Um funcionário africano que atuava como zelador havia seis meses no Colégio Objetivo, em Anápolis, município do interior de Goiás, denunciou ter sido alvo de injúria racial após encontrar um bilhete com ofensas sobre sua mochila ao fim do expediente. O crime ocorreu no dia 25 de novembro e é investigado pela polícia.
O bilhete, fotografado pelo diretor e depois descartado a pedido da vítima, dizia: “Não sei você, mas eu tenho nojo da sua raça. Preto brasileiro é diferente, vai embora africano de merda.”
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A vítima relatou que nunca havia passado por situação semelhante no Brasil. “O diretor só descartou o bilhete porque eu pedi. Na hora eu fiquei tão assustado e sem reação que entreguei o bilhete pra ele”, disse em relato à Alma Preta. “Quando o diretor pegou e leu o bilhete, falou: ‘isso não está acontecendo’. Assim como eu, ele ficou muito assustado”, acrescentou.

Irmão da vítima relata clima de ciúmes e acusações sem prova no ambiente de trabalho
O irmão da vítima afirmou à reportagem que, ao longo de seis meses, o trabalhador passou por três aumentos salariais e ganhou destaque na rotina da escola. O supervisor do Colégio Objetivo teria levado o funcionário para atividades fora do trabalho e o convidado para almoçar em sua casa, em Anápolis. “A gente acredita que isso gerou ciúmes em alguns funcionários”, disse.
Segundo o familiar, o clima interno mudou após comentários de funcionários. A vítima foi acusada informalmente de estar envolvida no desaparecimento de dinheiro da bolsa de uma funcionária e também de suposta sabotagem de comida com sabão. Nenhuma das acusações foi acompanhada de provas.
“O ambiente ficou pesado. Ele não entendia por quê. O bilhete foi a gota d’água”, afirmou o irmão. Ele relatou ainda que uma funcionária teria sido identificada internamente como suspeita. “Eles sabem quem fez”, disse.
A direção da instituição de ensino, porém, disse que não há provas que permitam afirmar a autoria do crime à polícia.
Gestor do Colégio Objetivo repudia o caso
O sócio-proprietário da escola, Ivan de Abreu Júnior, publicou um vídeo no perfil da instituição de ensino em rede social repudiando o ocorrido. À reportagem, ele afirmou ter fotografado o bilhete e incentivado a vítima a registrar a ocorrência.
Ivan contou que a vítima frequentava sua casa e era convidada para eventos pessoais, reforçando que a relação entre ele e o funcionário era de amizade. “Ele já esteve na minha casa, já andou no meu carro, já foi convidado para o meu casamento. Minha preocupação sempre foi com o ser humano, não com a reputação da escola”, declarou.
Ele também relatou que há pontos cegos nas câmeras da escola, o que dificulta identificar quem teve acesso ao local onde o bilhete foi deixado. “Estamos analisando as imagens, mas existem pontos cegos que atrapalham descobrir quem teve acesso ao depósito.”
Ainda segundo o proprietário, a escola possui protocolo interno de combate ao racismo e à discriminação, sem detalhar como funciona.
“O colégio repudia todo tipo de crime e preconceito. O caso não foi deixado para trás. Estamos trabalhando dentro da lei e sempre disponíveis para esclarecer qualquer dúvida”, afirmou Ivan.
O crime foi tipificado no boletim de ocorrência como injúria racial, enquadrada como infração no artigo 140 do Código Penal desde 1997, mas, equiparada ao crime de racismo, em 2023, pela Lei nº 14.532. Caso julgado culpado, o autor do ato criminoso pode ser condenado a uma pena de reclusão de dois a cinco anos e multa.