A noviça da Irmandade da Boa Morte, Uiara Lopes, passou mal na última sexta-feira (15) após ser retirada de uma missa solene por um delegado durante os festejos da confraria religiosa afro-católica no município de Cachoeira, recôncavo baiano.
O episódio ocorreu dentro da Igreja Matriz do Rosário, onde estavam autoridades civis, políticas e religiosas. Segundo Uiara Lopes, o delegado da região entrou armado no templo para retirá-la à força do local. A justificativa era de que havia uma medida protetiva contra ela.
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Diante do ocorrido, integrantes da confraria que possuem cadeira ancestral — ou seja, aquelas que têm linhagem ancestral com as fundadoras da Irmandade — enviaram uma carta à ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, e a outras autoridades federais e estaduais, para denunciar perseguição moral e judicial contra Uiara Lopes.
O documento aponta violações de direitos durante o exercício de suas funções religiosas e culturais. O texto também define a ação como um “sinal de racismo institucional e de desrespeito a uma tradição bicentenária”.
“Não se trata apenas de um conflito interno, mas de um ataque direto à memória, ao patrimônio imaterial e à liberdade religiosa de mulheres negras guardiãs de um legado secular”, cita um trecho da carta.
Uiara é noviça na Irmandade, o que significa que está em período de iniciação e integração plena aos quadros tradicionais. Mas ela já detém direitos, deveres e responsabilidades religiosas e culturais, especialmente por ser herdeira de uma cadeira ancestral da matriarca fundadora Ludovina Pessoa – Rainha do Ogum, transmitida por linhagem familiar direta.
Considerada patrimônio cultural do Recôncavo baiano, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte é uma entidade religiosa bicentenária. Com origem no século 19, ela tem como finalidade a preservação de tradições culturais e religiosas afro-católicas e da resistência de mulheres negras.
Em agosto do ano passado, nove integrantes da Irmandade da Boa Morte anunciaram a expulsão da noviça Uiara Lopes e outras duas integrantes após denúncia. Elas teriam orquestrado ‘acusações inverídicas’ contra a confraria.
Em publicação nas redes sociais, a Irmandade da Boa Morte prestou solidariedade ao delegado e disse que ele tem sido “atacado com falsas acusações de racismo”.
A confraria também informou que o delegado “apenas cumpriu a ordem judicial que nos trouxe paz e tranquilidade para fazermos a nossa belíssima festa sem interferências”.