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Das escadarias ao palco: MNU celebra 47 anos no Theatro Municipal em ato de reparação e resistência

De griôs a slammers, evento misturou memórias da ditadura com a potência da nova geração, mostrando que a luta antirracista segue viva
Integrantes do Movimento Negro Unificado (MNU) no palco do Theatro Municipal de São Paulo, no dia 7 de julho de 2025.

Integrantes do Movimento Negro Unificado (MNU) no palco do Theatro Municipal de São Paulo, no dia 7 de julho de 2025.

— Guilherme Franco/Alma Preta

8 de julho de 2025

O Theatro Municipal de São Paulo recepcionou, na última segunda-feira (7), um ato solene em celebração aos 47 anos da fundação do Movimento Negro Unificado (MNU). O evento noturno contou com a presença de figuras da organização antirracista, como os cofundadores Milton Barbosa, Lenny Blue, José Adão de Oliveira, Neusa Maria e militantes históricos como Regina Lúcia Santos, coordenadora de formação do MNU em São Paulo.

A abertura das atividades ficou por conta do Slam Marginal da Universidade de São Paulo (USP). O coletivo de estudantes e artistas independentes reviveu a noite de 7 de julho de 1988, quando o MNU foi fundado, com uma intervenção nas escadarias do Theatro, com mensagens de impacto em homenagem às quase cinco décadas de mobilização da organização na luta por direitos e reparação à população negra.

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“O simbolismo de entrar no Municipal é que nós estamos no caminho certo. Diz que nós estamos mudando o Brasil em relação à questão racial. Nós hoje pautamos politicamente a questão racial no Brasil todo”, disse Regina Lúcia dos Santos em entrevista à Alma Preta.

Na sequência, uma batalha de rimas do coletivo periférico paulistano Quilombolar promoveu um momento de interação entre a velha guarda do grupo ativista e a nova geração do movimento negro. Ainda na abertura, os griôs (ou griots) — em referência aos indivíduos na África Ocidental considerados guardiões da história e tradições orais de seus povos — do MNU subiram as escadas do teatro em direção ao salão oval como um gesto de reparação histórica.

“As portas abertas daqui são portas que estão se abrindo em todo o Brasil. Não porque as instituições queiram abrir, mas pela luta do movimento negro civilizando esse país. Mostrando que esse país é de toda a diversidade de sua população”, compartilhou Cida Bento.

Integrantes do MNU sobem as escadarias do Theatro Municipal de São Paulo. (Foto: Guilherme Franco/Alma Preta)

A cerimônia também marcou o lançamento do livro “I Livro Griot do MNU: memórias de vida e lutas da idosidade negra”, de Lenny Blue. Na obra, a militante compartilha sua trajetória de enfrentamento ao racismo desde os anos da ditadura militar. A divulgação foi feita durante a roda de memórias, mediada pelo ator e diretor Sidney Santiago.

A luta ainda não acabou

Mesmo sendo um momento de relembrar o passado com orgulho, as figuras presentes fizeram questão de ressaltar que a luta contra o racismo ainda não acabou e que a geração atual precisa estar cada vez mais organizada no movimento negro, como afirma Simone Nascimento, coordenadora estadual do MNU em São Paulo.

“Para que a gente possa construir um futuro em que nós tenhamos não apenas a existência ameaçada, mas o direito de viver com qualidade — não apenas sobreviver. Então, é uma tarefa árdua, mas necessária para a nossa geração, que é continuar construindo a luta do movimento negro por uma democracia verdadeira no nosso país”, defende.

Nova geração de militantes têm o compromisso de manter legado do MNU vivo. (Foto: Guilherme Franco/Alma Preta)

A celebração histórica não deixou de mencionar o nome de Guilherme Dias Santos Ferreira, homem negro de 26 anos, assassinado pelo policial militar de folga Fábio Anderson Pereira de Almeida, na última sexta-feira (4).

Guilherme estava a caminho do ponto de ônibus, após sair de seu trabalho, quando foi atingido na cabeça por um disparo do PM. O jovem marceneiro carregava uma carteira, um celular, um livro e marmita, mas ainda assim o policial afirmou tê-lo confundido com um assaltante que teria acabado de tentar roubá-lo.

O atirador, detido em flagrante, foi indiciado por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e foi liberado logo em seguida ao pagar uma fiança no valor de R$ 6,5 mil. Ele agora aguarda o processo em liberdade, o que gerou ainda mais revolta no movimento negro, que acusou o Estado de São Paulo em incentivar, institucionalmente, a impunidade da Polícia Militar.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

  • Mariane Barbosa

    Curiosa por vocação, é movida pela paixão por música, fotografia e diferentes culturas. Já trabalhou com esporte, tecnologia e América Latina, tema em que descobriu o poder da comunicação como ferramenta de defesa dos direitos humanos, princípio que leva em seu jornalismo antirracista e LGBTQIA+.

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