Durante o ato cívico e as manifestações pró-Bolsonaro do dia 7 de setembro, que reuniu mais de 100 mil pessoas em Brasília, era possível encontrar pessoas com camisetas estampadas com fuzis, botas e armas, em referência ao candidato à reeleição presidencial. De acordo com o presidente do Sindicato do Comércio de Vendedores Ambulantes do Distrito Federal (SindVAmb), Bartolomeu Martins, não é possível afirmar precisamente o quanto o lucro aumentou na capital, mas confirma que o período das eleições deu uma injeção de ânimo na categoria.
Thiago Pires, de 27 anos, mora em Sobradinho, a 25 km do centro de Brasília, e trabalha com comércio informal há mais de 10 anos na Rodoviária do Plano Piloto, região central. Ele vende uma grande variedade de produtos e, para fechar as contas do mês, adapta a mercadoria ao clima e às datas comemorativas, trabalhando com guarda-chuvas, roupas, brinquedos, acessórios e utilidades em geral.
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À Alma Preta Jornalismo, Thiago disse que no período mais severo da pandemia, em 2020 e 2021, chegou a passar necessidades por conta da queda na circulação de pessoas. Este ano ele viu uma melhora na situação, mas destacou o 7 de setembro como um feriado ímpar para as vendas. Somente com réplicas das camisetas da seleção brasileira ele chegou a ganhar mil reais no dia.
“O que vendeu mais hoje foi a camiseta do Brasil. A gente faz um preço bom para o cliente e para todo mundo ficar feliz. Tem vezes que só dá para tirar o dinheiro da passagem ou do almoço, hoje vendeu bem e vai dar para repor mercadoria”, contou.
O senegalês Cheikh Ndiaye está no país como migrante há oito anos, seis deles em Brasília. Ele também viu uma entrada de capital maior no dia da Independência. “Está vendendo como água”, exclamou. Se antes ele vendia acessórios para celular, investindo nas camisetas verde e amarela, ele chegou a faturar o triplo.
“As pessoas saíram de suas cidades para o ato sem camiseta. Já que tem que passar pela rodoviária mesmo, param para comprar uma”, afirmou Francisco Oliveira. Ambulante há mais de 22 anos, ele mantém a família com este ofício.
Quando perguntados sobre preferência política, os comerciantes que têm poder de voto foram unânimes em responder: “Eu não sou Bolsonaro nem Lula”. De acordo com os comerciantes, quando tiver uma manifestação ou um evento que o candidato petista seja o foco das atenções, eles também vão encomendar mercadorias referentes a ele. “O que importa é vender, ter o que comer, vestir e manter a família”, disse Cheikh.
Um outro vendedor que mora em Ceilândia, periferia de Brasília, disse que o comércio varia de acordo com a localidade. Segundo ele, em sua região os materiais que mais vendem são do ex-presidente Lula. Já no Plano Piloto, os objetos com estampas bolsonaristas ficam em primeiro lugar.
O Distrito Federal é composto por 33 regiões administrativas com características muito particulares. É a unidade federativa mais desigual do Brasil. O Mapa das Desigualdades, produzido pelo Movimento Nossa Brasília, em parceria com o Inesc e a Oxfam Brasil, revela que enquanto a população do Plano Piloto, onde se situa o poder público e residem os governantes, recebe em média R$ 20 mil, quem vive na Estrutural, comunidade que se desenvolveu no entorno de um aterro sanitário, recebe R$ 998, mais de 20 vezes menos.
A última pesquisa Ipec, encomendada pela Rede Globo, revela que, com 42% das intenções de voto, Jair Bolsonaro lidera a disputa para presidente em Brasília, seguido por Luiz Inácio Lula da Silva, que tem 29%.
(In)dependência econômica
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no segundo trimestre deste ano, 40% dos trabalhadores brasileiros estavam no mercado informal. São trabalhadores que estão sem benefícios como férias remuneradas, vale alimentação, direito à aposentadoria e previdência social.
Para o historiador e gestor em políticas públicas Yuri Soares, a população brasileira está refém do sistema econômico e trabalhista mais precarizado da história. Soares, que foi diretor da Central Única dos Trabalhadores (CUT-DF), afirmou que, apesar da data marcante, do ano eleitoral e dos apelos pela manutenção da democracia, é impossível falar em independência da população mais pobre neste momento.
“Não existe independência. A população está à míngua, sem poder de compra, sem direitos básicos, sem uma estrutura estatal que garanta a sua vida plena”, declarou.
Soares ressalta que há uma enorme contradição entre o que a data da Independência, as cores nacionais e a própria bandeira significam realmente para o que elas se tornaram e vem se tornando no governo Bolsonaro.
“Bolsonaro se apropriou dos símbolos nacionais: a bandeira, o hino, as Forças Armadas, as cores. Hoje, tudo o que remete a esses símbolos são ligados ao governo dele. Existe uma mistura e um esvaziamento dos significados, que, por consequência, são também apropriados pelo capital. Daí as vendas de objetos com sua marca, com seu rosto, vinculados aos símbolos nacionais”, explicou o professor.
De acordo com o presidente do sindicato dos ambulantes do Distrito Federal, Bartolomeu Martins, o comércio em tempos eleitorais é algo comum. Muitos candidatos aproveitam também para ampliar a arrecadação para a campanha com a venda de souvenirs. Ele avalia que as vendas aumentaram bastante em comparação com os anos onde as restrições devido a pandemia estavam mais intensas.
“O comércio melhorou muito, mas também são muitas pessoas desempregadas. Além disso, nessa época, Brasília recebe muita gente de fora, de Goiás principalmente, que também vem vender aqui”, explica.
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