A 62ª sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (SB62), em Bonn, na Alemanha, emplaca uma nova dimensão em relação à agenda climática. Para os brasileiros, o evento anual ganha prioridade, pois antecede a Conferência das Partes (COP30), que será realizada em novembro, em Belém. As organizações negras chegam no evento com a urgência de incidir sobre os compromissos do país em relação à agenda racial.
Parte dessa construção é a articulação política com os representantes da diplomacia brasileira. Em Bonn, as organizações negras tiveram a oportunidade de conversar com membros da diplomacia do Brasil que versam sobre a temática de gênero e raça. Mais de dez organizações brasileiras tiveram a possibilidade de apresentar suas pautas ligadas à justiça climática.
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Em entrevista exclusiva à Alma Preta, a embaixadora Vanessa Dolce de Faria, alta representante para temas de gênero do Itamaraty, relatou que durante o encontro com as organizações, ela foi a representante que articulou e escutou as demandas de gênero e raça para a conferência.
De acordo com Vanessa, o seu papel enquanto embaixadora é conversar com os chefes de delegações, com o objetivo de avançar em pontos que são importantes para o Brasil na negociação do novo plano de ação de gênero. A embaixadora também cita a demanda de conversar com as sociedades civis brasileira e internacional, os grupos constituintes.
Em relação ao diálogo que ela tem construído com as organizações negras antes do evento e durante a escuta desta terça-feira (17), Vanessa comenta que tem sido intenso e confluente em relação a objetivos. “O Brasil quer fazer avançar nas interseccionalidades a perspectiva racial, que é constitutiva da nossa nação e das desigualdades que a gente enfrenta”, destaca.
Na perspectiva internacional, a partir das demandas das organizações negras, ela ressalta que é muito importante conversar com os outros países para que eles tenham mais nitidez sobre o que é abordado dentro da questão racial. “Nem todos os países sofreram os efeitos da escravidão. No Brasil, as desigualdades são centrais. O movimento negro e as suas organizações alimentam o governo brasileiro de informações para afinar estratégias. De encontro a isso, essa sociedade civil atua junto a outras organizações internacionais para fazer avançar essas perspectivas que também são do governo brasileiro, causalisando uma sintonia entre as partes”, completa.
Organizações negras e o caminho para COP30
Como parte de um processo, a Conferência de Bonn antecede as negociações da COP30. Para a pasta de gênero e raça, a dinâmica não será diferente. Durante as reuniões, as organizações negras têm trabalhado para que as demandas da comunidade cheguem com destaque em Belém.
Ao longo desta semana na cidade alemã, governos e sociedade civil participam de um workshop de gênero, que o Secretariado da Convenção do Clima promove para que na sexta-feira (20), os países estejam de acordo com o plano de ação, a partir das principais impressões de governos e sociedade civil.
A embaixadora do Brasil comenta que a ideia é sair da semana de negociações com um plano de trabalho mais ou menos consolidado, deixando só alguns pontos políticos mais complicados para uma negociação em Belém. “Esperamos conseguir avançar a semana em um texto avançado, para não deixarmos muitas pendências para a próxima conferência”, explica.
De acordo com Vanessa, a conversa com o movimento negro e a sociedade civil brasileira é importante porque se ajusta as expectativas conforme o andar das negociações, possibilitando um alinhamento de articulação que viabiliza a articulação internacional que elas fazem. “A ideia é fazer a nossa agenda avançar conjuntamente. Queremos chegar num resultado que seja útil, concreto e ambiciosa”, reflete.
Articulação internacional e os desafios da compreensão sobre a questão racial brasileira
Apesar do Brasil ser a maior nação com pessoas negras fora da África, a questão racial e as desigualdades que imperam dentro dessa comunidade ainda são de dificilmente entendimento internacional. Essa complexidade é observada por ativistas, internacionalistas e representantes da diplomacia brasileira.
Vanessa conta que esse é o maior desafio para avançar na agenda. “A questão racial é muito específica do Brasil, então países que não sofreram escravidão tendem a olhar a raça numa perspectiva diferente. Os países europeus entendem nas perspectivas de xenofobia e migração. Já para o Brasil, falamos sobre a vulnerabilidade como uma questão interessecional e central que afeta as mulheres negras, mulheres indígenas e outros grupos marginalizados”, descreve.
De acordo com a embaixadora, a resistência para avançar nas pautas vem do desconhecimento. Para ela, países de outros locais têm outra realidade sociocultural e histórica. “A gente tem que aproximar, fazer pontes e tentar traduzir de maneira estratégica a nossa visão para que isso seja refletido em um documento, até porque o Brasil sediará uma COP, o que possibilita uma grande de oportunidade de avanço”, afirma.
Apesar da dificuldade, Vanessa diz que o país tem conseguido avançar multilateralmente. “Renovamos a década dos afrodescendentes nas Organizações das Nações Unidas, conseguimos na COP de Biodiversidade, em Cali, na Colômbia, adotar uma redação que contempla a contribuição específica das populações afrodescendentes na preservação do meio ambiente. Eu acho que tem acontecido um acúmulo multilateral que ajuda nesse trabalho de tradução das nossas prioridades e ambições”, conclui.