O projeto “Sementes Urbanas” estreou, na quinta-feira (29), um videocast documental em quatro episódios, criado por Karol Kaysá, Maiara Astarte e Vicka Tupi. A produção reúne relatos das autoras, além de entrevistas e pesquisas realizadas ao longo de um ano em diferentes territórios e movimentos sociais. Em entrevista à Alma Preta, Maiara Astarte detalhou o conteúdo de cada parte.
O primeiro episódio aborda a pergunta “o que é ser indígena?”. A resposta parte das visões das criadoras e de uma pesquisa de campo. O trabalho passou por locais como o Acampamento Terra Livre (ATL), o território Tapirema, a comunidade Pankararu na favela Real Parque e movimentos sociais urbanos.
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O segundo episódio trata do conceito de retomada indígena. O foco é a retomada identitária e o processo de apagamento histórico que levou muitas pessoas a deixarem de se identificar como indígenas. O episódio apresenta relatos desse movimento de busca e aborda como essa identidade muitas vezes passa por um processo de validação pelo Estado.
O terceiro episódio discute política e educação. A produção fala sobre a presença indígena nesses espaços, questiona estruturas de poder como a bancada do agronegócio e ressalta que os povos indígenas sempre tiveram formas próprias de organização política. Na educação, o episódio aborda a situação de exclusão social que persiste para essas populações.
O quarto e último episódio trata de espiritualidade. A proposta não é responder a todas as perguntas, mas apresentar a cosmovisão das criadoras, propor reflexões e compartilhar a forma como elas se relacionam com a espiritualidade. O episódio também discute os estereótipos construídos por pessoas não indígenas sobre essas práticas.

Curadoria sonora e arquivos históricos constroem narrativa sobre presença indígena
Maiara Astarte explicou o processo de curadoria das sonoridades originárias e dos arquivos históricos que compõem a obra. O princípio central foi não tratar a cultura indígena como um vestígio do passado, mas como uma “presença viva, em constante transformação”.
As sonoridades foram selecionadas a partir de escutas de cantos, rezas, ritmos corporais e sons da natureza. Muitos desses registros são contemporâneos. A curadoria evitou um “uso ilustrativo ou folclorizado, frequentemente associado a representações superficiais”.
Os arquivos históricos foram selecionados a partir de acervos acessados durante a pesquisa da equipe, que visitou territórios e entrevistou pessoas. Esses materiais aparecem como “rastros de uma história interrompida, que o projeto busca reativar e ressignificar”.
Sobre a mensagem que esperam transmitir ao público não indígena, Maiara Astarte afirmou que o projeto define a retomada como um “gesto de memória, corpo e sonho”. A ideia é transmitir que a retomada “não é apenas um território físico”, mas também “simbólico, afetivo e imaginário”.
O projeto propõe um deslocamento de olhar para entender que “os corpos indígenas carregam histórias interrompidas, violências, apagamentos, mas também saberes” e modos de existir que resistem. “A memória ela aparece como uma força, uma força política. O corpo como um território vivo”, completou. O convite é para que o público reconheça a presença indígena na cidade.
O papel do projeto para indígenas em retomada
Questionada sobre como o projeto pode auxiliar outras pessoas indígenas em processo de retomada, Maiara citou o “compartilhamento e o letramento racial“. Ela observou que esse processo muitas vezes ocorre “na rua, por meio dos fenótipos, dos costumes, do encontro com pessoas que passam a nos reconhecer”.
Com a divulgação do projeto, muitas pessoas chegaram, se reconheceram ou manifestaram dúvidas. O coletivo Sementes Urbanas se propõe a contribuir com essas pessoas no processo de “conhecimento e reconhecimento”, seja pela curiosidade, pela busca de costumes, tradições ou espiritualidade.
A pré-estreia do videocast ocorreu no dia 25 de janeiro, na Ocupação 9 de Julho, no centro de São Paulo. A estreia oficial já está disponível no canal do YouTube do Sementes Urbanas. As criadoras definem o projeto como um convite para que todas as pessoas se engajem na luta “pela vida, pela memória e pela continuidade dos povos indígenas”.