Esta quinta-feira (19) marca o quarto dia de negociações internacionais pelo Clima na Conferência de Bonn. Entre as agendas, a pauta de adaptação climática ganha destaque importante dentro dos debates entre as nações e organizações. No centro da questão, observa-se a definição da Meta Geral de Adaptação (GGA), a qual será permeada por até 100 indicadores definidos por especialistas.
A pasta de adaptação climática é fundamental para os países em desenvolvimento, em sua maioria, localizados no sul global. Nela, são definidos quais os países receberam maior apoio para ampliar a resiliência climática frente a crise climática. Para as organizações da sociedade negra brasileira, a discussão é fundamental para o combate ao racismo ambiental no país.
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Apesar da discussão ser intensa, poucos avanços foram realizados até o momento. Entre as principais agendas de adaptação climática ao longo do dia, houve impasses de países desenvolvidos em relação ao avanço de propostas na pasta. Nesta quarta-feira (18), uma sessão crítica sobre os NAPs: o Grupo G77 + China, que representa mais de 130 países em desenvolvimento, indicou estar pronto para trabalhar o texto da decisão, solicitando que o rascunho fosse projetado em plenária. No entanto, dois países desenvolvidos recusaram o procedimento criando um impasse que consumiu mais de uma hora de debate em relação à permissão para se projetar o conteúdo da proposta.
Esse tipo de bloqueio não é apenas simbólico. Ele atrasa decisões concretas sobre como os países mais vulneráveis irão se preparar para lidar com os impactos da crise climática. A adaptação climática é a resposta prática aos eventos extremos que afetam populações e territórios, como enchentes, secas prolongadas, colapsos costeiros, deslizamentos de terra e insegurança hídrica.
No Brasil, a população vive isso com intensidade: basta lembrar das chuvas devastadoras no litoral norte de São Paulo, do colapso do sistema hídrico no semiárido nordestino ou das enchentes em zonas urbanas periféricas que deixam comunidades inteiras sem acesso à moradia segura. É desta forma que a falta de adaptação climática se manifesta no cotidiano, e o desastre deixa de ser exceção.
Na prática, adaptação significa garantir acesso a saneamento básico, reestruturar moradias e escolas vulneráveis, fortalecer sistemas de saúde e proteção civil, apoiar a agricultura familiar e criar políticas públicas que respeitem os territórios tradicionais e seus saberes. Apesar disso, nada acontece sem financiamento climático adequado, previsível e de fácil acesso, algo que os países desenvolvidos, historicamente responsáveis pelas emissões que causam a crise climática, se recusam a assumir como compromisso real.
A resistência desses países em avançar com o texto dos NAPs revela uma postura contraditória: nos discursos, afirmam reconhecer a importância da adaptação; na prática, paralisam acordos que permitiriam operacionalizar ações de curto e médio prazo. O Global Goal on Adaptation (GGA), que poderia ser um marco para medir progresso e garantir apoio técnico e financeiro, segue travado; e o Nairobi Work Programme, que busca transformar conhecimento em ação, ainda não ganhou o peso político necessário.
O Brasil tem papel estratégico nessa agenda. Com a COP30 marcada para novembro em Belém, espera-se que o país seja um articulador global da justiça climática, principalmente a partir do contexto de desigualdade. Contudo, isso exige mais do que diplomacia ambiental, pois se precisa de vontade política para garantir que as vozes dos povos indígenas, comunidades quilombolas, marisqueiras, ribeirinhos, agricultores e juventudes negras da periferia façam parte da formulação e implementação das soluções. Adaptação climática, em neste contexto, passa por acesso a território, direito à cidade, proteção da biodiversidade e reparação histórica.
Traduzir essas demandas locais para o espaço internacional não é tarefa simples, mas urgente. No lugar de uma jovem negra e ativista climática, observa-se de perto o abismo entre as realidades vividas nos territórios e os jogos de poder das negociações multilaterais. A construção de uma agenda internacional de adaptação que seja justa, robusta e transformadora depende do reconhecimento de que os países em desenvolvimento têm urgências legítimas, que precisam ser atendidas com seriedade e solidariedade global.
Enquanto isso não acontece, o tempo corre contra os mais vulneráveis. E segue-se fazendo a pergunta que, até agora, ninguém conseguiu responder com honestidade: quantas vidas precisam ser perdidas até que a adaptação climática se torne prioridade real nas mesas de negociação?