Após dez dias de estrada e rio, a Caravana da Resposta chegou a Belém nesta quarta-feira (12), encerrando uma travessia de mais de 3 mil quilômetros entre Sinop (MT) e a capital paraense, sede da 30ª Conferência do Clima da ONU (COP30).
A mobilização, composta por mais de 300 lideranças indígenas, ribeirinhas, quilombolas e camponesas, percorreu o chamado “corredor da soja”, denunciando os impactos do agronegócio e dos grandes projetos de infraestrutura, como a ferrovia Ferrogrão e as hidrovias amazônicas, sobre os territórios e os ecossistemas.
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O encerramento da jornada ocorreu durante a Flotilha “Barcos pela Justiça Climática”, um dos momentos mais emblemáticos da abertura da Cúpula dos Povos. O evento reuniu cerca de 5 mil pessoas de 60 países na Baía do Guajará, em um grande ato de resistência e unidade.
A ação marcou o início da Cúpula dos Povos, iniciativa construída por mais de mil movimentos sociais e organizações populares de todo o mundo, que lutam por justiça climática.
As atividades em Belém, em meio à COP 30, seguem até o dia 16 (domingo) na Universidade Federal do Pará (UFPA).
Uma caravana que conectou Cerrado e Amazônia
A Caravana da Resposta partiu no dia 4 de novembro, de Sinop (MT), conhecida como a capital do agronegócio brasileiro. A iniciativa reuniu cerca de 45 organizações de diferentes regiões, entre elas o Movimento Tapajós Vivo, o Instituto Raoni e comunidades do Madeira, Tocantins e Tapajós.
De acordo com Johnson Portela, membro da coordenação da Caravana e militante do Movimento Tapajós Vivo, o objetivo principal foi debater os impactos do modelo logístico imposto à Amazônia e construir alternativas baseadas na agroecologia e no respeito aos povos tradicionais.
“A Caravana foi um espaço de integração entre povos e organizações de várias regiões. Nosso propósito foi discutir o corredor logístico, a infraestrutura portuária e fluvial e mostrar que esse modelo de desenvolvimento causa perda de território, destrói os rios e ameaça a vida das comunidades”, explicou Portela.
Ele destacou que a ação se propôs a ser um contraponto ao discurso de “progresso” associado aos grandes empreendimentos:
“Estamos vendo o avanço da privatização dos rios e da pesca artesanal, especialmente em regiões como Itaituba e Santarém, onde há cerca de 30 portos. Os impactos são inúmeros, ambientais, sociais e culturais. Nosso papel foi resistir e apresentar soluções, mostrando que a agroecologia é uma alternativa concreta ao agronegócio destrutivo”.
Paradas simbólicas e ações de resistência
Durante o trajeto, a Caravana fez diversas paradas simbólicas que fortaleceram as alianças entre territórios.
Em Trairão (PA), agricultores da Rede Agroecológica de Trairão ofereceram um café da manhã coletivo, com alimentos sem veneno, como feijão, farinha e mel indígena, simbolizando a resistência e a produção sustentável.
“Enquanto o agronegócio envenenava o solo, a Caravana mostrou que era possível alimentar o povo com comida de verdade”, lembraram as agricultoras locais.
Em Itaituba (PA), lideranças Munduruku denunciaram os impactos da exportação de soja sobre os rios e a pesca artesanal. “Nossos peixes estão morrendo com o veneno da soja. Mas o rio é nosso, e não vamos deixar que as hidrovias e a Ferrogrão o destruam”, afirmou Alessandra Korap, liderança Munduruku.
Ao longo do percurso, povos Kayabi, Kayapó, Myky, Huni Kuin e Panará também se somaram à Caravana, reforçando a denúncia contra o avanço da soja e a destruição do Cerrado e da Amazônia.
“O que chamam de rota de grãos é, na verdade, uma rota de injustiça social”, resumiu Vivi Borari, comunicadora do Movimento Tapajós Vivo.
Denúncia e solidariedade na chegada a Belém
Na manhã desta quarta-feira (12), a Caravana da Resposta chegou à Baía do Guajará a bordo da Flotilha Barcos pela Justiça Climática, que partiu da UFPA e navegou até a Vila da Barca, comunidade ribeirinha símbolo de resistência.
Durante o ato, Willian Mura, liderança do povo Mura, do Baixo Madeira (AM), expressou o repúdio à mineração em terras indígenas, uma das pautas centrais levadas à Cúpula dos Povos.
“Viemos do Amazonas para denunciar a empresa canadense Potássio do Brasil, que tenta explorar nosso território sem respeitar o protocolo de consulta e a decisão soberana do povo Mura. Essa empresa vem dividindo nossa comunidade, cooptando lideranças e ameaçando nossas águas e nosso solo. A mineração em terra indígena é ilegal, e nosso povo sempre defendeu a demarcação, não a destruição”, declarou Mura.
Ele alertou que os impactos da exploração mineral já estavam sendo sentidos, com conflitos internos e riscos ambientais graves.
“Na nossa região só há dois períodos — o da chuva e o do calor intenso. O sal que será exposto pelo projeto pode contaminar as águas e evaporar, envenenando o solo. Os danos seriam irreversíveis”.
Encerramento da Caravana marcou início da Cúpula dos Povos

Ao meio-dia, uma coletiva de imprensa com o Cacique Raoni marcou o encerramento oficial da Caravana da Resposta e deu início à programação da Cúpula dos Povos.
O ato final em Belém simbolizou a união entre Cerrado, Amazônia e povos das águas e florestas, todos comprometidos com um mesmo chamado: “Justiça climática é justiça para os povos.”
“A Caravana mostrou que o futuro não pode continuar sendo decidido sem ouvir quem vive e protege os territórios”, concluiu Johnson Portela.