Uganda está prestes a ultrapassar a marca de 2 milhões de refugiados, tornando-se o terceiro maior país receptor de deslocados forçados no mundo e o maior da África. A intensificação dos conflitos no Sudão, Sudão do Sul e República Democrática do Congo tem provocado a entrada diária de cerca de 600 pessoas no território ugandês desde o início de 2025.
Até o momento, Uganda abriga 1,93 milhão de refugiados, mais da metade deles menores de 18 anos. Entre os recém-chegados, 48 mil crianças e adolescentes cruzaram as fronteiras desacompanhados. A situação humanitária, no entanto, enfrenta um dos piores déficits de financiamento das últimas décadas.
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“Conheci uma jovem de 16 anos que fugiu da violência no Sudão do Sul e agora cuida sozinha de quatro irmãos menores após perder os pais. Ela sonha em voltar à escola, mas a sobrevivência ocupa todos os seus pensamentos”, relatou Dominique Hyde, diretora de Relações Externas do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), após visitar os assentamentos de refugiados sudaneses e sul-sudaneses em Uganda.
A partir de setembro, os fundos emergenciais do ACNUR estarão esgotados. Caso novos recursos não sejam mobilizados, aumentará o número de crianças mortas por desnutrição, meninas vítimas de violência sexual e famílias sem acesso a abrigo ou proteção básica. Uganda oferece a esses refugiados o direito de viver, trabalhar e acessar serviços públicos, mas as lacunas de financiamento ameaçam interromper anos de avanços.
Recursos insuficientes frente ao aumento das necessidades
O custo estimado para atender as necessidades básicas de um refugiado em Uganda em 2025 é de 16 dólares por mês. Contudo, com o nível atual de financiamento, o ACNUR conseguirá oferecer apenas cinco dólares mensais por pessoa. A diminuição no fornecimento de alimentos, água e medicamentos tem causado um aumento alarmante nos índices de desnutrição infantil, principalmente entre crianças menores de cinco anos.
A escassez de recursos também afeta a continuidade escolar, forçando crianças e adolescentes a abandonarem os estudos. Relatos de violência de gênero aumentaram, assim como o risco de suicídio entre jovens refugiados, agravado pela redução de equipes de saúde mental.
No ritmo atual, o ACNUR tem capacidade de fornecer assistência em dinheiro e itens de necessidade básica para menos de 18 mil pessoas, o que cobre apenas dois meses de novos refugiados.
“Guerras destroem vidas de forma abrupta, deixando pessoas sem escolha a não ser fugir (…) Uganda demonstrou grande solidariedade, mas o peso dessa crise não pode recair apenas sobre comunidades distantes dos conflitos. A responsabilidade é de quem alimenta a violência. A paz é a única solução duradoura e, até que ela chegue, é essencial proteger a dignidade de quem foi forçado a partir”, afirmou Hyde.
Atualmente, a resposta humanitária em Uganda conta com apenas 25% do financiamento necessário. O ACNUR apela por apoio internacional urgente e sustentado, inclusive de atores do desenvolvimento, para garantir condições seguras e dignas aos refugiados e às comunidades locais que os acolhem.