A obesidade superou pela primeira vez a desnutrição entre crianças e adolescentes de cinco a 19 anos no mundo, segundo relatório divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) nesta terça-feira (9). A agência da Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 2025 marca um ponto de virada, com 9,4% dos jovens nessa faixa etária vivendo com obesidade contra 9,2% com peso insuficiente.
Isso equivale a 188 milhões de crianças e adolescentes em situação de obesidade, caracterizada como uma doença crônica ligada a distúrbios metabólicos, como diabetes e alguns tipos de câncer, além de problemas de saúde mental.
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Entre 2000 e 2022, a prevalência de baixo peso entre jovens caiu de 13% para 10%. No mesmo período, os casos de sobrepeso dobraram, passando de 194 milhões para 391 milhões. Em 2022, 163 milhões de jovens de cinco a 19 anos — ou 8% da população dessa faixa etária — já viviam com obesidade, contra 3% em 2000.
O Unicef atribui o fenômeno ao avanço da indústria de alimentos ultraprocessados, descrita como promotora de um “ambiente tóxico” por meio de práticas comerciais agressivas. As crianças, segundo a agência, são expostas diariamente a publicidade de produtos pouco saudáveis, inclusive nas escolas, onde encontram bebidas adoçadas e lanches pobres em nutrientes.
Desigualdades e duplo fardo
Embora a prevalência do sobrepeso tenha sido historicamente maior em países desenvolvidos, a diferença diminuiu nas últimas duas décadas. Hoje, taxas elevadas de obesidade são registradas em nações como Chile (27%) e Estados Unidos (21%), mas também em pequenas ilhas do Pacífico, como Niue (38%), Ilhas Cook (37%) e Nauru (33%), onde importações substituíram alimentos tradicionais.
Em algumas regiões, especialmente em contextos de crise humanitária, a desnutrição convive com a obesidade. O relatório cita doações de grandes empresas de alimentos ultraprocessados em áreas de fome como forma de autopromoção, resultando em crianças que só têm acesso a produtos prejudiciais à saúde.
O Unicef rejeita a ideia de que a atividade física isolada seja capaz de neutralizar os efeitos da má alimentação. Para a diretora-geral Catherine Russell, há “necessidade urgente” de políticas que garantam às famílias acesso a alimentos frescos e nutritivos.
A agência recomenda que os governos adotem medidas vinculantes, como restrições à publicidade de produtos ultraprocessados, taxação de bebidas açucaradas, rotulagem mais clara e incentivos para reorientar o sistema agroalimentar em direção a frutas, verduras e proteínas frescas.