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Os dias que se aproximam do Natal são foda

22 de dezembro de 2020

O poeta Akins Kintê apresenta a minissérie “Um Sol entre as Sombras de um Natal”, com textos sobre a festividade e relações afetivas; confira a primeira história

Texto: Akins Kintê | Ilustração: Marcos Z.X

Eu tenho mágoa. Nada contra esses dias que se aproximam do Natal, mas eu tenho mágoa, tá ligado? Um lance de rancor que a gente não tem com quem debater, também vai dizer o quê?

Os dias festivos em minha vida me trazem complexidade. Eu não ligo de ganhar presente, se vier legal, se não, eu não tô nem aí Não é zanga, nem tô sendo mimado, é que tá tranquilo mesmo.

Eu tenho mágoa porque a Páscoa me lembra aflição. Dia das Crianças, pressão; Aniversário, angústia; Natal, uma bruta preocupação. Minha mãe e meu pai se desdobravam em mil pra ter o mínimo que a televisão ligada nos obrigava a ter. Até hoje meu coração se desespera quando chegam esses dias. A vontade mesmo é de entrar dentro de um bucaro e sumir.

Faz uns meses que eu só corto o cabelo com o P.H e ele tá ligado já: “Degradê e em cima só acerta o black façavô” .

Vê ele manuseando a tesoura é da hora, lembra uma amiga minha escrevendo poesia – o cuidado que ela tem com a caneta, ele desenrola no corte e os dois trazem na seriedade mesmo sorrindo, a cautela de quem quer desenvolver um bonito trabalho.

Minha mágoa não é pessoal com ninguém, nem com meu pai em cana nos vários Natais, nem com a humilhação da professora porque eu não tinha levado nada na confraternização da sala ou as mil tretas dentro de casa, onde era pra ser alegria, é que sinto um vazio e uma bruta vontade de não estar.

Meu cabelo ficou na régua, o P.H é talentoso, parece ideia boba, tô me achando bonito e isso é raro, talvez uma pequena chama acesa em meus olhos. A preta vai vir passar o Natal comigo, eu preciso pra enfrentar meus fantasmas.

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