barros Serejo/Wbs

29 de novembro de 2025

Em celebração aos dez anos da Marcha das Mulheres Negras, a artista grafiteira paraense Mina Ribeirinha assina o mural “Nada Começa Quando Inicia Ou Termina Quando Acaba”, uma homenagem à intelectual, ativista e referência do movimento negro Nilma Bentes. A obra foi selecionada pelo Museu de Arte de Rua (MAR), iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo que transforma espaços públicos em galerias a céu aberto, espalhando murais e painéis pelas cinco regiões da cidade.

O mural, localizado no CEU Inácio Monteiro, no distrito de Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, ressalta a potência de Nilma Bentes como fonte de conhecimento, memória e luta coletiva. Mina Ribeirinha constrói, através da estética amazônida e de sua pesquisa visual sobre mulheres negras, um tributo que dialoga com a trajetória de enfrentamento ao racismo, de defesa dos territórios e de construção de bem viver.

Em 2025, a Marcha das Mulheres Negras voltou às ruas no dia 25 de novembro em um ato político pacífico de união com o tema “Por Reparação e Bem Viver”. A obra dialoga diretamente com a mobilização, lembrando que a caminhada iniciada em 2015 segue viva e expansiva. Como ensinado por Nilma Bentes, “a sabença que adquirimos nas vivências se concretizou como base para impulsionar conquistas”.

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Mesmo após uma década da primeira marcha, as mulheres negras continuam no centro das piores estatísticas do país: da violência ao mercado de trabalho, da falta de acesso a políticas públicas ao racismo ambiental. A homenagem reafirma que arte também é instrumento de mobilização, denúncia e fortalecimento comunitário.

Ao retratar Nilma Bentes, a artista busca fomentar a presença das artes visuais negras na cidade, ampliando o reconhecimento de lideranças que transformaram o Brasil e democratizando o acesso à memória do movimento para jovens, crianças e toda a população. O mural “Nada Começa Quando Inicia Ou Termina Quando Acaba” se torna, assim, parte de um território simbólico de luta e afeto, conectando Amazônia, São Paulo e todas as mulheres negras que seguem em marcha, construindo caminhos de reparação, justiça e bem viver.

Mina Ribeirinha compartilha que toda a criação do mural nasce de um sentimento profundo de continuidade histórica e espiritual. “Minha inspiração está na frase cunhada por Nilma: ‘Nada começa quando inicia ou termina quando acaba’. Esta citação poderosa nos atravessa e, para mim, é como um chamado que ressoa junto com o tema da marcha este ano, Por Reparação e Bem Viver, remetendo à continuidade de nossos passos, oralidade, empoderamento, união e luta”, afirma.

Para a artista, o mural destaca que a Marcha das Mulheres Negras é um processo permanente: “A frase de Nilma Bentes é profundamente inspiradora e carrega um significado poderoso sobre a continuidade da luta e da resistência. Ela ressalta que a marcha é um processo contínuo, que não se limita a um evento específico que acontece em um único dia; representa um movimento constante em busca de justiça e igualdade.”

A artista posicionou a frase no topo do painel como homenagem e como afirmação da importância de celebrar e reconhecer nossas referências enquanto estão em vida.

No mural, a artista também insere elementos visuais que dialogam com a ancestralidade e com as tecnologias de sobrevivência criadas pelos povos africanos e afro-diaspóricos, símbolos que ampliam a dimensão pedagógica e espiritual da obra, conectando passado, presente e futuro da luta das mulheres negras no Brasil.

A composição visual do mural também reforça a ideia de continuidade histórica e movimento político. Mina Ribeirinha explica que criou “uma imagem na lateral direita que simboliza o movimento contínuo, como uma estrada que se estende pelo mural, representando a jornada das mulheres negras.” No primeiro plano, aparece a homenageada Nilma Bentes, de cabeça erguida e olhar firme voltado para o futuro. No colete — peça marcante de sua identidade visual — a artista incorpora o adinkra Akofena, símbolo de coragem, força e liderança.

Já a camisa vermelha faz referência a Xangô, orixá patrono do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA), organização da qual Nilma é fundadora, remetendo à justiça. No peito, o adinkra Aya, que significa “samambaia”, simboliza perseverança e a capacidade de superar desafios — valores profundamente associados à trajetória de Nilma.

No segundo plano, surgem três mulheres negras representadas em tons distintos de cinza, reforçando a diversidade geracional e a continuidade entre passado, presente e futuro. A criança veste rosa — cor associada a Iansã, mas que também pode remeter a Oxum, orixá do amor — e traz no peito o adinkra Sankofa, símbolo do aprendizado que se busca no passado para construir o futuro.

A mulher anciã veste uma bata laranja, cor ligada a Iansã, e carrega o adinkra Duafe, que representa beleza, cuidado e virtudes femininas. A jovem usa estampa de onça em tons de verde e azul, cores associadas a Oxóssi, evocando floresta, vida e abundância. As três aparecem com o punho cerrado, símbolo de solidariedade e resistência coletiva.

A homenageada

Raimunda Nilma de Melo Bentes, conhecida como Nilma Bentes, é uma das mais importantes referências do movimento negro brasileiro. Ativista paraense, militante histórica e graduada em engenharia agronômica, Nilma é uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA).

Aos 77 anos, vive em Belém e segue atuante em formações, palestras, rodas de conversa e nas programações do CEDENPA, além de contribuir com a coletiva Pretas Paridas de Amazônia, da qual a artista também faz parte.

Sua trajetória marcou profundamente o feminismo negro amazônico e nacional, sendo uma das responsáveis por incorporar o conceito de bem viver como bandeira política das mulheres negras. Visionária, Nilma foi quem propôs a realização da Marcha das Mulheres Negras, que reuniu cerca de 50 mil mulheres em Brasília, em 2015, tornando-se um marco histórico de mobilização, afeto e resistência.

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