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Levantamento relaciona política de drogas à crise climática na Amazônia

Reserva florestal Adolpho Ducke, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA).

Reserva florestal Adolpho Ducke, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA).

— Tânia Rêgo/Agência Brasil

8 de novembro de 2025

Em um momento em que o mundo volta suas atenções à COP30, prevista para novembro em Belém, pesquisadores e organizações da sociedade civil alertam para a ausência do tema das políticas de drogas no debate climático.

Embora a pauta ambiental concentre-se em metas de descarbonização e preservação, especialistas apontam que a atual política de proibição das drogas é um dos vetores silenciosos da degradação ambiental e da violência territorial na Amazônia.

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A publicação Floresta em Pó, lançada em 30 de outubro pela Iniciativa Negra e pela Coalizão Internacional pela Reforma da Política de Drogas e Justiça Ambiental, reúne dados inéditos sobre os impactos socioeconômicos e ambientais da proibição da coca e da cocaína na Bacia. 

O levantamento aponta como o regime global de proibição das drogas tem contribuído para o agravamento da crise climática, o desmatamento e a expansão de economias ilegais nas florestas tropicais. 

De acordo com o estudo, o Brasil ocupa hoje uma posição central na cadeia internacional da cocaína, atuando como polo de refino, distribuição e consumo. Foram identificados 550 laboratórios ativos de processamento no país, com estimativas para até cinco mil em operação. 

A pesquisa estima que a atividade de refino movimenta cerca de US$ 6 bilhões (R$ 32.136 bilhões) e a indústria global da cocaína, aproximadamente US$ 65,7 bilhões (R$ 351,8 bilhões). 

“Recentemente, o Brasil escalou da décima para a terceira posição em volume de cocaína apreendida, e a Amazônia passou a assumir relevância nesse cenário”, diz trecho do levantamento.

Para Rebeca Lerer, criadora do projeto Intersecção e coordenadora latino-americana da Coalizão Internacional, o Brasil consolidou-se como um ponto central do tráfico transatlântico.  Em nota à imprensa, ela explica que a atual política de proibição reforça o mercado clandestino e alimenta práticas ilegais que se estendem do garimpo à lavagem de dinheiro. 

Os dados, produzidos em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, o Instituto Mãe Crioula e pesquisadores internacionais, indicam que a economia do tráfico contribui para conflitos agrários, grilagem de terras, mineração ilegal e contrabando de madeira. Nos últimos 40 anos, o Brasil perdeu 111,7 milhões de hectares de cobertura vegetal, o equivalente a 13% do território nacional.

Também em nota, a socióloga Nathália Oliveira, diretora-geral da Iniciativa Negra, avalia que esse sistema de produção e comercialização impacta diretamente as populações vulnerabilizadas. 

“O que temos acompanhado é o crescimento da violência e das mortes entre populações indígenas, ribeirinhas, camponesas e faveladas, que são a ponta mais frágil das disputas territoriais turbinadas pelas práticas de guerra associadas às políticas de proibição”, afirma. 

Segundo o Instituto Mãe Crioula, comunidades quilombolas, ribeirinhas e indígenas estão entre as mais impactadas pelas disputas territoriais e pela expansão do tráfico de drogas na Amazônia. Nessas regiões, a presença de forças policiais e de grupos armados intensifica o ciclo de violência e ameaça modos de vida tradicionais. O aumento dos conflitos agrários e a militarização dos territórios têm provocado deslocamentos forçados e violações de direitos.

O levantamento também relaciona o avanço do tráfico e da repressão ao aumento das taxas de encarceramento e de mortes violentas na Amazônia. Na última década, os índices subiram 67,3% e 76,7%, respectivamente. 

A publicação propõe a incorporação do conceito de Redução de Danos Ecológicos (RDE), que vincula a reforma das políticas de drogas à preservação ambiental e à justiça climática. O relatório defende a reclassificação das plantas proibidas como recursos de potencial socioeconômico e ecológico.

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  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

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