As favelas brasileiras movimentam mais de R$ 300 bilhões por ano em renda própria, segundo a nova pesquisa “Um País Chamado Favela”, realizada pelo Instituto Data Favela em parceria com a Central Única das Favelas (CUFA). O valor supera o Produto Interno Bruto Nacional (PIB) anual de países como Bolívia e Paraguai, e é maior que o consumo de 22 das 27 unidades federativas brasileiras.
Se as comunidades formassem um estado, seriam o quarto maior em população do país, com 17,2 milhões de habitantes — atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
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No Rio, os dados ganham contornos ainda mais relevantes. A Rocinha, na Zona Sul da capital fluminense, aparece como a maior favela do Brasil, com mais de 72 mil moradores, superando até mesmo 90% dos municípios brasileiros em número de habitantes. Outras comunidades cariocas, como Rio das Pedras e Cidade de Deus, também figuram entre as dez maiores do país.
“Estamos falando de um território que soma mais de R$ 300 bilhões em renda própria por ano. A favela não é carência, é mercado. Um mercado que compra, constrói, investe e transforma. Ignorar essa força é abrir mão de relevância econômica no Brasil real”, afirma Renato Meirelles, fundador do Data Favela.
A pesquisa ouviu mais de 16 mil pessoas em todo o país. No recorte fluminense, os resultados mostram um consumidor exigente, conectado e otimista. A maioria prioriza qualidade, praticidade e custo-benefício ao consumir. Entre os produtos mais comprados nos últimos três meses pelas favelas brasileiras, destacam-se cosméticos (55%) e vestuário (41%).
Maioria dos moradores de favelas fazem compras on-line
Mesmo com os desafios, como atrasos e extravios nas entregas, 60% dos moradores de favela afirmam fazer compras em marketplaces. A Shopee lidera como plataforma preferida, seguida pelo Mercado Livre e Magazine Luiza.
A aparência também tem papel central no consumo: 77% dos entrevistados dizem se importar muito com sua aparência, e 57% se inspiram em influenciadores com realidades parecidas às suas.
Segundo o estudo, 94% dos moradores sentem orgulho de morar na favela e 87% enxergam a comunidade como um espaço de solidariedade. Quando perguntados sobre o que pode melhorar suas vidas no próximo ano, 56% responderam: “meu esforço”, reforçando a ideia de que a potência econômica da favela é sustentada por uma base de trabalho, resiliência e otimismo.
“O desejo de consumo está vivo nas favelas e pulsa em todas as categorias. Mas é preciso ir além da venda: olhar para esses territórios com respeito e escuta. Quando a favela se vê representada na comunicação, no atendimento e nas vitrines, ela consome com a certeza de que aquele espaço também foi feito para ela”, destaca Meirelles.
Para Marcus Vinícius Athayde, também fundador do Data Favela, “a gente não quer mais ser estatística de tragédia. Queremos ser estatística de consumo, de sonho, de investimento. E estamos prontos pra isso”.
A pesquisa foi realizada de 3 a 06 de julho de 2025, com 16.521 entrevistas em todo o Brasil. A margem de erro é de 0,8 ponto percentual. A metodologia é quantitativa, com ponderações baseadas nos dados do Censo 2022.