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Morre aos 106 anos Luiz Ângelo da Silva, o Ogan Bángbàlà, mestre do atabaque e referência do Candomblé no Brasil

Conhecido como o ogan mais antigo em atividade no Brasil, baiano radicado na Baixada Fluminense dedicou mais de nove décadas à preservação dos ritos e da música sacra africana
Mestre Bángbàlà, o Ogan mais antigo do Brasil.

Mestre Bángbàlà, o Ogan mais antigo do Brasil.

— Reprodução/Milana Trindade

16 de fevereiro de 2026

Luiz Ângelo da Silva, o Ogan Bángbàlà, morreu aos 106 anos no domingo (15). A informação foi confirmada por sua esposa, Maria Moreira-Harrungindala, em publicação l nas redes sociais, durante a madrugada desta segunda-feira (16).

 “Hoje o candomblé perdeu uma das figuras mais importantes, o Comendador Ogan Bangbala, o mais velho ogan do Brasil, o mestre dos mestres. Meu coração sangra de tanta dor, vá em paz meu amor, meu orgulho, meu mestre”, escreveu.

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Informações sobre o cortejo final não foram divulgadas. No dia 31 de janeiro, Maria havia compartilhado que Bángbàlà estava internado no Hospital Municipal Salgado Filho, no Rio de Janeiro, “por conta de uma infecção severa de urina, os rins cansados pela idade”, disse na ocasião.

Reconhecido como o ogan mais antigo em atividade no Candomblé brasileiro, Bángbàlà acumulou mais de nove décadas de dedicação à religião de matriz africana. Em 2014, recebeu a Ordem do Mérito Cultural na classe de Comendador, entregue pela então presidenta Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. A honraria reconheceu sua contribuição à percussão e à espiritualidade afro-baiana.

Origem e chegada ao Rio de Janeiro

Luiz Ângelo da Silva nasceu em 21 de junho de 1919, no bairro da Muriçoca, em Salvador. Era filho de Maria Ângela da Costa e Izauro Ferreira da Silva, ashogun de Obaluayê ligado ao babalorixá Emílio do Bispo Alves, conhecido como Pequeno da Muriçoca. O batismo católico ocorreu apenas aos 10 anos, na igreja de Nossa Senhora de Brotas.

Ogan Bángbàlà se declarava neto de Julia Bugan e mantinha vínculo com o Terreiro Língua de Vaca, também chamado de Terreiro da Curva Grande, de nação Ijexá, ativo em Salvador entre o fim do século XIX e meados do século XX. A casa teve papel na formação de práticas religiosas de matriz africana na capital baiana.

A primeira ida ao Rio de Janeiro ocorreu em 1945, a convite do babalorixá Álvaro Pé Grande, para auxiliar em rituais de iniciação. Após breve retorno a Salvador, fixou residência definitiva na capital fluminense, onde viveu inicialmente em Vilar dos Telles, em casa de culto conduzida por Manoel Ciriaco de Jesus, Tata Nlundi ia Mungongo.

Posteriormente, se mudou para Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Na região, conciliou o exercício religioso com atividades profissionais fora dos terreiros. Trabalhou como balconista, em posto de gasolina e em depósito de gás, até se aposentar como funcionário do Hospital Municipal Salgado Filho. 

Rituais fúnebres e transmissão de saberes

Ogan Bángbàlà viajou por diversas regiões do Brasil para a realização de rituais ao lado de lideranças religiosas. Entre elas, Joãozinho da Goméia, também conhecido como Tata Londirá, sacerdote que articulou tradições de origem Bantu, Angola, Nagô e Yorubá em seu candomblé.

Entre os conhecimentos atribuídos a Bángbàlà, se destacou o domínio dos rituais fúnebres do candomblé, conhecidos como Àsèsè ou Axexê. Ele descrevia o ritual como uma recepção fúnebre, realizada ao longo de até vinte e um anos após a morte, com o objetivo de assegurar o retorno do ancestral ao Orun, após a passagem pelo Ayé.

A longevidade era atribuída por ele à relação com os ancestrais e à devoção a Obaluayê. Mesmo após completar um século de vida, manteve cursos de formação para ogans e adeptos do candomblé, além da fabricação de instrumentos musicais e litúrgicos, como atabaques, agbès e xequerês.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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