Os Estados Unidos ampliaram o envio de material bélico e o compartilhamento de inteligência com a Nigéria como parte de uma estratégia mais ampla de cooperação com forças armadas africanas no enfrentamento de grupos ligados ao Estado Islâmico.
A informação da agência francesa de notícias AFP foi confirmada em entrevista do tenente-general John Brennan, vice-comandante do Comando dos EUA para a África (Africom).
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A intensificação da parceria ocorre após pressões diplomáticas de Washington sobre o governo nigeriano em relação à violência jihadista no país e reflete uma mudança de postura do Pentágono, que passou a adotar ações mais diretas contra alvos associados ao Estado Islâmico no continente africano.
Brennan afirmou à AFP, sob a administração do presidente Donald Trump, as forças americanas se tornaram “muito mais agressivas” e trabalham com parceiros para atacar as ameaças, “principalmente o ISIS”.
“Da Somália à Nigéria, o conjunto de problemas está conectado. Então, estamos tentando desmontá-lo e depois fornecer aos parceiros a informação de que precisam”, disse o general em entrevista à agência.
A ampliação da cooperação foi discutida durante a primeira reunião do Grupo de Trabalho Conjunto EUA-Nigéria, realizada em Abuja na semana anterior à entrevista. O encontro ocorreu cerca de um mês após os EUA anunciarem ataques aéreos no Natal contra alvos ligados ao Estado Islâmico no noroeste da Nigéria.
De acordo com Brennan, o apoio norte-americano deverá se concentrar no compartilhamento de inteligência para auxiliar nas operações aéreas nigerianas tanto no estado de Sokoto, no noroeste, quanto no nordeste do país. Nesta região, uma insurgência jihadista liderada pelo Boko Haram e pela facção dissidente Islamic State West Africa Province (ISWAP) se mantém desde 2009.
Tensões diplomáticas e discurso religioso
Apesar do interesse militar mútuo, a cooperação ocorre sob a sombra de uma pressão diplomática de Washington. O presidente Trump alega que há matanças em massa de cristãos na Nigéria, narrativa rejeitada pelo governo nigeriano e por analistas independentes, que apontam para conflitos complexos e sobrepostos no país.
A política sensível esteve em evidência na reunião em Abuja. Allison Hooker, a número três do Departamento de Estado dos EUA, pressionou o governo nigeriano “a proteger os cristãos” em um discurso que não mencionou as vítimas muçulmanas dos grupos armados.
A Nigéria, o país mais populoso da África, divide-se de forma quase igual entre um norte majoritariamente muçulmano e um sul majoritariamente cristão. Brennan afirmou à AFP que a inteligência dos EUA não se limitará a proteger os cristãos.
Sahel e cooperação informal com governos militares
Questionado sobre a relação com os governos militares do Sahel (Mali, Níger e Burkina Faso), que romperam com os vizinhos da África Ocidental e afastaram o Ocidente, Brennan afirmou que os EUA “ainda colaboram” com eles. A cooperação de segurança foi reduzida após os levantes que derrubaram governos civis nos três países entre 2020 e 2023.
“Nós partilhamos realmente informações com alguns deles para atacar alvos terroristas-chave”, disse o general. “Ainda conversamos com os nossos parceiros militares em todos os Estados do Sahel, embora não seja oficial.”
Brennan também afirmou que os EUA não pretendem substituir as suas bases no Níger, após a expulsão das suas tropas pelo governo militar no poder.
Um contexto da Nigéria
A Nigéria é o país mais populoso da África, com mais de 220 milhões de habitantes. Localizada na África Ocidental, faz fronteira com Benin, Níger, Chade e Camarões. O país conquistou a independência do Reino Unido em 1960.
A sociedade é diversa, com mais de 250 grupos étnicos; os maiores são os Hausa, os Yoruba e os Igbo. O inglês é a língua oficial, mas centenas de línguas indígenas são faladas. A população é quase igualmente dividida entre muçulmanos, predominantemente no norte, e cristãos, concentrados no sul e no centro do país.
A Nigéria possui a maior economia da África, baseada principalmente na exportação de petróleo e gás natural, mas enfrenta desigualdades regionais, conflitos armados internos, violência jihadista no nordeste e disputas por terra e recursos em diversas regiões do território.