O cantor Masego lançou o corte do diretor de “You Never Visit Me”, dirigido por Mailson Soares. Mais do que um novo corte, o filme é uma resposta: uma reconstrução técnica, estética e emocional que devolve à obra sua alma original — e recoloca o Brasil, a Bahia e a cultura preta no centro da narrativa.
“Faltou o Brasil”, resume Mailson, diretor e roteirista do projeto. A versão anterior, editada por uma equipe norte-americana, não compreendeu o roteiro original e reduziu o filme a uma colagem genérica. “Transformaram nossa história em um videoclipe sem narrativa, apagando o Brasil e desvalorizando a estética pensada. Minha missão era restaurar a essência desse encontro entre Masego e o Brasil.”
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Gravado em Salvador, o novo corte resgata a identidade visual proposta desde o início — com proporção 4:3, nova correção de cor e sound design. Cenas essenciais foram restauradas, como o momento em que Masego fala português, revelando ao mundo o idioma como sua segunda língua. O resultado é uma imagem real, potente, feita de afeto, pertencimento e conexão afro-diaspórica.
Mais do que uma escolha estética, o corte do diretor é uma defesa da autoria. “Quem constrói cultura tem também a responsabilidade de defendê-la”, afirma Mailson. “Esse vídeo não é brasileiro. Não é americano. Não é jamaicano. Esse filme é global.”
Masego, que desenvolveu uma conexão profunda com o país, diz que esse filme marcou um recomeço. Dois anos após as filmagens, o artista mudou-se para o Brasil, onde vive hoje e respira a cultura brasileira no cotidiano.
A produção enfrentou desafios logísticos e financeiros significativos. Com repasses internacionais bloqueados e apenas alguns dias de pré-produção, a equipe teve que tomar uma decisão difícil. “Ou a gente cancelava as gravações, ou fazia o impossível”, relembra Mailson. “A resposta foi unânime: vamos fazer.”
Os bastidores se tornaram, por si só, uma narrativa de entrega, coragem e compromisso coletivo. “É nesses momentos que a vida mostra quem realmente estava com você.”
Essa urgência atravessa a tela e cria uma experiência sensorial. “Esse filme não foi feito para ser apenas assistido. Foi feito para ser sentido. Para que cada pessoa preta, no Brasil ou fora dele, se reconheça ali — na estética, no humor, na música, no afeto, na espiritualidade.”
Com 98% do elenco formado por pessoas pretas e uma equipe liderada majoritariamente por profissionais negros, o filme expressa na prática o compromisso com a representatividade — e com uma estética que nasce de dentro pra fora.
Fundador da Favela Made — produtora que também é linguagem e filosofia estética —, Mailson imprime no filme seu ritmo próprio, o olhar de dentro e a ambição global que marcam sua assinatura. “A ideia não é adaptar a nossa linguagem ao mundo, mas fazer o mundo reconhecer a nossa”, afirma. “Videoclipe não é caixa registradora. É identidade.”
“Isso não é um vídeo, é um filme — o que meu coração pedia desde o início. Trabalhar com a Favela Made sempre foi um sonho, e saber que Mailson Soares encontrou tempo pra me ajudar a mostrar ao mundo o meu amor pela cultura brasileira me deixa profundamente grato. Esse é o melhor videoclipe da minha carreira até agora”, diz Masego.