Mulheres negras trans e cis. Com 10, 17 e 83 anos. Do Maranhão ao Paraná. De mulheres do candomblé a evangélicas. Cientistas, assistentes sociais, jornalistas e quebradeiras. Profissionais do sexo, lideranças políticas e artistas. Brasileiras, uruguaias e congolesas. A diversidade de experiências de vida estava presente entre as mais de 300 mil pessoas que fizeram história na 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, nesta terça-feira (25), em Brasília.
Com o tema Bem Viver e Reparação Histórica, essa massa de mulheres negras marchou do Museu Nacional até a Esplanada dos Ministérios, nas ruas e em trios elétricos, com discursos, arte, faixas e palavras de ordem.
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Além de acesso a espaços de poder, uma das pautas mais citadas nos carros de som foi o violência contra jovens negros nas periferias. “Parem de nos matar” e “parem de matar nossos filhos” foram repetidas em falas de diversas lideranças no alto dos carros de som, em diferentes sotaques.
É o caso de Cintia Cruz, líder comunitária e presidente do movimento Revolução dos Baldinhos, referência na gestão comunitária de resíduos em Florianópolis (SC). “Minha luta é pela periferia, que hoje vem sofrendo não só o racismo ambiental como o extermínio da população preta”, compartilhou.
O longo dia de luta e celebração
O dia de marcha começou às 9h, com uma coletiva de imprensa com o Comitê Nacional, o Conselho Político e representantes dos Comitês Temáticos (LBTIs, Mulheres Negras com Deficiência, Justiça Climática, entre outros). Em seguida, ocorreu a cerimônia oficial de abertura, marcada pela presença da Irmandade da Boa Morte e a leitura pública do manifesto político da Marcha.
“Nós estamos apresentando um conjunto de propostas para essa nação e queremos dizer que esse potencial de mobilização só existe porque nós somos as gestoras do impossível. Pedimos paz, pedimos equidade, pedimos respeito, respeito à dignidade das pessoas, respeito à dignidade das pessoas negras, em particular”, destacou Valdecir Nascimento, fundadora do Odara – Instituto da Mulher Negra, que também compõe a coordenação da Rede de Mulheres Negras do Nordeste e o Comitê Impulsor Nacional da Marcha.
Simultaneamente, o Congresso Nacional sediava uma Sessão Solene em homenagem à Marcha das Mulheres Negras, no Plenário Ulysses Guimarães. A sessão, presidida pela deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), também contou com as presenças da deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ), das ministras Margareth Menezes, Macaé Evaristo, Anielle Franco e Márcia Lopes. Contamos tudo aqui.
Encontro com Fachin, do STF
Após o ato, uma comitiva de 12 representantes do Comitê Nacional da Marcha foi recebida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin. A Marcha apresentou suas principais demandas institucionais, incluindo:
- o acesso público a arquivos do Judiciário relacionados à escravidão;
- a criação de protocolos específicos para monitorar processos envolvendo agentes de segurança pública;
- a celeridade em casos de violência contra mulheres negras e seus familiares;
- e o reconhecimento formal do projeto político defendido pelas mulheres negras organizadas.
Após ouvir as reivindicações, Fachin afirmou que o país não pode adiar mais a presença de mulheres negras nos espaços de maior poder da República.
“Eu espero não sair enquanto não tenha pelo menos uma juíza negra. E isso que eu estou dizendo agora eu já disse. O Brasil precisa enfrentar essa dívida”, declarou. Segundo o critério de idade, Fachin deve sair em fevereiro de 2033.
Programação cultural
Ainda no fim da tarde começou a programação cultural, que se estendeu até as 23h. Luana Hansen abriu o palco com seu repertório marcado pela crítica social e contou com participação de Bia Ferreira.
Em seguida, Prethaís deu continuidade à celebração, trazendo a força da música negra brasileira contemporânea. A apresentação de Célia Sampaio e Núbia emocionou o público ao mesclar ancestralidade do reggae e intensidade vocal.
Na sequência, Ebony apresentou um show vibrante, conectando a Marcha às estéticas e narrativas das juventudes negras urbanas.
O encerramento ficou por conta de Larissa Luz, que interpretou o jingle oficial da Marcha, “Mete marcha, negona, rumo ao infinito”, em um momento de catarse na Esplanada dos Ministérios.