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Jornal Nacional: 56 anos no ar, 56 anos de exclusão de jornalistas negros e negras

A ausência negra no Jornal Nacional escancara um dos casos mais emblemáticos de racismo institucional da TV brasileira
Os jornalistas e apresentadores do Jornal Nacional, da TV Globo, William Bonner (esquerda) e Renata Vasconcellos (direita) durante entrevista com o ex-presidente Jair Bolsonaro, em 22 de agosto de 2022

Os jornalistas e apresentadores do Jornal Nacional, da TV Globo, William Bonner (esquerda) e Renata Vasconcellos (direita) durante entrevista com o ex-presidente Jair Bolsonaro, em 22 de agosto de 2022

— Marcos Serra Lima/G1/AFP

3 de setembro de 2025

No dia 1º de setembro de 1969, dois homens brancos deram “boa noite” ao Brasil. Cid Moreira e Hilton Gomes ancoravam pela primeira vez o Jornal Nacional, que viria a se tornar o principal telejornal do país. Cinquenta e seis anos depois, essa mesma bancada nunca foi ocupada por um apresentador ou apresentadora negra em caráter fixo. Nunca.

É comum que se tente explicar os vazios históricos com o velho argumento do “era outra época”. Mas o tempo passou e a ausência permaneceu. O que começou com dois homens brancos seguiu, década após década, com um revezamento entre nomes diferentes, mas sempre com a mesma cor. Todos os apresentadores e apresentadoras titulares do JN foram e continuam sendo brancos. Em um país de maioria negra.

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A linha do tempo da exclusão

Esse levantamento que compartilho agora nasceu como parte da minha dissertação de mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fiz uma retrospectiva completa de todos os apresentadores e apresentadoras que já ocuparam a bancada do Jornal Nacional. O resultado escancara o padrão:

  • 1969: Cid Moreira e Hilton Gomes estreiam o JN.
  • 1972: Sérgio Chapelin substitui Ronaldo Rosas e forma dupla com Cid Moreira por mais de uma década.
  • 1983: Celso Freitas entra temporariamente no lugar de Chapelin.
  • 1989: Chapelin retorna. Ele e Cid permanecem até 1996.
  • 1996: Pela primeira vez, uma mulher ocupa a bancada como titular: Lillian Witte Fibe, ao lado de William Bonner.
  • 1998: Fátima Bernardes assume o lugar de Lillian.
  • 2011: Fátima é substituída por Patrícia Poeta.
  • 2014: Renata Vasconcellos entra no lugar de Patrícia — e segue até hoje.
  • 2025: Willian Bonner anuncia a sua saída e a entrada do César Tralli.

Durante 33 anos, a bancada foi ocupada exclusivamente por homens. Durante 56 anos, foi ocupada exclusivamente por pessoas brancas.

A entrada pelo elevador de serviço

O primeiro jornalista negro a aparecer no JN não foi escalado como âncora principal. Veio como substituto, 33 anos após a estreia do telejornal. Em 2002, Heraldo Pereira tornou-se o primeiro apresentador negro do Jornal Nacional como folguista.

Apenas em 2019, quase meio século depois da primeira transmissão, uma mulher negra apareceu na bancada, também como substituta: Maria Júlia Coutinho. Foi no dia 16 de fevereiro faltando sete meses para o JN completar 50 anos. Um marco simbólico, sem continuidade. Outros nomes negros surgiram posteriormente, sempre como folguistas. Nenhum foi efetivado. Nenhum rompeu o teto de vidro que separa os bastidores da visibilidade plena.

Racismo institucional tem script e elenco

O que se vê é um caso evidente de uma discriminação racial institucional. Como definiria a pesquisadora Cida Bento, trata-se de um exemplo clássico do pacto narcísico da branquitude: um sistema que protege a si mesmo, que se retroalimenta, que distribui oportunidades conforme a imagem refletida no espelho da norma racial branca.

Provavelmente, essa leitura seria rebatida por Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo por mais de três décadas, que insiste na tese de que “não somos racistas”. A explicação institucional, historicamente, se sustenta em um tripé: meritocracia, qualificação e conveniência. Segundo essa lógica, os profissionais brancos dominam a bancada por serem os “mais capacitados”. Se é intencional ou não eu não posso afirmar, mas é efetivo como podemos assistir todas as noites de segunda a segunda.

Mas então nos perguntamos:
Será que não existem jornalistas negros competentes?
Será que a competência tem cor?
Ou será que a brancura foi naturalizada como sinônimo de excelência?

Enquanto os rostos que aparecem na tela continuam, majoritariamente, brancos, os profissionais negros seguem nos bastidores: repórteres, produtores, editores. Na “cozinha” da notícia. Construtores de pautas, vozes sem rosto. Mesmo quando chegam perto do centro, raramente permanecem.

Hoje, o Brasil tem milhares de jornalistas negros e negras, formados e qualificados. Estão nas redações, nas agências, nos veículos impressos e digitais. Muitos passaram pelas mesmas universidades, pelas mesmas provas, pelos mesmos estágios. Mas continuam fora do campo mais simbólico: o da representação direta. Aquele em que se olha para a câmera e diz: “Boa noite” em nome de um país inteiro.

Esperar mais 56 anos?

A pergunta que fica não é retórica. É urgente: Será que teremos de esperar mais 56 anos para ver um apresentador negro fixo no Jornal Nacional?

Em um país onde mais da metade da população se declara negra, essa ausência não é descuido. É escolha. É política. É estrutura. É silêncio que grita. E como jornalista, pesquisadora e cidadã negra, digo: o que me parece radical não é questionar essa realidade de exclusão. Radical é o racismo.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Jornalista, doutoranda e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora das relações raciais e de gênero.

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