A morte de João Alberto Freitas em uma unidade do Carrefour em Porto Alegre, em 19 de novembro de 2020, um dia antes da data em que se comemora a Consciência Negra no Brasil, gerou manifestações em cidades como Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Um dos supermercados da rede em São Paulo foi atacado, com as pessoas destruindo vidraças e queimando produtos.
Depois do caso, o Carrefour adotou medidas para conter o dano à imagem da empresa. Entre elas, a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com diversos órgãos, a exemplo do Ministério Público do Rio Grande do Sul e o Ministério Público Federal, para o enfrentamento do racismo. O acordo, de R$ 115 milhões, o maior da história do país na área de igualdade racial, foi assinado em junho de 2021, com previsão de três anos para a execução de todos os compromissos.
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No dia dos fatos, João Alberto Freitas foi à unidade do Carrefour com a sua companheira, Milena Borges Alves, para comprar alimentos para preparar a janta. Beto, como era conhecido, na época trabalhava como autônomo, com serviços gerais como de pedreiro. Na unidade do Carrefour do Passo D’areia, em Porto Alegre, ele se desentendeu com os seguranças da loja e foi espancado até a morte.
Milena Borges Alves e Stephanye Alves, viúva e enteada de João Alberto Freitas, fizeram acordos extrajudiciais com o Carrefour para o pagamento de uma indenização, informações acessadas pela Alma Preta. Milena Alves recebeu a quantia de R$ 1,5 milhão e Stephanye Alves, R$ 459.800 mil.
A Alma Preta acessou os documentos que mostram como o Carrefour aplicou parte dos recursos. Diversas empresas, algumas pequenas e outras multinacionais, algumas lideradas por pessoas negras e outras não, receberam dinheiro para o desenvolvimento de projetos voltados para a população negra.
Uma das mais beneficiadas pelo dinheiro foi a DIO, uma empresa que oferece cursos na área de tecnologia e faz parcerias com multinacionais, como o Carrefour. Ela recebeu, somente do TAC, um valor de R$ 2,6 milhões.
A DIO é uma empresa sediada em Araraquara, que afirma ter mais de 590 mil usuários na plataforma online da empresa. Os sócios da companhia são Gustavo Henrique Pereira e Igla Lear Generoso, dois homens brancos.
Um dos projetos da DIO foi realizado em 2022 e visava oferecer bolsas de estudo para pessoas negras na área de tecnologia. Outro consistiu em dar formação para pessoas negras nas áreas de empreendedorismo e criatividade. De acordo com o Carrefour, 680 pessoas foram impactadas. A DIO informou, em nota, que não pode se manifestar por sigilo de contrato.
Multinacionais de outros setores também se beneficiaram. A Education First (EF), fundada em 1965 na Suécia e a maior do ramo de ensino de línguas no mundo, recebeu R$ 1,5 milhão do acordo para montar o programa “Fala Mais”, que formou 300 pessoas em todo o país, durante o período de um ano, com início em abril de 2024. A EF afirmou ser “reconhecida por suas ações e programas em prol da equidade racial, motivo pelo qual foi escolhida para prestar esse serviço ao Grupo Carrefour Brasil”.
Os R$ 115 milhões comprometidos por parte do Carrefour estão divididos em rubricas, em áreas de investimento. A maior parte deste valor, R$ 68 milhões, é destinada para bolsas de estudo de graduação e pós-graduação, com outros R$ 6 milhões para idiomas, inovação e tecnologia e R$ 8 milhões para empreendedores negros, entre outras.
Apesar da possibilidade de checar dados de algumas empresas e dos gastos de algumas rubricas, não foi possível descobrir informações sobre todas. Não há um sistema completo de transparência da execução do dinheiro.

Nos documentos, ainda é possível ver que houve negativas para o Carrefour. A CONAQ, movimento nacional dos quilombolas, refutou a possibilidade de parceria com a empresa francesa.
Com R$ 2 milhões de todo o acordo destinado para ações de apoio a povos quilombolas, o Carrefour consultou a organização para o desenvolvimento de um projeto de “luta pela garantia da terra”. Os movimentos quilombolas refutaram a possibilidade de parceria com a empresa francesa.
Biko Rodrigues, coordenador nacional da CONAQ, afirma que a organização não aceita receber dinheiro de quem “mata” pessoas negras.
“A proposta que eles fizeram foi para a gente calar a boca, para a gente não se manifestar. Nós sabemos bastante o que é a gente receber a ajuda dos nossos algoz. A CONAQ não compactua em receber a ajuda daqueles que nos matam”, afirmou.
Até o fechamento da reportagem, o Carrefour não enviou qualquer posicionamento para a Alma Preta. O espaço segue aberto.
Empresas lideradas por pessoas negras participaram dos editais e programas do Carrefour
Um dos principais parceiros da rede de supermercados foi a Gastronomia Periférica. Edson Leite, homem negro e líder da empresa, assinou um contrato para capacitar 480 pessoas, no período de doze meses, em quatro turmas de ensino a distância. O contrato foi de R$ 891 mil.
O curso abordou temas como educação financeira, aproveitamento de ingredientes, hotelaria, módulo de bebidas e cozinha em geral. De acordo com o site oficial da rede francesa, o projeto de Leite “promove transformação social e geração de emprego e renda através de capacitação em gastronomia”.
Em entrevista para a Veja, Edson Leite destacou o apoio dado pela empresa. “Nosso maior aporte financeiro é do Carrefour, que se preocupa com a inclusão social. É por volta de meio milhão de reais”, afirmou.
Outras parcerias do Carrefour foram a Afrobusiness e a Associação Fábrica Cultural, organizadoras do programa Acelera Iaô, um trabalho voltado para a qualificação de empreendedores negros baianos. O programa teve a duração de doze meses, com um patrocínio de R$ 1,4 milhão. Entre os beneficiados, estão a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), seção Bahia, e grupo cultural Filhos de Gandhy. O projeto foi iniciado em junho de 2021.

O Carrefour apresentou outro edital, para 15 organizações negras no setor do empreendimento, no valor total de R$ 750 mil, com o repasse de R$ 50 mil para cada uma das entidades escolhidas. Para esse edital, aberto em junho de 2021, foram favorecidas organizações como a Diáspora Black, voltada para o setor de turismo, e a Grana Pretta, atualmente Negrana Finanças, voltada para o treinamento de mulheres negras com gestão financeira.
Um terceiro edital nesse mesmo período, destinado para incentivar organizações que combatem o racismo e a discriminação racial, destinou R$ 30 mil para cada uma das 10 empresas selecionadas. Grupos de todo o país participaram e foram agraciadas com o projeto, como o Observatório da Discriminação Racial no Futebol e Tem Dende Produções.
Nenhuma iniciativa respondeu aos questionamentos da reportagem sobre a participação em um edital financiado pelo Carrefour.
O Comitê Externo Independente contou com participação de ex-ministro
Seis dias depois do assassinato, em 25 de novembro, o Carrefour formulou um Comitê Externo Independente, com nomes como Rachel Maia, Adriana Barbosa, Celso Athayde, Silvio Almeida, Anna Karla da Silva Pereira, Mariana Ferreira dos Santos, Maurício Pestana, Renato Meirelles e Ricardo Sales. O grupo seria formado para auxiliar as mudanças das políticas da empresa depois do assassinato de Beto Freitas.
Logo depois da criação do grupo, no dia 4 de dezembro, duas semanas depois da morte de João Alberto Freitas, o Carrefour anunciou, a partir de uma provocação do Comitê Externo Independente, o compromisso de contratar profissionais de segurança e não mais serviços de empresas terceirizadas. A página no site do Carrefour foi removida do ar.
A proposta, contudo, foi descumprida pela rede de supermercados, como publicado pela Alma Preta, com a manutenção de contratos de R$ 40 milhões anuais com empresas de segurança privada.
As atividades, contudo, não se limitaram a essa recomendação. A rede de supermercados conta que o Comitê Externo Independente acompanhou a aplicação de mais de 50 ações do TAC e funcionou por dois anos, com as tarefas encerradas em novembro de 2022. As contribuições de alguns dos participantes, contudo, se estenderam e prosseguiram até o início de 2023.
As informações mostram que Silvio Almeida, ex-ministro da Cidadania e dos Direitos Humanos, gravou duas horas de aulas sobre o tema do racismo estrutural para o Carrefour na plataforma da rede. O curso foi direcionado para todos funcionários do Carrefour, independente do cargo. Janaína Gama, da Consultoria Mais Diversidade, também deu uma formação de 2h na plataforma online da rede de supermercados.
De acordo com apuração da Revista Piauí, Silvio Almeida recebeu R$ 30 mil mensais para participar do Comitê Externo Independente. Silvio Almeida deixou a pasta dos direitos humanos depois de ser acusado de assediar sexualmente a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco.
O Carrefour chegou, inclusive, a apresentar um certificado, em nome da “Universidade Carrefour”, com o nome do participante e o destaque para a conclusão do curso de letramento racial com o professor Silvio Almeida. A maioria dos certificados são referentes ao mês de outubro de 2021 e todos indicam para 2h de atividades.
O curso tinha como principais tópicos abordar temas e conceitos como “Branquitude”; “Interseccionalidade”, “Lugar de fala”, “Preconceito e vieses inconscientes”; “Racismo estrutural brasileiro x racismo norte-americano Racismo reverso”; “Expressões cotidianas racistas”. A formação também tinha a provocação de responder ao questionamentos de como se “engajar na luta antirracista” e dicas de livros e filmes sobre a questão racial.
A relação de Silvio Almeida com a empresa persistiu até o início de 2023. No dia 18 de novembro de 2022, foi divulgada a lista dos cursos habilitados a participar do edital do Carrefour. A banca de seleção foi formada por integrantes do Ministério Público, Defensoria Pública, do Grupo Carrefour e de figuras como Silvio Almeida.
O resultado da seleção foi divulgado, com a assinatura do então Ministro da Cidadania e Direitos Humanos, Silvio Almeida, em 26 de janeiro de 2023. O escritor e autor de obras como “O que é o Racismo Estrutural?” foi anunciado como ministro em 22 de dezembro de 2022 e empossado em 1 de janeiro, depois de Lula receber a faixa presidencial. O ato público da posse de Silvio Almeida ocorreu em 3 de janeiro de 2023.
Rachel Maia, Ceo da RM Consulting, participou do programa de aceleração de carreira para colaboradores do Carrefour até novembro de 2022, e recebeu o valor de R$ 720 mil, conforme notas fiscais apresentadas no processo.
Ricardo Salles, CEO da empresa Mais Diversidade, promoveu ações de letramento racial para o Atacadão, integrante do grupo econômico Carrefour, Mariana Santos, Conselheira da Odabá, foi responsável por fazer o letramento racial de 150 mil colaboradores do grupo Carrefour, e Adriana Barbosa, CEO da Pretahub e idealizadora da Feira Preta, auxiliou e liderou a construção de iniciativas e compromissos que se tornaram bases para um Grupo Carrefour Brasil.
Outro integrante do Comitê Externo Independente, Celso Athayde recebeu apoio do Carrefour para o desenvolvimento de projetos. O ExpoFavela, evento organizado pela Favela Holding, grupo do qual ele é CEO, recebeu patrocínio para as edições de 2022 e 2023. Os valores repassados não fazem parte da quantia do TAC.
Ninguém retornou às perguntas da reportagem sobre a participação no acordo ou a morte de João Alberto Freitas.