O modelo e artista Luan Vinycius, de 23 anos, registrou um boletim de ocorrência no 30º Distrito Policial de Fortaleza (CE) após ser alvo de ameaças e perseguições motivadas por uma campanha de desinformação nas redes sociais. Os ataques ocorreram depois de o jovem compartilhar o registro de um ensaio fotográfico em que ele aparece com uma cobra, em referência à divindade Oxumarê.
A fotografia faz parte de um saio artístico voltado à celebração da ancestralidade afro-brasileira, mas foi compartilhada de forma distorcida em grupos de WhatsApp, com a falsa alegação de que ele alimentava a cobra com filhotes de gatos.
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“A direção criativa do ensaio é assinada por mim como forma de afirmar minha fé, meu corpo e minha existência como sagrados”, afirma em entrevista à Alma Preta.
A imagem, associada por grupos fundamentalistas a supostos “rituais demoníacos”, circulou em redes e perfis conservadores, gerando uma onda de ódio com ataques racistas, LGBTfóbicos e de racismo religioso.
A vítima acredita que os ataques foram motivados pelo o que a cobra representa em diálogo com seu corpo. “A cobra é sagrada, símbolo de cura e de sabedoria ancestral, mas foi demonizada pelo cristianismo colonial. Quando um artista preto, tatuado e do Candomblé ressignifica esse símbolo com dignidade, isso incomoda profundamente”, destaca.
Luan aponta a atuação de grupos de proteção animal como canal de propagação dos ataques. “É uma tentativa coordenada de desumanização. O que está em jogo aqui não é a defesa de animais, é a tentativa de criminalizar corpos pretos que cultuam o sagrado fora das regras cristãs”, pontua Luan.
Ainda de acordo com o modelo, essas campanhas são revestidas de discurso moral para esconder preconceitos: “Usam a defesa dos animais como escudo para justificar o racismo religioso.”
Violência ultrapassa as redes sociais
Desde 27 de junho, data em que os ataques começaram, Luan relata ter recebido mensagens de ódio, áudios anônimos e ameaças direcionadas à sua integridade física. “Meus dados foram expostos, tentaram incitar ataques à minha residência e boicotar minha carreira. Pessoas próximas foram abordadas. Prints começaram a circular com incitações diretas ao ódio”, conta.
Além de registrar queixa, Luan contratou um advogado especialista em casos de discriminação racial. “Não vou recuar. Quando atacam um de nós, ferem toda a nossa ancestralidade. Levo esse caso até as últimas instâncias”, relata.
O caso não é isolado. Luan conta que sua trajetória como artista e modelo sempre foi marcada por tentativas de deslegitimação. Ele coordenou o projeto SPECTRUM 2024, a primeira produção audiovisual com elenco totalmente trans e não binário do Ceará e da região. Durante o processo, enfrentou boicotes, sabotagens e tentativas de apagamento.
As violências, muitas vezes simbólicas e sutis, também afetam sua presença no mercado da moda. “Já fui cortado de desfiles por usar tranças, enquanto modelos brancos com apropriações semelhantes eram exaltados. Me disseram para não usar roupas de mulher no Instagram, pediram que eu retirasse piercings. Mas esses símbolos só incomodam quando estão em corpos pretos.”