O filósofo e médico psiquiatra Frantz Fanon é uma das referências mais influentes no pensamento antirracista mundial. A obra do pensador articula subjetividade e materialidade de forma radical, sendo incorporada, reinterpretada e debatida em diversas áreas do saber, da filosofia à saúde mental e da crítica literária à organização política.
Em homenagem ao centenário do nascimento de Fanon, celebrado em 20 de julho, a Alma Preta conversou com Márcio Farias, psicólogo e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) sobre como o pensamento do filósofo contribui para uma psicologia social crítica comprometida com a transformação da sociedade brasileira.
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Farias destacou a importância da obra “Pele Negra, Máscaras Brancas”, que rompe com a dicotomia entre sujeito e estrutura, e apresenta uma leitura da subjetividade atravessada pela colonialidade e pelo racismo.
Essa contribuição é particularmente importante para a psicologia social brasileira, que surgiu como uma crítica às abordagens centradas nas elites brancas urbanas, mas que, em muitos momentos, tratou o sujeito oprimido de maneira genérica.
Segundo Farias, Fanon introduz a ideia de uma subjetividade racializada, que exige da psicologia social brasileira um novo engajamento com a realidade negra no país.
“Sem cair num subjetivismo, e também sem tratar a subjetividade como mera sociologia, Fanon constrói uma composição entre objetividade e subjetividade, tendo como fundamento a experiência racializada do mundo moderno”, afirmou.
“O negro precisa se afirmar como sujeito”
A noção de subjetividade racializada em Fanon se constrói a partir de um diálogo intenso com a filosofia existencialista e a psicanálise, mas também com os impasses do movimento da negritude. Ainda que critique a ideia de uma “personalidade negra essencial”, Fanon reconhece a urgência da afirmação do sujeito negro frente à negação de sua humanidade.
Ao lado de Aimé Césaire — poeta e político martinicano que influenciou diretamente sua formação intelectual — Fanon compõe uma constelação de pensadores do século XX comprometidos com a autodeterminação negra e a superação das formas de assimilação ao modelo branco europeu. Para Farias, tanto Césaire quanto Fanon representam momentos centrais da luta antirracista no século XX.
“Foi um período em que essa luta, no plano internacional, percebeu que denunciar o racismo não bastava: era preciso superar as formas de assimilação em relação ao mundo branco”, aponta Márcio. “Por isso, era fundamental que o negro se enraizasse — compreendesse de onde veio — mas também estivesse aberto às novas experiências que marcam sua condição enquanto ser humano”, completou o pesquisador.
Fanon, que foi aluno de Césaire na Martinica, se distanciou da política institucional escolhida por seu mestre e optou pela luta direta, engajando-se na libertação da Argélia. Ainda assim, os dois partilham a compreensão de que, diante da desumanização imposta pelo colonialismo, “o negro precisa se afirmar como sujeito diante da negação de sua humanidade.”
“O processo de desalienação passa pela afirmação cultural”
A leitura de Fanon também ajuda a repensar as formas como o trabalho e a consciência política da população negra são tratados nos estudos sociais. Farias critica uma tendência recorrente: “Os estudos sobre o trabalho tendem a olhar o trabalhador apenas na sua forma final — já organizado em sindicatos, partidos, ou participando de manifestações.”
Ele apontou que, no Brasil, esse processo é racializado desde o início, e que a consciência de classe não pode ser compreendida sem os marcadores raciais.
Nessa perspectiva, Fanon oferece uma virada importante: “Como Fanon entende a alienação tendo o marcador racial como constitutivo da existência, o processo de desalienação passa pela afirmação cultural.” Para Farias, isso significa reconhecer como práticas culturais negras — muitas vezes desvalorizadas ou folclorizadas — desempenham papel central na constituição de sujeitos políticos.
“Experiências negras — como saraus, batalhas de MCs, rodas de samba, cultos evangélicos e terreiros de candomblé — compõem a dimensão subjetiva do mundo do trabalho”, descreveu.
De acordo com o pesquisador, autores como Clóvis Moura também trabalharam essa dimensão da cultura como resistência. “Autores como Clóvis Moura apontam para a cultura como resistência, como afirmação política de uma humanidade destituída”, lembra.
“O desafio é como politizar a violência”
Farias também comentou a abordagem de Fanon sobre a violência, ponto central de Os Condenados da Terra. Segundo ele, Fanon parte do princípio de que, nos contextos coloniais, a violência não é exceção, mas fundação: “As colônias se afirmam pela violência. Portanto, entender a violência apenas como algo que rompe a norma é não perceber que, em sociedades coloniais, ela é a origem da norma.”
A resposta violenta, nesse caso, não deve ser vista como irracional ou despolitizada. “O escravizado que se rebela e se aquilomba não canta apenas sua revolta. Ele realiza práticas libertárias que envolvem violência”, afirma Farias. “Fanon não faz um elogio à violência sem sentido — que, inclusive, recai contra quem a pratica de forma despolitizada. Mas, diante de um cenário de violência profunda, ele defende que é preciso dar sentido à resposta.”
O pesquisador destacou a atualidade desse debate no Brasil atual. “A população negra está armada — mas faz usos diversos dessa arma diante de sua condição.” Ele questiona: “Devemos seguir apostando apenas nos marcos da sociedade civil e da luta institucional? Ou devemos repolitizar a violência como tática, diante do avanço da violência do Estado e da própria sociedade civil contra os negros?”
Farias também relacionou a crítica de Fanon à estrutura colonial com o funcionamento do capitalismo no Brasil. “Sociedades coloniais têm, na sua gênese, a violência. Negá-la é elaborar mal a condição concreta da luta antirracista”, afirma. E completa: “O capitalismo no Brasil é dependente e violento.”
Aos 100 anos de seu nascimento, Fanon segue como autor indispensável para pensar os impasses contemporâneos do racismo estrutural e da organização social. Nas palavras de Farias, “a experiência de ser negro — marcada pela opressão — também se torna potência de vida e de luta.” Essa potência, para Fanon, é o ponto de partida de um novo mundo possível.