O julgamento de Arielson da Conceição dos Santos e Marílio dos Santos, acusados pelo assassinato da líder quilombola e ialorixá Mãe Bernadete Pacífico, foi adiado para o dia 13 de abril. A sessão estava marcada para esta terça-feira (24) no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador, mas a defesa dos réus solicitou a transferência após mudança na representação jurídica.
A juíza Gelzi Maria Almeida, titular do 1º Juízo da 1ª Vara do Júri, acolheu o pedido da nova defesa, que alegou tempo insuficiente para análise dos autos do processo desde que assumiu o caso. Os advogados substituíram a Defensoria Pública do Estado da Bahia na representação dos acusados às vésperas da sessão.
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À Alma Preta, o ativista Jurandir Wellington Pacífico, filho de Mãe Bernadete, desabafou que a decisão do adiamento foi “frustrante” e “decepcionante” para a família. A expectativa é que se faça justiça.
Arielson da Conceição dos Santos permanece sob custódia em prisão preventiva. Marílio dos Santos, apontado pelo Ministério Público da Bahia como mandante do crime e chefe do tráfico de drogas na região metropolitana de Salvador, segue foragido. A legislação brasileira permite o julgamento de réu foragido quando há defesa técnica constituída, o que ocorre no caso.
Os dois respondem por homicídio qualificado com quatro qualificadoras: motivo torpe, meio cruel, impossibilidade de defesa da vítima e uso de arma de fogo de uso restrito. Arielson também responde pelo crime de roubo.
Além dos réus que irão a julgamento em abril, outras três pessoas foram denunciadas pelo assassinato. Sérgio Ferreira de Jesus, Josevan Dionísio dos Santos e Ydney Carlos dos Santos de Jesus serão julgados em datas posteriores.
Josevan Dionísio dos Santos, apontado como um dos executores, foi preso em setembro de 2025 após fazer a companheira e dois filhos reféns em Simões Filho. Antes dele, outros quatro suspeitos já haviam sido localizados pela polícia.
Marílio dos Santos foi incluído no “Baralho do Crime” da Secretaria de Segurança Pública da Bahia em abril de 2024, catálogo que reúne informações sobre os foragidos mais perigosos do estado.
O crime
Maria Bernadete Pacífico, a Mãe Bernadete, foi assassinada na noite de 17 de agosto de 2023, dentro da própria casa no Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. Ela foi atingida por 25 disparos de arma de fogo.
Três netos da vítima, de 12, 13 e 18 anos, estavam na residência no momento do ataque. Os criminosos isolaram as crianças em um quarto antes de executar a líder quilombola. Os suspeitos chegaram e saíram do local de motocicleta, levando os celulares da vítima e das testemunhas.
Um dos netos utilizou o aplicativo de mensagens aberto no computador para pedir socorro a moradores da comunidade. Depois disso, deixou os familiares adolescentes com um vizinho e foi até o terreiro de Candomblé para chamar a polícia.
A Polícia Civil da Bahia concluiu que chefes do tráfico de drogas ordenaram o assassinato. Segundo a delegada Andréa Ribeiro, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, a vítima exercia liderança na comunidade e confrontava interesses do tráfico na região.
De acordo com o Ministério Público da Bahia, o crime ocorreu em razão da atuação de Mãe Bernadete contra o tráfico de drogas. O órgão afirma que testemunhos, áudios de telefones apreendidos, interceptações telefônicas e exames periciais sustentam a acusação. A perícia indicou que 25 disparos partiram de duas armas analisadas.
Trajetória e ameaças
Mãe Bernadete tinha 72 anos, integrava o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do Governo Federal e exercia função na Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos. A sede do Quilombo Pitanga dos Palmares possuía câmeras de segurança, mas três dos sete equipamentos não funcionavam no momento do crime por falta de recursos.
Familiares relataram que ela sofria ameaças havia pelo menos dois meses. O neto Wellington Gabriel de Jesus dos Santos, que estava na residência na noite do ataque, afirmou à polícia que a avó passou a demonstrar medo após o assassinato de Binho do Quilombo, em 2017.