Entre o colo e a realidade: como as mães transformam o cuidado em proteção contra o racismo

Entre o cuidado cotidiano e conversas difíceis, mães constroem caminhos de proteção para que seus filhos cresçam reconhecendo a própria identidade, mesmo em um país que insiste em negá-la
Uma mulher segurando um bebê.

Uma mulher segurando um bebê.

— Reprodução/Freepik

10 de maio de 2026

“Ser mãe, para mim, sendo uma mulher negra, além de ser extremamente prazeroso, é um ato político e de amor profundo, também com dores. É cuidar, proteger e também preparar os meus filhos”, relata a advogada criminalista, candomblecista e defensora dos direitos humanos de Maceió (AL), Sandra Gomes, 43 anos.

Mãe de Akin Gustavo, de 5 anos, além de Ana Gabrielle, 24, Pedro Henrique, 19, ela aprendeu que criar filhos negros exige mais do que afeto, é um trabalho contínuo. “Eu sempre exalto a beleza e a inteligência, cuido para que eles se vejam de forma positiva no mundo”, afirma.

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Desde os primeiros anos de vida, muitas crianças negras enfrentam os impactos do racismo em ambientes que deveriam protegê-las e acolhê-las. Esses espaços incluem escolas, bairros onde vivem, praças, igrejas, centros comunitários, locais de lazer e até mesmo os próprios lares e vizinhanças.

É justamente na primeira infância — dos zero aos seis anos — que esse contato precoce com a discriminação ganha um peso ainda maior. Nessa fase, a criança começa a formar sua autoimagem, desenvolver vínculos e construir as primeiras percepções sobre pertencimento. Quando o racismo atravessa esse processo, ele não apenas interfere na forma como a criança se enxerga, mas também na maneira como entende o seu lugar no mundo.

Essa exposição precoce a uma violência tão cruel não apenas fere a autoestima e a segurança emocional como também deixa marcas profundas na saúde mental, comprometendo o pleno desenvolvimento na fase crucial para a formação de quem elas podem se tornar.

Um estudo realizado pelo Center on the Developing Child da Universidade de Harvard também esclarece como o racismo afeta profundamente o desenvolvimento infantil, contribuindo para o aumento do nível de estresse, fator que pode levar a um maior risco de doenças crônicas na vida adulta.

De acordo com a pesquisa, a exposição constante à discriminação racial e ao racismo estrutural ativa a resposta de estresse do corpo de forma prolongada, causando danos ao cérebro e a outros sistemas biológicos em desenvolvimento.

Esse desgaste pode ter consequências duradouras, incluindo problemas crônicos de saúde, dificuldades de aprendizado, alterações comportamentais e impactos severos na saúde mental e física ao longo da vida.

Com o filho mais novo, ainda na pré-escola, esse cuidado já se impõe no cotidiano, inclusive em situações aparentemente simples. “Já enfrentamos situações como ‘lápis cor da pele’. Eu precisei explicar que não existe uma única cor de pele, que existem vários tons”, conta.

É nesse dia a dia que, segundo ela, se constrói segurança. “É um trabalho contínuo, em todas as idades, para que eles possam crescer e permanecer seguros de quem são e conscientes do valor que têm.”

Leia mais: Marco Legal da Primeira Infância completa 10 anos sem garantir equidade a crianças negras

Quando o mundo impõe a conversa

A advogada não lembra de um único momento em que decidiu falar sobre racismo com os filhos. “Eu senti que precisava falar sobre racismo desde muito cedo, quando percebi que o mundo não iria tratar o meu filho com a mesma inocência que ele tinha”, diz.

A conversa foi acontecendo aos poucos. “Não foi uma conversa única; foi um processo. Fui nomeando as coisas aos poucos, com cuidado, mas sem esconder a realidade.”

Na adolescência de um dos filhos, a decisão de deixar o cabelo crescer mudou o tom dessas conversas. “Aquilo que era uma expressão de identidade me acendeu um alerta”, afirma. “Eu comecei a me preocupar com a forma como as pessoas iriam enxergá-lo e até com o risco de ser alvo de perfilamento racial.”

A partir dali, Gomes passou a orientar com mais clareza. “Foi aí que as conversas ganharam mais profundidade, e eu comecei a tentar instruí-lo sobre os cuidados que ele precisaria ter fora de casa.”

Ainda assim, há um limite que Sandra tenta preservar. “Eu o protejo sem tentar antecipar dores que ele ainda não precisa sentir. Falo o necessário para que ele esteja preparado, mas preservo o direito dele de ser criança, de brincar, de ser leve.” Nem sempre dá certo. “É um processo constante, às vezes eu consigo, às vezes não.”

“Eu desejo que meus filhos cresçam seguros, conscientes do valor que têm, com dignidade, sendo pessoas bem-sucedidas”, diz. “Eu tento plantar autoestima, consciência, proteção e amor, porque sei que isso vai sustentá-los quando eu não puder estar por perto”, completa. 

A mãe Sandra Gomes com o filho, Akin, de cinco anos. (Créditos: Acervo Pessoal)

O cuidado que protege e o peso que fica

Para o psicólogo, professor e pesquisador das relações étnico-raciais e do racismo na infância, Ueliton Moreira, doutor pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), o que aparece na fala de Sandra tem nome, isto é, a maternidade negra.

“O racismo produz uma vivência específica de maternidade para as mães de crianças negras, marcada por desafios que vão além do vínculo afetivo comum entre qualquer mãe e filho”, defende. 

Segundo o especialista, desde a primeira infância dos filhos essas mulheres precisam ensinar estratégias de sobrevivência. “Desde como lidar com o racismo na escola até como agir em uma abordagem policial,  buscando evitar ou reduzir o sofrimento dessas crianças.”

De acordo com o especialista, esse cuidado não é escolha, é resposta. “Muitas mães negras desenvolvem um estado constante de vigilância porque sabem que seus filhos podem sofrer discriminação muito cedo, inclusive em espaços que deveriam protegê-los, como creches e escolas”, explica.

Moreira desenvolveu a pesquisa “Como conversar com as crianças negras sobre raça e racismo: experiências de famílias brasileiras”, que venceu, em 2024, na categoria doutorado, o 2º Prêmio Ciência pela Primeira Infância, do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

No estudo, observou que famílias negras falam mais sobre racismo com os filhos do que famílias brancas. “Essas conversas não surgem por acaso. Elas acontecem porque o racismo já atravessa a infância desde muito cedo”, diz.

Leia mais: Falta de diálogo sobre racismo nas famílias brancas reforça desigualdades raciais desde a infância

Ainda de acordo com o professor, quando há acolhimento, esse cuidado vira proteção. “Quando a criança sofre racismo e encontra adultos que validam sua dor, nomeiam aquela violência e reforçam que o problema está no preconceito, e não nela, isso reduz sentimentos de culpa, vergonha e inferioridade”, afirma. 

Mas há um outro lado, menos visível. “Esse estado constante de vigilância também pode gerar desgaste emocional para as mães”, pontua. “Muitas vivem sob a tensão de proteger seus filhos da violência racial.”

Segundo Moreira, o impacto é compartilhado. “Quando uma criança negra sofre um ataque racista, sua mãe também sente essa dor. O que atinge o filho atinge diretamente a mãe.” Ainda assim, esse sofrimento costuma ser silenciado. 

“A sociedade espera que a mãe negra suporte tudo sozinha, reforçando o mito da ‘mulher negra forte’. Isso mascara o sofrimento e impede que essas mulheres recebam apoio”, diz.

Para o pesquisador, cuidar das crianças negras passa, necessariamente, por cuidar de quem cuida. “Cuidar de forma integral dessas crianças também implica cuidar de suas famílias, especialmente de suas mães.”

Entre o que se aprende no colo e o que se enfrenta no mundo, a maternidade negra segue sendo construída no detalhe, na repetição e na urgência. Um trabalho diário que, como diz Sandra, mistura amor, preparo e resistência.

Este conteúdo faz parte de uma parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.

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  • Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Com experiência em revisão, edição, reportagem, primeira infância e jornalismo independente. Tem trabalhos publicados no UOL (TAB, VivaBem, ECOA e UOL Notícias), Agência Pública, Ponte Jornalismo, Estadão e Yahoo.

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