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Sabedoria sem fronteiras: por que investir em uma biblioteca digital?

Investir em uma biblioteca digital é garantir o fortalecimento da democracia através da promoção do acesso à informação de qualidade e da formação de cidadãos críticos e livres.
Imagem mostra um tablet sob três livros.

Imagem mostra um tablet sob três livros.

— Reprodução/Freepik

3 de agosto de 2025

Investir em uma biblioteca digital é uma forma estratégica de promover a formação de comunidades de prática (CoPs), conceito cunhado por Wenger (1998) como comunidades que reuniam pessoas unidas informalmente por interesses comuns na aprendizagem e, principalmente, na sua aplicação, que pode ser a produção e compartilhamento de informação e formação de comunidades leitoras e de novos leitores.

As bibliotecas digitais permitem construir comunidades de interesse que acessam, mas que também geram informação e compartilham uns com os outros. Mas as bibliotecas digitais também podem constituir-se como espaços de networking digital, em que comunidades de interesse procuram expandir sua redes de contatos, trocar conhecimentos e experiências, e compartilhar sentimentos e emoções de aprendizados adquiridos pela leitura e pela literatura.

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A biblioteca física é de acesso local e restrito, enquanto a biblioteca digital é um braço de extensão da biblioteca física e de conexão desta com o mundo. A biblioteca digital não pretende, nem se configura como um equipamento que substitui a biblioteca física. Convém desmistificar a ideia ainda predominante e temerosa — mesmo entre os profissionais da biblioteca —  de que a biblioteca e o livro digital se podem comparar com a biblioteca e o livro físico, sob o ponto de vista de qual dos dois apresenta a melhor experiência para o leitor.

A biblioteca e o livro digital são uma experiência de leitura diferente do físico. Vistos dessa forma, podemos afirmar, de forma objetiva, que entre o físico e o digital existe uma experiência enriquecedora e complementar, que amplia a experiência de acessibilidade, de conexão com a leitura e com outros conteúdos e informação, que, juntos (biblioteca física + digital) potencializam a experiência do leitor.

O progresso tecnológico e a inclusão digital no acesso à cultura, à literatura e à informação são missões da biblioteca digital, que pelas suas características intrínsecas, é um ambiente ideal para o desenvolvimento de ações e programas de formação e orientação dos usuários sobre as tecnologias digitais. A biblioteca digital deve garantir que todas as pessoas que dela fazem uso, tenham as habilidades necessárias para utilizar essas tecnologias de forma significativa. Nesse processo, podemos incluir também a necessidade de alfabetização para o uso da Inteligência Artificial (IA). As bibliotecas são organizações com a função de servir as comunidades nela conectadas. Sendo organizações responsivas aos seus usuários, devem se propor a formar e treiná-los para a compreensão, uso crítico e responsável da IA.

Investir em uma biblioteca digital é garantir o fortalecimento da democracia através da promoção do acesso à informação de qualidade e da formação de cidadãos críticos e livres. Jason Stanley (2018), em seu livro “Como o Fascismo Funciona”, relata que governos que se alinham a alguma forma de fascismo trabalham arduamente para desconstruir o passado e recriar um passado mítico para apoiar suas visões do presente. Essa forma de reescrever a história pode gerar equívocos e uma percepção fragmentada da realidade, promovendo a desinformação e a negação da verdade.

Esse investimento é também uma forma estratégica de promover o acesso à leitura, literatura e ao livro, e contribuir para a formação de comunidades leitoras e de leitores.

A biblioteca digital, como já dissemos, amplia a experiência de leitura e de acesso ao livro, pelas suas características intrínsecas de não estar restrita ao espaço e ao tempo. Mas como biblioteca, ela também tem a função de preparar o leitor para o interesse pelos livros e pela leitura. A formação de leitores, no meu entender, deveria ser uma experiência que começa desde a concepção do ser humano. Existem vários estudos científicos que comprovam a importância da leitura  para o bebê ainda na barriga a partir de 20 semanas ou quinto mês de gestação, período em que a audição está se desenvolvendo e ele passa a ser estimulado pelos sons de fora da barriga (Revista Infância e Maternidade, 2022). 

A leitura é importante não apenas para criar o vínculo entre a mãe e o bebê, mas também para o desenvolvimento cognitivo do bebê. Depois disso, a formação de leitores se incentiva e se constrói no lar. Devem ser os pais, os responsáveis pela criação do hábito de leitura para os seus filhos desde a infância. Isto acontece quando se lê histórias para as crianças, quando se proporciona a experiência de tocar, lamber, brincar com os livros. Quando se leva as crianças para a biblioteca e envolve os filhos em eventos que conversam sobre livros e leitura. 

Depois do lar, vem a escola. O professor assume e representa esse papel de agente de formação do hábito de ler, ao estimular, propor e apresentar oportunidades de leitura e sugestão de livros, de forma lúdica e livre, para os alunos. 

Aí vem a biblioteca. A palavra biblioteca etimologicamente quer dizer caixa/armário de livros. Guardiã dos saberes da humanidade. Com a multiplicação de livros, aos poucos, as bibliotecas adquirem características expositivas, preocupando-se também em divulgar os conhecimentos adquiridos. Mas com a chegada das novas tecnologias, os profissionais das bibliotecas por vezes não se dão conta de que as ações pedagógicas com os seus usuários são mais importantes do que a mera gestão de acervo e da organização de atividades da biblioteca.

Bibliotecas e livros são memória e construção do mundo, mas é importante cogitar mais explicitamente sobre a leitura, elemento fundamental na ação com os acervos. Os leitores possuem necessidades que outrora não existiam, seja na questão do acesso à informação, como também no suporte no seu uso. Em virtude disso, também as bibliotecas têm que se adequar à esta nova demanda, oferecendo serviços e atividades que promovam o prazer de ler aos seus leitores.

Como criar uma biblioteca digital

Para criar uma biblioteca digital, é importante começar com um planejamento prévio sobre que tipo de biblioteca se pretende criar, quais os objetivos, para qual extensão geográfica — se será restrita para um grupo ou número de usuários, ou se será aberta para um número maior de usuários —, quais os recursos humanos  e financeiros disponíveis e, em função disso, elaborar um planejamento estratégico.

No planejamento estratégico, pode-se começar pensando num projeto-piloto de biblioteca digital. Isto é, uma biblioteca para um número menor de usuários, e com um número reduzido de livros. Após um período (pode ser de um ano) de teste e avaliação de resultados, segue-se para a implementação de uma biblioteca definitiva.

Um gerente de projetos pode auxiliar na elaboração de um Termo de Abertura do Projeto (TAP), documento que define os detalhes do projeto, a lista de stakeholders, o cronograma macro, e considerações sobre o projeto, incluindo os riscos do projeto. Esta etapa será crucial para ajudar a ter claro que tipo de plataforma se deve contratar para o gerenciamento da biblioteca. Neste ponto, importa referir que existe a opção de se desenvolver uma plataforma própria, ou de se recorrer a sistemas de repositório de código aberto já existentes no mercado, tais como o Joomla, DSpace, Omeka Classic, Omeka Semantic, Wix ou WordPress.

Em relação aos objetivos, apesar de uma biblioteca ser um equipamento de acesso público, é importante definir quais os objetivos a curto, médio e longo prazo em termos de metas. Que cadastros se pretende atingir, qual o número de empréstimos, e outras variáveis importantes para mensurar os objetivos do projeto.

A extensão geográfica da biblioteca é uma questão estrutural quando se pensa em criar uma biblioteca digital. Esta etapa vai ter implicações decisivas sobre o alcance territorial e de número de usuários da biblioteca, mas também vai impactar o orçamento ao longo do tempo.

Quando se fala dos recursos humanos e financeiros disponíveis, pretende-se deixar claro que a biblioteca digital implica ter uma equipe técnica e de gestão qualificada, com competências ao nível de biblioteconomia, das tecnologias digitais e mídias sociais, marketing e comunicação, e um orçamento que vai atender aos objetivos anteriormente previstos.

O planejamento estratégico, vai conter a visão de presente e de futuro da biblioteca. Será necessário pensar e elaborar um planejamento estratégico que vai estruturar as demandas e estratégias de resposta nos próximos anos. Por essa razão, o planejamento é crucial para manter a biblioteca viva, atendendo e superando os objetivos e metas definidas.

Esse processo vai também conter uma visão de futuro, buscando novos conteúdos e incorporando soluções tecnológicas inovadoras com suporte na Inteligência Artificial. Esse planejamento vai permitir pensar em metodologias de avaliação dos projetos e programas, da equipe e das necessidades de seu treinamento e qualificação permanentes, de desenvolvimento de novos conteúdos e do próprio acervo.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Joaquim Matusse
    Atua na gestão de projetos e consultoria de bibliotecas e livros digitais. Trabalhou por mais de dez anos na área de museus e outros espaços culturais.

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