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Pode a mulher negra morrer? O direito à morte como uma reivindicação básica pela vida

O sistema impõe às mulheres negras não só o dever de viver, mas também a proibição de morrer
Imagem mostra uma mulher negra de costas e abaixada, com vestimentas de religião de matriz africana.

Imagem mostra uma mulher negra de costas e abaixada, com vestimentas de religião de matriz africana.

— Irmandade da Boa Morte/Adenor Gondim

24 de agosto de 2025

Se não temos certeza de nada nessa vida, a única certeza que nos acompanha desde o nascimento é que um dia vamos morrer. A morte é o destino comum, a linha que iguala a todos nós. Explorada em muitas crenças de maneiras diferentes, ela continua sendo um mistério. Para mim, sempre foi uma mistura de medo e fascínio. É curioso como algo tão grandioso quanto a vida pode ser, ao mesmo tempo, tão frágil.

Na cosmopercepção africana, a morte não é um fim, é um retorno, um recomeço. Não é coincidência que pessoas negras se debrucem tanto sobre esse mistério. Para nós, a morte nunca foi um horizonte distante, mas uma vizinha constante. A vida negra sempre esteve em risco. No Ocidente, esse risco tem nome: racismo. Arthur Jafa resumiu essa experiência em sua obra love is the message. the message is death. Para nós, mesmo diante do enfrentamento e do apagamento impostos pela violência, ainda há uma verdade universal que insiste em manter viva a esperança.

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Homens e meninos pretos continuam sendo os que mais morrem. Para as mulheres negras, isso amplia a solidão. Não é apenas solidão afetiva, é a solidão diante da morte cotidiana dos seus. E quando a morte atinge uma mulher negra, não se trata apenas de luto, é um colapso. Uma mãe preta que parte pode levar consigo o terreiro, a família, a comunidade inteira. O sistema impõe às mulheres negras não só o dever de viver, mas também a proibição de morrer. O corpo preto feminino é sequestrado pela lógica da sobrevivência. Não pode cair. Não pode cansar. Não pode adoecer. Não pode envelhecer. Não pode morrer.

Se a morte é um destino certo e, portanto, um direito, negar às mulheres negras a possibilidade de morrer é roubar delas o mais básico dos direitos humanos. É negar o descanso depois de uma vida de luta. É perpetuar a escravidão sob outra forma.

A Irmandade da Boa Morte, no Recôncavo Baiano, entendeu isso há mais de dois séculos. Todo mês de agosto, mulheres negras, muitas descendentes de escravizadas, celebram sua festa. Entre rezas, comidas, músicas e danças, pedem a Nossa Senhora da Boa Morte uma morte sem dor, sem violência. Uma boa morte para seu povo. Ao lembrar suas irmãs falecidas, afirmam que, apesar da morte, seu povo continua. Reivindicam a passagem em paz, o direito de encerrar a vida com dignidade.

Reivindicar o direito de morrer é, na verdade, reivindicar o direito de viver. É recusar a lógica do sacrifício eterno. É afirmar que mulheres negras têm direito ao descanso, ao envelhecimento e ao fim pacífico. O direito de simplesmente existir sem carregar o peso do mundo até o último suspiro. Quando cantamos pela morte, estamos cantando pela vida. Estamos dizendo que o racismo não vai nos roubar a possibilidade de sonhar, de viver com plenitude, de encerrar nossa caminhada com dignidade. 

O meu trabalho tem sido a manifestação prática dessa filosofia. Ajudando a traduzir a inteligência e as soluções já existentes nas periferias urbanas em projetos que promovem autonomia, dignidade e o direito de viver plenamente. Porque, afinal, o direito de morrer em paz começa com o direito de viver com propósito.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Camila Santos

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