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Comitiva da Marcha das Mulheres Negras leva pauta de reparação ao STF e denuncia violência de estado

Audiência histórica debateu o acesso público a arquivos do Judiciário relacionados à escravidão, a criação de protocolos específicos para monitorar processos que envolvem agentes de segurança pública e a garantia de celeridade em casos de violência policial
A comitiva da Marcha das Mulheres Negras e o ministro do STF, Edson Fachin.

A comitiva da Marcha das Mulheres Negras e o ministro do STF, Edson Fachin.

— Reprodução/Lissandra Pedreira

26 de novembro de 2025

Horas após ocupar as ruas de Brasília com um ato que reuniu cerca de 300 mil pessoas na terça-feira (25), uma comitiva formada por 12 representantes da Marcha das Mulheres Negras foi recebida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, em uma audiência que teve como eixos a responsabilização do Estado brasileiro pelas violências que atravessam a vida das mulheres negras, a necessidade urgente de justiça para as vítimas de operações policiais e o reconhecimento, pelo Judiciário, do projeto político que a Marcha afirma ao Brasil e ao mundo.

Entre as demandas apresentadas estiveram o acesso público a arquivos do Judiciário relacionados à escravidão, a criação de protocolos específicos para monitorar processos que envolvem agentes de segurança pública e a garantia de celeridade em casos de violência policial, muitos dos quais se arrastam por mais de uma década.

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“Nossa vinda aqui é, sobretudo, para pedir que o STF se comprometa com o projeto de reparação histórica que as mulheres negras exigem deste país. A Corte Suprema precisa abrir seus arquivos, reparar a memória do Judiciário e criar protocolos específicos para acompanhar processos envolvendo forças de segurança. Quando processos duram mais do que a vida das crianças assassinadas, a mensagem que recebemos é de que nossas vidas são descartáveis. Estamos aqui para exigir que isso mude”, afirmou a integrante da comitiva, Gabriela Ashanti, mestra em Direito e coordenadora do projeto “Minha Mãe Não Dorme Enquanto Eu Não Chegar” no Odara – Instituto da Mulher Negra.

O testemunho de Tauã Brito

A audiência ganhou mais densidade quando Tauã Brito, moradora do Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, relatou a execução do filho, Wellington, durante a operação policial ocorrida em outubro.

“Meu filho tentou se entregar, mas os policiais não deixaram nem que eu chegasse perto. Ele estava amarrado, esfaqueado e com um tiro na cabeça. Eu pedi que levassem preso, que dessem uma chance. Ele tinha 20 anos. A favela só recebe morte. Não entra educação, política pública, oportunidade. Só entra tanque de guerra. Essas mortes não trazem segurança ao Estado, só devastação. Eu perdi o meu filho, mas estou aqui pedindo ajuda para que outras mães não carreguem seus filhos como eu carreguei o meu”, relatou Tauã.

A mãe de Wellington, Tauã Brito, e o ministro Edson Fachin. Foto: Lissandra Pedreira

A resposta do ministro do STF

Após ouvir as denúncias e reivindicações, o ministro Edson Fachin reconheceu a legitimidade das pautas apresentadas pela Marcha e afirmou que o país não pode adiar mais a presença de mulheres negras nos espaços de maior poder da República.

“Eu espero não sair enquanto não tenha pelo menos uma juíza negra. E isso que eu estou dizendo agora eu já disse. O Brasil precisa enfrentar essa dívida”, declarou.

Fachin também reforçou que nenhuma autoridade pode substituir ou silenciar quem vive na pele a violência de Estado.

“Nós precisamos abrir as portas para receber vocês, para escutar vocês, para que vocês possam falar. Porque ninguém pode, ninguém deve tomar um lugar de fala do processo”.

Ao comentar o relato de Tauã Brito, o ministro destacou que enfrentar a dor coletiva é parte da luta por justiça e lembra sua atuação como relator de ações contra a letalidade policial, período em que se reúne com mães que perderam seus filhos. Fachin acrescentou que reconhecer a dor e permitir que ela seja compartilhada é condição para construir solidariedade e transformação.

A comitiva reforçou o peso da articulação política da mobilização que reuniu mulheres negras de mais de 40 países e que, para além da denúncia, exige que o STF assuma compromissos concretos com justiça racial, enfrentamento à violência institucional e mudanças estruturais na forma como o país trata sua população negra.

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