“O cemitério era uma forma de apartamento social”, avalia Jeanne Dias, arqueóloga e coordenadora do projeto que busca desvendar uma história que ficou enterrada há anos: a existência de um cemitério dos escravizados no Complexo da Pupileira, localizado na Avenida Joana Angélica, no bairro de Nazaré, centro de Salvador.
A estimativa é que o local, onde atualmente funciona uma casa de eventos e espaços geridos pela Santa Casa de Misericórdia da Bahia, possa ter cerca de 100 mil escravizados enterrados, incluindo figuras que atuaram em revoltas históricas como a dos Malês e dos Búzios. O número ainda é incerto e depende da ampliação da pesquisa, apontam os especialistas envolvidos nas análises.
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De acordo com os profissionais envolvidos nas escavações, a Santa Casa tem dificultado o processo da pesquisa mesmo diante de evidências documentais que comprovam a existência de um cemitério no local, como o livro de Benguê e a escritura do imóvel (entenda mais abaixo).
A escavação no local comprova a pesquisa da arquiteta e pesquisadora Silvana Olivieri que identificou através de mapas a existência de uma área de enterramento que funcionou durante os séculos 18 e 19. Na segunda metade do século 19 esse local desaparece.
“Nossa pesquisa teve como foco principal revelar a localização exata do cemitério e investigar como esse lugar foi ‘apagado’ da paisagem visível de Salvador e da memória dos seus habitantes”, diz Olivieri.
O cemitério ficou em atividade por cerca de 150 anos e foi desativado apenas em 1844. Depois disso, o local passou a abrigar um internato que recebia crianças órfãs, daí o nome “Pupileira”.
“Para que a gente tivesse um melhor entendimento sobre o que aconteceu, parte-se para a solicitação de uma pesquisa arqueológica e é quando ela [Silvana] nos convida para que a gente se junte e protocolize junto ao IPHAN [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] um pedido de pesquisa”, explica Jeanne Dias.
Assim como Jeanne, Railson Cotias integra a “Arqueólogos”, empresa responsável pelas escavações. Ele relembra os desafios que surgiram antes e durante as pesquisas em campo.
“O primeiro desafio era essa coisa da gente lidar com o tema todo. Tão entusiasmante, interessante e tão caro para a história do povo negro de Salvador. E o segundo desafio era a gente conseguir se organizar para emprestar a infraestrutura da ‘Arqueólogos’ para essa pesquisa e assim foi feito”, comenta Cotias.

Entendendo a região da Pupileira, em Salvador
A Pupileira está localizada na Avenida Joana Angélica, no centro de Salvador. A apenas 300 metros de distância está o Campo da Pólvora, local que serviu para execuções e enterros de negros escravizados.
O cemitério ficou sob gestão da Câmara de Salvador durante as primeiras duas décadas do século 18, destinado ao enterro de africanos que não eram batizados. Naquele período, o enterro equivalia à “remoção de lixo”, explica o historiador João José Reis, um dos principais nomes no estudo da história da escravidão no Brasil.
“A preocupação em enterrá-los bem não objetivava dar-lhes sepultura decente, mas evitar a disseminação de doenças”, define Reis, professor e autor dos livros “A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX” e “Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante do malês”.

Com o passar do tempo e sob a gestão da Santa Casa, o cemitério se tornaria o destino da maioria dos escravizados mortos na Bahia, fossem batizados ou não, e pessoas marginalizadas.
“Com a intensificação de seu uso, devido ao crescimento da população escravizada da cidade, o lugar deixaria de ser solução para se tornar problema de higiene pública”, explica João José Reis.
No livro “A morte é uma festa”, Reis fez um estudo sobre a Cemiterada, movimento ocorrido em 1836 contra a proibição dos enterros no interior das igrejas. Ele contabilizou 645 pessoas enterradas no Campo da Pólvora nos anos de 1835 e 1836, sendo que, desse total, 639 eram pessoas escravizadas. Apenas seis delas eram livres.
Na época, os cemitérios foram alojados para o Campo Santo, em Salvador, por influência de questões higiênicas da Europa. Com apenas três dias de inaugurado, o Campo Santo foi destruído.
“Os baianos só aceitaram mudar seus mortos para cemitérios durante a pandemia de cólera em 1855-56, que ceifou milhares de vítimas na cidade e no Recôncavo. Morreram 10 mil só em Salvador. Foi uma peste terrível. A partir daí, a proximidade com os mortos passou a ser repugnante porque, devido ao medo da contaminação, deixava de ser benéfica para ser maligna”, afirma Reis.
Existências apagadas em mais de 3 metros de sedimento
Para saber mais sobre a descoberta do Cemitério dos Africanos, me encontrei com Jeanne Dias e Railson Cotias no laboratório de um prédio comercial localizado no bairro do Comércio, na capital baiana, a 3,9 quilômetros de distância da Pupileira.
Por acaso, o Comércio abriga o segundo maior porto marítimo que recebia pessoas africanas escravizadas no Brasil. E é nessa região que Jeanne e uma equipe multidisciplinar analisa os mais de 150 vestígios encontrados no que pode ser o maior cemitério de escravizados da América Latina.
Dentes, ossos e até uma miçanga de um fio de contas foram localizados a pouco mais de três metros de profundidade em uma das áreas de estacionamento da Pupileira. Um crânio também foi encontrado, mas não foi exumado pois estava dentro das limitações da pesquisa.
O trabalho de escavação durou dez dias e resultou na descoberta de vestígios humanos e materiais domésticos, como louças e pedras.
O primeiro dia foi em 14 de maio, data simbólica para a população negra. Houve um ato interreligioso com lideranças de diferentes manifestações religiosas, além de representantes institucionais e da sociedade civil. Mas a chuva intensa que caiu em Salvador no dia impediu que a equipe desse continuidade ao trabalho.

Nos dois dias seguintes, o mesmo cenário: chuva, poças de água e lama atrapalharam a busca por materiais. Era o quarto dia quando a equipe então migra para uma segunda área, onde consegue iniciar uma nova escavação.
Os primeiros pedaços de ossos e dentes humanos foram identificados no quinto dia de escavações. O primeiro dente foi encontrado a 2,90 metros de profundidade. Ao todo, foram resgatados 17 dentes.
“Quando aparece esse dente, a gente fala ‘opa, estamos no lugar certo’. Descemos mais e localizamos mais essa quantidade de vestígios que são provas inequívocas que tem pelo menos 2 indivíduos enterrados”, relata Jeanne.
Outra coincidência conectou tanto o início da pesquisa quanto o resultado. O dia e mês em que encontraram o primeiro dente, em 19 de maio deste ano, foi a mesma data em que a pesquisadora Silvana Olivieri encontrou o mapa do cemitério.
“Alguns vêm como coincidência. Nós vemos como confirmação do que precisava ser feito”, avalia Olivieri.

Escavações no Cemitério dos Africanos, em Salvador | Foto: Victória Nasck 
Escavações no Cemitério dos Africanos, em Salvador | Foto: Victória Nasck 
Escavações no Cemitério dos Africanos, em Salvador | Foto: Victória Nasck 
Escavações no Cemitério dos Africanos, em Salvador | Foto: Victória Nasck 
Escavações no Cemitério dos Africanos, em Salvador | Foto: Victória Nasck 
Escavações no Cemitério dos Africanos, em Salvador | Foto: Victória Nasck 
Escavações no Cemitério dos Africanos, em Salvador | Foto: Victória Nasck 
Escavações no Cemitério dos Africanos, em Salvador | Foto: Victória Nasck 
Escavações no Cemitério dos Africanos, em Salvador | Foto: Victória Nasck
Expansão da pesquisa pode ajudar a identificar os corpos
A possibilidade de ter corpos de revoltosos enterrados na Pupileira se dá a partir do cruzamento de documentações históricas com a análise detalhada para definir o período histórico dos materiais encontrados e a possível identificação das pessoas.
De acordo com Olivieri, a estimativa de 100 mil corpos é uma possibilidade, mas o número pode ser maior. Dentre as referências que baseiam a pesquisa está o livro de Banguê, documentação contábil de autoria da Santa Casa. O livro registrava o sepultamento pago de pessoas escravizadas entre os séculos XVIII e XIX, estimado em aproximadamente 80 mil corpos.
Olivieri também aponta que muitos enterros não foram registrados e outros eram feitos por caridade, o que leva a um número mais expressivo do que 100 mil.
“A gente não pode cravar isso de forma alguma. A gente trabalha sempre com muita cautela e a partir dessa documentação da Santa Casa, de estudos historiográficos, do tempo que funcionou o cemitério para a gente chegar a essa estimativa inicial de 80 a 100 mil”, explica a pesquisadora.
Dos territórios registrados pelo IPHAN como sítios arqueológicos que abrigam cemitérios no Brasil, o achado em Salvador pode ser o maior do país e da América Latina.
De acordo com o IPHAN, até o momento, não há registro encontrado no continente americano de um cemitério de pessoas escravizadas com números superiores.
“Cemitérios de grandes dimensões como o dos Pretos Novos, no Rio de Janeiro, ou o cemitério de escravizados de Nova York provavelmente chegaram a alguns milhares de indivíduos, mas nenhum deles funcionou durante tanto tempo quanto o cemitério do Campo da Pólvora”, diz a nota do IPHAN enviada à reportagem.
Segundo a prefeitura do Rio de Janeiro, o cemitério dos Pretos Novos é considerado o maior das Américas levando em consideração o número de pessoas escravizadas. Estima-se que tenham sido enterradas de 20 a 30 mil pessoas, embora nos registros oficiais os números sejam menores.
Mestre em Arqueologia e historiador, Railson Cotias explica que o processo de descoberta genética parte de exames dentários, amostragem de DNA, entre outros procedimentos que exigem um estudo mais complexo e aprofundado.
“Tudo isso é feito dentro de uma função muito ética porque exige muita responsabilidade da gente na hora de definir essas informações. É um trabalho de grupo de grande fôlego, que exige realmente uma tarefa multidisciplinar”, comenta Cotias.
Dentre as recomendações enviadas às autoridades responsáveis, a arqueóloga Jeanne Dias cita a possibilidade de ampliar a pesquisa como forma de garantir o direito à preservação da memória coletiva e social.
“Considerando que as famílias negras foram desarticuladas durante todo o processo de escravização. A gente pode estar diante de possibilidades de voltar a unir essas famílias”, afirma.

Para além das amostras da pesquisa, os especialistas envolvidos no processo apontam barreiras impostas pela Santa Casa de Misericórdia da Bahia para a realização das escavações.
Segundo Silvana Olivieri, documentos produzidos pela própria instituição, como o livro de Benguê e a escritura do imóvel, já comprovavam a existência do cemitério. Ainda assim nenhuma ação de reparação e preservação tinha sido proposta pela Santa Casa até a intervenção do IPHAN.
“Eu entendo que deveria ter sido um gesto da Santa Casa, de forma espontânea, ter interditado o estacionamento. Isso não aconteceu”, avalia Olivieri.
A reportagem buscou contato com a Santa Casa da Bahia e, por telefone, a instituição respondeu que não vai se posicionar.
Pesquisadores defendem criação de um memorial
No laboratório onde estão os mais de 150 materiais, os arqueólogos Jeanne Dias e Railson Cotias me mostram as caixas onde os fragmentos estão abrigados provisoriamente. Todos eles ficam ensacados e são numerados para facilitar a identificação.
A previsão é que os materiais sejam transferidos para a estrutura da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) a pedido do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) do estado.

Em outubro deste ano, o IPHAN determinou a interdição da área de estacionamento da Pupileira como forma de preservar o espaço para continuação das pesquisas e futuras deliberações sobre a criação de um memorial.
No dia 06 de novembro, a Santa Casa solicitou esclarecimentos ao IPHAN sobre a área do estacionamento que deve ser interditada.
No ofício, a instituição aponta que não houve delimitação da área total a ser interditada: se a área correspondente às quatro vagas de estacionamento onde foram encontrados achados arqueológicos ou toda a área do estacionamento, incluindo as áreas onde não houve identificação de materiais.
A instituição também informou que manifesta interesse em promover parcerias públicas para a contextualização da pesquisa. Segundo a Santa Casa, “os achados arqueológicos ainda são pontuais”.
“Assim, coloca-se à disposição para ações cooperativas com o IPHAN, notadamente na busca de parcerias com instituições públicas de pesquisa que detenham profissionais especializados em Arqueologia, História e Cartografia Histórica, para a melhor delimitação possível do contexto arqueológico”, cita um trecho do ofício enviado ao IPHAN.
Com o possível reconhecimento do Cemitério dos Africanos, Jeanne Dias espera que seja feita uma escuta coletiva para que a sociedade possa recontar um capítulo da história da população negra que foi apagada.
“A gente só vai conseguir trazer dignidade para aqueles que estão lá no momento em que a gente fizer um diálogo franco com a própria sociedade em que a gente pense que, finalmente, eles possam ter seus nomes escritos na história, porque, até então, não foi o que ocorreu”, finaliza.



