Brasília (DF) — Racismo, pobreza e desigualdade social moldam o desenvolvimento de crianças brasileiras antes mesmo da alfabetização formal. Dados inéditos do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância (IELS), coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, revelam que crianças negras e beneficiárias do Bolsa Família enfrentam maiores barreiras de aprendizagem ainda na pré-escola.
Os resultados foram apresentados e debatidos durante o seminário “Aprendizagem e bem-estar na Primeira Infância: evidências para as políticas públicas”, realizado na terça-feira (12), no auditório da Confederação Nacional da Indústria, em Brasília.
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O debate reuniu pesquisadores, representantes do governo federal e organizações da sociedade civil em torno dos impactos das desigualdades nos primeiros anos de vida e dos desafios para a construção de políticas públicas voltadas à infância. O Brasil foi o único país participante da pesquisa a incluir recorte racial nos dados, aprofundando a análise sobre os impactos do racismo na primeira infância.
Realizado nos estados do Ceará, Pará e São Paulo, o estudo passou por cinco etapas entre 2022 e 2026, incluindo adesão, adaptação cultural, aprovação ética, pré-testes, coleta de dados e análise final. Ao todo, participaram 2.598 crianças matriculadas na pré-escola, distribuídas em 210 escolas públicas e privadas.
A metodologia buscou garantir uma experiência acolhedora para as crianças. Em vez de provas tradicionais, os pesquisadores utilizaram tablets com atividades lúdicas e adaptativas, ajustadas ao nível de resposta de cada participante.
Além disso, cada criança realizou quatro atividades curtas, de até 15 minutos. Pais, responsáveis e professores também responderam questionários sobre desenvolvimento, rotina e ambiente familiar.
A pesquisa revelou que crianças pretas, pobres e beneficiárias do Bolsa Família apresentam os menores índices em praticamente todos os domínios avaliados, especialmente em numeracia emergente e funções executivas.
A numeracia emergente mede habilidades matemáticas iniciais, como reconhecer números, identificar sequências e comparar quantidades. Já a literacia emergente diz respeito às competências relacionadas à linguagem, leitura e compreensão textual ainda na pré-escola.
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O peso das desigualdades acumuladas
Ao apresentar os resultados na mesa “Desigualdades no início da vida: o que mostram os dados do estudo”, o pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do IELS no Brasil, Tiago Bartholo, afirmou que o principal impacto do levantamento está justamente na constatação de que as desigualdades não aparecem isoladamente, isto é, elas se acumulam.
Segundo Bartholo, pobreza, raça e gênero aprofundam as desigualdades na aprendizagem. Meninos pretos, pardos e indígenas dos grupos mais vulneráveis apresentaram diferenças de até 71 pontos em numeracia em relação a meninas brancas de classes mais altas. “As desigualdades já estão cristalizadas aos cinco anos de idade”, resumiu.
O estudo também apontou que diferenças socioeconômicas impactam todas as dimensões avaliadas, sobretudo memória de trabalho e numeracia. Na comparação entre crianças de nível socioeconômico alto e baixo, a diferença chegou a 55 pontos em numeracia emergente.
Matemática ainda é o principal desafio da educação infantil
Os dados apresentados pela pesquisa mostram que o Brasil aparece próximo da média internacional em literacia emergente, com 502 pontos, mas registra desempenho abaixo da média em numeracia, com 456 pontos — 44 pontos abaixo da referência global.
Para especialistas, os resultados indicam que políticas públicas voltadas à alfabetização tiveram impacto positivo nos últimos anos, mas o mesmo movimento ainda não aconteceu em relação à matemática na educação infantil.
A diretora do Instituto Reúna, Kátia Smole, durante a mesa “Como está a aprendizagem e o bem-estar de crianças de 5 anos no Brasil?”, afirmou que o país construiu uma cultura educacional que prioriza a alfabetização e deixa a aprendizagem matemática em segundo plano desde os primeiros anos escolares.
Segundo Smole, existe uma falsa ideia de que trabalhar matemática na educação infantil poderia representar “escolarização precoce”, o que acabou afastando a numeracia do centro das práticas pedagógicas.
“Passamos uma mensagem muito clara para as professoras: priorizem a literacia. E elas estão fazendo exatamente isso”, afirmou.
“O bebê negro é colocado no chão”, diz secretária do MEC
As discussões também evidenciaram como o racismo estrutura o desenvolvimento infantil no país. No mesmo debate, a secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Kátia Schweickardt, destacou que o Brasil ainda carrega marcas profundas da escravização e do colonialismo, o que impacta diretamente as políticas educacionais.
Ao defender que qualidade e equidade não podem ser tratadas como conceitos separados, ela chamou atenção para práticas racistas ainda presentes no cotidiano escolar e das creches.
Segundo a secretária, crianças negras percebem desde muito cedo diferenças no acolhimento, no cuidado e na forma como são vistas dentro dos espaços educativos. Para ela, essas experiências subjetivas também produzem impactos concretos na aprendizagem.
“O bebê negro é colocado no chão. O bebê branco é acolhido no colo, elogiado, chamado de ‘bonitinho’. Ainda não conseguimos medir isso adequadamente em indicadores, mas sabemos o quanto isso impacta o desenvolvimento”, disse.

Famílias leem pouco e telas avançam sobre a infância
Os dados apresentados no seminário também revelaram desafios no ambiente familiar. Mais da metade das famílias brasileiras afirmou que lê pouco ou nunca lê para as crianças. Apenas 14% disseram realizar leituras ao menos três vezes por semana, índice abaixo da média internacional de 54%.
A pesquisa ainda mostrou que 50,4% das crianças utilizam dispositivos digitais diariamente em casa. Durante palestra na mesa “Conhecendo o IELS – International Early Learning and Well-being Study”, a vice-diretora de Educação e Habilidades da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Lucia Dellagnelo, afirmou que o uso frequente de telas aparece associado a níveis mais baixos de aprendizagem em literacia, numeracia e funções executivas.
A pesquisadora ponderou, porém, que o estudo não estabelece relação direta de causa e efeito entre os fatores. Outro dado apontado pela pesquisa é que apenas 37% das famílias brasileiras realizam frequentemente atividades ao ar livre com as crianças, percentual também abaixo da média internacional.
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Coalizão cobra políticas públicas e ações integradas
Durante a abertura do evento, representantes das organizações responsáveis pela coalizão que viabilizou o estudo defenderam que os resultados precisam ultrapassar o campo acadêmico e influenciar diretamente as políticas públicas.
A superintendente do Itaú Social, Patricia Mota Guedes, afirmou que os dados não podem servir apenas como diagnóstico, mas como instrumento para enfrentar desigualdades históricas.
Guedes ressaltou que o debate sobre educação infantil não pode ser reduzido a uma “sala de espera” para o ensino fundamental, mas precisa ser compreendido como etapa central da garantia de direitos.
Já Dellagnelo, afirmou que o Brasil tem experiências capazes de inspirar outros países, especialmente pela articulação entre sociedade civil, fundações e poder público. A pesquisadora destacou que estudos internacionais mostram que desigualdades identificadas na primeira infância tendem a crescer ao longo da vida, tornando ainda mais urgente a adoção de políticas integradas.
“Quando o cuidado vai chegar à vida das crianças?”
No debate sobre políticas públicas, o subsecretário da Política Nacional Integrada da Primeira Infância do MEC, Alexsandro Santos, defendeu que o enfrentamento das desigualdades exige ações articuladas entre educação, saúde e assistência social.
Segundo o subsecretário, o país ainda opera com estruturas fragmentadas, incapazes de responder às múltiplas vulnerabilidades que atravessam a vida das crianças brasileiras.
Para o gestor, há desigualdades produzidas fora da escola — como pobreza e racismo estrutural —, mas também dentro dela, por meio de práticas pedagógicas, currículos e mecanismos de exclusão.
“O Estado brasileiro prometeu cuidar dessas crianças na Constituição, no ECA e no Marco Legal da Primeira Infância. A pergunta é: quando isso vai chegar, de fato, à vida delas?”, questionou.
A secretária nacional de Renda e Cidadania do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Eliane Aquino Custódio, reforçou que milhões de crianças beneficiárias do Bolsa Família seguem fora das creches, sobretudo em territórios periféricos e vulnerabilizados.
Custódio afirmou que o acesso à educação infantil ainda depende da decisão política de prefeitos e governadores e criticou a ausência de articulação entre as diferentes áreas do poder público. “Não adianta termos os melhores estudos do mundo se as políticas públicas não chegarem na ponta”, pontuou.
O jornalista viajou a Brasília a convite da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.