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A escrita do simples: uma leitura de ‘Viagens que a gente não faz por agenda, faz por amor’

A colunista Rachel Quintiliano faz uma análise sobre o novo livro de Monique Evelle, lançado pela editora BestSeller
Monique Evelle.

Monique Evelle.

— Divulgação/Kaliane Madureira

24 de abril de 2026

Se eu tivesse recebido uma obra escrita por Monique Evelle sobre o mundo dos negócios, possivelmente ela ficaria meses, talvez anos, parada em algum canto da minha estante, aguardando uma necessidade específica que me fizesse folheá-la. Mas a possibilidade de ler um título dela sobre amor me fisgou rápido. Aliás, esse tema tem me acompanhado com certa frequência em noites de insônia.

Adoro ler o que pessoas negras escrevem sobre afeto, amor-próprio, romance e tantas outras manifestações desse sentimento ou conceito. E, ainda que na maioria desses textos o enfoque não seja especificamente a perspectiva racial, ela está sempre ali, presente nas entrelinhas.

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No caso do livro “Viagens que a gente não faz por agenda, faz por amor”, publicado neste ano pela editora BestSeller, do Grupo Editorial Record, com 112 páginas, o simples fato de a autora ser uma mulher negra e compartilhar as muitas travessias que fez para viver um relacionamento com um homem também negro é suficiente para nos lembrar que o amor negro, em uma realidade racista como a nossa, é também um ato político.

Leia mais: Jornalista estreia na literatura com reflexões sobre o vazio nos afetos

A história é comum, poderia ser sua, minha. Um casal se conhece, decide compartilhar a vida, sem abrir mão de suas individualidades. Por um período ou mais, estão juntos e, às vezes, separados geograficamente, morando em cidades ou países diferentes; cada qual vai construindo um jeito de seguir em frente, a despeito das dificuldades, do cansaço, da distância, do medo de esquecer um do outro e da saudade.

Mas aí entra a capacidade da escritora, que transforma uma narrativa cotidiana em algo interessante, capaz de envolver quem lê. Monique Evelle — e aqui faço questão de colocar o nome, sobrenome e grifar (e ela e quem ler a obra vai entender o porquê) — consegue deixar o enredo instigante, na maioria das vezes por descrever lugares, situações e sentimentos com muita sensibilidade. Ela usa metáforas, exemplos corriqueiros e simples que, ainda que você não conheça as três cidades que ela mais cita — Salvador, São Paulo e Barcelona —, poderá se sentir um habitué ou, talvez, um flâneur.

Ela foi se agarrando às palavras, como confessou logo nas primeiras páginas, para sobreviver e encarar os desafios do distanciamento desse amor romântico, tema central da publicação.

“[…] Escrevi porque precisei me segurar a algo e as palavras foram o meio que encontrei para não me perder no intervalo entre as partidas e as chegadas”.

Ao mesmo tempo que todo o texto transmite a ideia de paixão, passa a mensagem oposta: a de que o amor é uma escolha racional.

Vale a pena a leitura, especialmente porque o livro é leve, envolvente e bem escrito. Ela vai dando descrições e significados complexos para o simples. Outra autora que faz isso com maestria é Maria Nilda de Carvalho Mota, a Dinha; eu penso e acredito que escrever o simples, de forma simples, é muito mais difícil.

Prova disso está em trechos como: “[…] a distância tem um jeito delicado de apagar o essencial. Não arranca de uma vez, mas vai esfumando, suavemente, como se o tempo passasse um pano úmido sobre a lembrança até ela perder a nitidez” ou “aprendemos que amar radicalmente também é caber na própria vida”.

A obra “Viagens que a gente não faz por agenda, faz por amor” está à venda no site da Editora Record.

Monique Evelle é empresária, jornalista e estrategista de negócios, reconhecida por sua atuação no ecossistema da nova economia. Natural de Salvador, Bahia, construiu sua trajetória conectando comunicação, inovação e empreendedorismo.

É fundadora da Inventivos, plataforma que une educação, tecnologia e investimento, por meio da qual desenvolve estratégias e orienta executivos, empreendedores e figuras públicas no fortalecimento de marcas pessoais e institucionais. Antes de se consolidar no mundo dos negócios, atuou como repórter no programa “Profissão Repórter”, da TV Globo.

Ao longo da carreira, ampliou sua presença em diferentes frentes do mercado e da mídia. Tornou-se a mais jovem investidora da história do “Shark Tank América Latina”, aos 28 anos, e também participa de outras versões do programa, além de atuar como mentora em iniciativas voltadas ao empreendedorismo, especialmente feminino.

Sua formação inclui MBA em Gestão e Inovação Estratégica pela UFSCar, estudos em Marketing pela Ohio University e mestrado em Branding na Elisava Barcelona School. Com reconhecimentos nacionais e internacionais, como a lista da Bloomberg Línea e a MIPAD (ONU), Monique se consolidou como uma das principais referências em negócios, inovação e liderança contemporânea no Brasil.

Leia mais: Monique Evelle entra na lista das mulheres mais influentes do Brasil

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Jornalista e escritora, atuando na imprensa negra desde 1996. Autora de "Negra Percepção: Sobre Mim e Nós na Pandemia", escreve sobre literatura, memória e experiência negra, articulando crítica cultural, política e trajetória pessoal. Também atua como consultora em planejamento estratégico e comunicação. Nesta coluna na Alma Preta, compartilha leituras e reflexões que ajudam a pensar o Brasil a partir da palavra escrita.

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