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Podcast usa matemática para combater o racismo institucional

Inspirado por dados reais, podcast em cinco episódios narra a história de Maat, preso injustamente após reconhecimento facial
Gravação do podcast "Operações Negras".

Gravação do podcast "Operações Negras".

— Divulgação/Anastácia Flora Oliveira

24 de agosto de 2025

No podcast “Operações Negras”, audiossérie em cinco episódios, Maat é um educador autodidata apaixonado pelo conhecimento. Ele é acusado de um crime que não cometeu após ser vítima no sistema de reconhecimento facial. Preso sem audiência de custódia, é levado a uma penitenciária onde precisará usar o único recurso que domina com excelência: a lógica matemática.

Enquanto luta para provar sua inocência, Maat transforma os cálculos que antes ensinava a pessoas em situação de rua em ferramentas para sobreviver no ambiente carcerário. Escrita e dirigida por Marcelo Ricardo, roteirista e diretor baiano, a produção audiovisual mergulha no sistema prisional brasileiro para discutir segurança pública, reconhecimento facial e a violência do racismo institucional.

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“Maat é um jovem que foi confundido, quando outras juventudes, aos 22 anos, estariam vivendo confusões amorosas ou escolhendo o que vestir para uma festa”, diz o criador da audiossérie.

A cor da pele é o que tem em comum entre a história fictícia de Maat com a real de outros tantos brasileiros. “Quantos desses são jovens negros que podem ser presos sem audiência de custódia e que avolumam a capacidade das penitenciárias brasileiras?”, questiona.

Segundo dados mais recentes analisados por defensorias públicas, organizações de direitos humanos e pela imprensa, no Brasil, as taxas de prisões injustas por reconhecimento facial fotográfico ficam entre 80% e 90%. Na Bahia, estado onde nasceu Marcelo, 90,5% dos presos pelo sistema eram negros. O estado tem 79,7% da população autodeclarada negra, de acordo com o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os dados se somam a outro não menos triste para aumentar a sensação de injustiça. No Brasil, cerca de 75% das pessoas presas sem audiência de custódia são negras, segundo relatório do Observatório Nacional de Direitos Humanos. Isso demonstra como o assunto é pertinente.

Conhecimento como resistência

Se de um lado está a dor causada por essa violência, do outro está o reconhecimento das potências nesses jovens. Com Maat e sua paixão por matemática, “Operações Negras” reflete sobre as habilidades que, algumas vezes, não são sequer reconhecidas.

Além de usar a matemática para enfrentar a hostilidade do cárcere, Maat ajuda outros presos a descobrirem habilidades esquecidas, como o sonho de Ritornelo, um companheiro de cela que deseja ser MC de funk.

A série também destaca a matemática como herança africana, ancestral e estratégica, cuja potência foi apagada pela história oficial. Em um dos momentos mais simbólicos da narrativa, Maat usa equações como se fossem portais. Ainda que privados de liberdade, ele o amigo “cortam o tempo” e imaginam a vida antes do comércio transatlântico de pessoas escravizadas usando um cálculo de progressão geométrica.

“A matemática, para nós, não é só cálculo. É uma linguagem de travessia, de permanência, de invenção. Ela serve tanto para construir futuro quanto para resgatar o que nos foi tirado”, afirma Marcelo.

A força do teatro baiano em áudio

Um ponto importante de Operações Negras é que a audiossérie incorpora o teatro baiano. “Foi uma oportunidade de trazê-lo para o formato, demarcadamente pelo seu sotaque que ‘tempera’ a experiência sonora” diz Marcelo.

O podcast valoriza a oralidade e a presença vocal como formas de narrar a experiência negra com sensibilidade e potência. Aqui, a escuta se transforma em cena  e evoca uma tradição cênica soteropolitana que transforma palavra em território de resistência e, acima de tudo, afeto.

“Queria investir no descanso da visão dessas imagens que nos assaltam as manchetes e que são reproduzidas em loopings ao nosso redor, mas sem deixar de ampliar a audição para conseguir perceber a sensibilidade do nosso redor”, enfatiza o roteirista, que complementa “abramos o diálogo”. 

A obra é apoiada pelo Instituto Serrapilheira, que é uma iniciativa voltada para divulgação científica no brasil, e fruto do Camp de Podcast 2024 voltado para realizadores negras e negros.

O podcast “Operações Negras” está disponível em diferentes tocadores de podcast. Confira aqui.

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