PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Fiocruz: juventude indígena e negra enfrenta maior risco de saúde mental e falta de acesso ao cuidado

Informe da Fiocruz mostra que jovens indígenas têm as maiores taxas de mortes por causas associadas à saúde mental, enquanto jovens negros seguem sob impacto desigual de internações, violências e barreiras de acesso ao cuidado
Castelo Mourisco, sede da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Manguinhos, no Rio de Janeiro.

Castelo Mourisco, sede da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Manguinhos, no Rio de Janeiro.

— Fernando Frazão/Agência Brasil

9 de dezembro de 2025

Uma nova pesquisa da Fiocruz realizada de 2022 a 2024 revela um cenário de desigualdades enfrentado pelas juventudes indígenas e negras em relação à saúde mental. Enquanto jovens indígenas enfrentam alta taxa de mortes relacionadas à saúde mental, jovens negros têm acesso dificultado ao cuidado e atendimento psíquico, sofrendo ainda assim alto número de internações.

O estudo Informe II: Saúde Mental, produzido pelos pesquisadores da Fiocruz, mostra que jovens indígenas registram a maior taxa do país de mortes relacionadas à saúde mental (suicídio) alcançando 62,7 casos por cem mil habitantes, um patamar muito acima da média nacional. Entre homens indígenas de 20 a 24 anos, a taxa chega a 107,9 por cem mil habitantes, tornando esse grupo o mais atingido entre todos os recortes populacionais analisados pelo estudo.

O documento aponta que, entre mulheres indígenas de 15 a 19 anos, a taxa também supera a média das demais populações jovens, chegando a 46,2 por cem mil habitantes. Os dados revelam as vulnerabilidades que atravessam territórios indígenas e contribuem para os números: isolamento de serviços, barreiras culturais de atendimento e impactos de conflitos territoriais, violências e ausência de políticas contínuas de proteção.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

Jovens negros enfrentam maior exposição a internações, violências e obstáculos de acesso

Embora o informe apresente dados consolidados para toda a juventude, ele evidencia desigualdades associadas a raça e gênero. Jovens negros estão mais expostos às internações relacionadas à saúde mental, às violências e aos determinantes sociais que limitam o acesso precoce ao cuidado.

O documento mostra que apenas 11,3% dos atendimentos de jovens na Atenção Primária à Saúde (APS) são para questões de saúde mental, proporção inferior à observada na população em geral (24,3%). A baixa procura expressa uma desigualdade histórica: jovens negros costumam ter maior dificuldade de acesso ou encontram serviços pouco preparados para atender às suas demandas específicas, que incluem racismo, precarização do trabalho e violências no território.

No total, a taxa de internações da juventude alcança 569,5 casos por cem mil habitantes, número que cresce para 624,8 entre jovens de 20 a 24 anos e 719,7 entre 25 e 29 anos. Jovens negros aparecem com maior peso nesses registros, reflexo da intersecção entre desigualdade racial, vulnerabilidade econômica e ausência de políticas efetivas de prevenção, aponta o relatório.

Homens jovens são maioria nas internações, com impacto maior entre negros

O informe aponta que homens jovens representam 61,3% das internações relacionadas à saúde mental, com taxa de 708,4 internações por cem mil habitantes. Esse recorte inclui proporção mais elevada de jovens negros, que vivenciam concentração de violências, trabalho precário e padrões sociais que dificultam a busca por cuidado.

O abuso de substâncias psicoativas é a principal causa das internações de homens jovens. Em 38,4% dos casos, o motivo é o uso de drogas, sendo que 68,7% desses episódios envolvem múltiplas substâncias. Como indicam pesquisadores da Fiocruz, elementos como pressão social por autossuficiência, desigualdades econômicas e expectativas de desempenho masculino funcionam como gatilhos para o adoecimento.

Falhas de acesso e políticas insuficientes ampliam riscos na juventude

Os pesquisadores destacam que as taxas elevadas entre a população jovem não refletem apenas comportamentos individuais, mas falhas estruturais. Violências, mortes evitáveis, sofrimento psíquico e uso problemático de substâncias aparecem com mais intensidade entre jovens indígenas e negros, indicando sistemas de cuidado que não respondem às necessidades desses grupos.

Para o coordenador da Agenda Jovem Fiocruz, André Sobrinho, a juventude permanece subatendida. 

“Os jovens são aqueles que mais sofrem com saúde mental, violências e acidentes de trabalho, mas são também os que menos procuram e encontram cuidados em saúde, menos param de trabalhar quando estão doentes”, pondera o coordenador em nota da Fiocruz. “Muitas vezes os jovens, a sociedade e o Estado agem como se eles tivessem que aguentar qualquer coisa exatamente por serem jovens.”

O informe defende o fortalecimento da vigilância em saúde mental e a criação de políticas com recortes étnico-raciais e de gênero. “Cuidar da saúde mental da juventude é também cuidar do presente e do futuro do país”, conclui o documento.

O levantamento foi realizado pela Agenda Jovem Fiocruz e pela Escola Técnica de Saúde Joaquim Venâncio, com análise dos dados do Sistema Único de Saúde (SUS) de 2022 a 2024.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano