Belém – A COP30 chega ao Brasil em um momento histórico. Pela primeira vez, uma Conferência do Clima acontece no coração da Amazônia, cercada por povos que convivem diariamente com a crise que tantos ainda tratam como teoria. Belém virou o epicentro de uma disputa global que define quem se adapta, quem resiste e quem fica para trás.
Dentro das salas de negociação, adaptação climática ocupa um espaço inédito, embora sua importância seja antiga. Enquanto mitigação ganha glamour, muitas promessas e protagonismo político, adaptação sempre foi a pauta invisível: urgente, complexa e dolorosamente negligenciada. Mas aqui, no Brasil, não há como continuar empurrando essa conversa. O que está em jogo no Global Goal on Adaptation (GGA) exige mais do que discursos: precisamos de decisões efetivas num momento em que o planeta já está falhando.
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O GGA deveria entregar, nesta COP, algo muito aguardado: uma lista de indicadores capazes de transformar adaptação em ações reais, mensuráveis e comparáveis. O programa de trabalho deveria ser concluído agora, com quase 100 indicadores prontos para adoção. Só que a realidade não seguiu o roteiro esperado. O tema continua tecnicamente difícil, politicamente sensível e diplomaticamente explosivo. Adaptar países tão distintos entre si — de ilhas prestes a desaparecer a megacidades periféricas sem infraestrutura básica — exige uma precisão técnica que nem todas as delegações dominam. E quando a base é frágil e o impacto político é enorme, a negociação vira território instável. A sensação constante é a de caminhar sobre um chão que pode ceder a qualquer momento.
A primeira semana da COP30 começou com otimismo, mas terminou revelando um abismo entre expectativa e realidade. Muitos chegaram acreditando que a lista seria adotada rapidamente, mas até os últimos dias quase nada havia sido discutido de fato sobre o conteúdo dos indicadores. Em vez de decidir o que medir, as Partes passaram dias debatendo quando e como decidir se irão medir. Surgiram dúvidas sobre adotar ou não a lista agora, sobre como continuar o trabalho e sobre diferentes modelos de adaptação, além das discussões que sempre voltam ao mesmo ponto sensível: financiamento.
Entraves políticos
O resultado desse acúmulo de incertezas foi um texto cheio de opções conflitantes, difícil de negociar e sem qualquer caminho óbvio de consenso. Mas o que realmente mudou o cenário foi a postura do Grupo Africano. O elemento surpresa desta COP é que um dos principais entraves não veio dos países ricos, como tantos imaginavam. Quem assumiu a dianteira do pedido de adiamento foi o bloco africano. Desde o primeiro dia, os negociadores africanos deixaram claro que não querem aprovar a lista agora e apresentaram uma alternativa: um novo programa de trabalho de dois anos, o que empurraria qualquer decisão para a COP32, que será sediada na Etiópia.
Essa posição tem camadas. Há argumentos legítimos sobre lacunas técnicas, necessidade de maior refinamento e coerência nos indicadores, além de pressões políticas internas que variam de país para país. Mas há também estratégia. Adiar significa ganhar tempo, reposicionar forças e transformar a COP africana num momento de grande protagonismo. E embora essas motivações possam ser compreendidas, o efeito imediato é de travamento. Travamento estrutural, com impacto direto na agenda de adaptação global.
Esse movimento colocou pressão sobre a unidade do G77 + China, o maior grupo de países em desenvolvimento. Quando o G77 se fragmenta, perde força. E a adaptação é um tema especialmente vulnerável à fragmentação, porque depende de financiamento previsível, envolve múltiplos setores e exige coordenação fina entre trilhas técnicas e políticas. Se o bloco se divide agora, outras agendas essenciais também podem se fragilizar.
Enquanto isso, cresce a pressão por mais financiamento de adaptação. O Grupo Árabe apresentou uma proposta significativa de mobilizar 150 bilhões de dólares anuais para adaptação, metade da nova meta global de financiamento definida em Baku. A proposta expõe algo que ninguém pode ignorar: não existe adaptação sem dinheiro. Os indicadores podem ser tecnicamente brilhantes, mas se países vulnerabilizados não tiverem recursos, nada sai do papel. O GGA, portanto, não é só sobre o que medir. É sobre quem terá condições reais de se adaptar.
O Brasil, como país anfitrião, se vê diante de um desafio delicado. Precisa mediar grupos com posições divergentes, preservar a ambição da agenda, evitar atrasos que comprometam o legado da COP30 e, ao mesmo tempo, manter relações sólidas com África, América Latina, países desenvolvidos e a multiplicidade de interesses que atravessam a negociação. É uma tarefa que exige precisão cirúrgica.
Do ponto de vista territorial, tudo isso tem peso ainda maior. Nós que viemos de comunidades negras, periféricas, quilombolas, tradicionais ou comunidades indígenas sabemos que adaptação não é um conceito abstrato. O que vemos diariamente é muito duro: enquanto delegações debatem textos de conferência, famílias perdem casas com chuvas extremas, enfrentam ondas de calor cada vez mais mortais, lidam com água que falta, sofrem com insegurança alimentar e convivem com o impacto emocional de desastres repetidos. Para quem vive isso, adaptação não pode esperar COP32, 33 ou 34.
Inclusão de afrodescendentes
Também existe outro debate decisivo que não aparece nos documentos oficiais: a inclusão da perspectiva afrodescendente nas negociações. Depois de forte incidência do movimento negro e de organizações que denunciam essas desigualdades há anos, a delegação brasileira passou a apoiar a inclusão do termo. Isso não é detalhe técnico, mas o reconhecimento de quem mais sofre e de quem mais morre diante da crise climática. No Brasil, um país majoritariamente negro, adaptação sem raça é diagnóstico incompleto. A realidade é simples e brutal: nossa população não pode seguir morrendo nem por bala perdida, nem por deslizamento de terra.
Agora começa a segunda semana da COP30 com um texto ainda incerto e posições distantes, mas com uma verdade que ninguém aqui em Belém consegue ignorar: o futuro da adaptação global precisa reconhecer quem está na linha de frente. A negociação pode estar travada, mas a realidade dos territórios não está esperando. E a responsabilidade política deste momento também não.