Crianças negras já chegam à pré-escola em desvantagem, apontam especialistas

Estudo inédito da OCDE revela que crianças negras, pobres e beneficiárias do Bolsa Família apresentam os piores indicadores de aprendizagem e bem-estar ainda na pré-escola; Brasil foi o único país participante a incluir recorte racial na pesquisa
Crianças brincam em creche de Sobradinho II, em Brasília, em 14 de abril de 2015.

Crianças brincam em creche de Sobradinho II, em Brasília, em 14 de abril de 2015.

— Pedro Ventura/Agência Brasília

14 de maio de 2026

Brasília (DF) — Racismo, pobreza e desigualdade social moldam o desenvolvimento de crianças brasileiras antes mesmo da alfabetização formal. Dados inéditos do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância (IELS), coordenado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, revelam que crianças negras e beneficiárias do Bolsa Família enfrentam maiores barreiras de aprendizagem ainda na pré-escola.

Os resultados foram apresentados e debatidos durante o seminário “Aprendizagem e bem-estar na Primeira Infância: evidências para as políticas públicas”, realizado na terça-feira (12), no auditório da Confederação Nacional da Indústria, em Brasília. 

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O debate reuniu pesquisadores, representantes do governo federal e organizações da sociedade civil em torno dos impactos das desigualdades nos primeiros anos de vida e dos desafios para a construção de políticas públicas voltadas à infância. O Brasil foi o único país participante da pesquisa a incluir recorte racial nos dados, aprofundando a análise sobre os impactos do racismo na primeira infância.

Realizado nos estados do Ceará, Pará e São Paulo, o estudo passou por cinco etapas entre 2022 e 2026, incluindo adesão, adaptação cultural, aprovação ética, pré-testes, coleta de dados e análise final. Ao todo, participaram 2.598 crianças matriculadas na pré-escola, distribuídas em 210 escolas públicas e privadas.

A metodologia buscou garantir uma experiência acolhedora para as crianças. Em vez de provas tradicionais, os pesquisadores utilizaram tablets com atividades lúdicas e adaptativas, ajustadas ao nível de resposta de cada participante. 

Além disso, cada criança realizou quatro atividades curtas, de até 15 minutos. Pais, responsáveis e professores também responderam questionários sobre desenvolvimento, rotina e ambiente familiar.

A pesquisa revelou que crianças pretas, pobres e beneficiárias do Bolsa Família apresentam os menores índices em praticamente todos os domínios avaliados, especialmente em numeracia emergente e funções executivas.

A numeracia emergente mede habilidades matemáticas iniciais, como reconhecer números, identificar sequências e comparar quantidades. Já a literacia emergente diz respeito às competências relacionadas à linguagem, leitura e compreensão textual ainda na pré-escola.

Leia mais: Racismo estrutural empurra 83 mil crianças negras de 5 a 9 anos para o trabalho infantil 

O peso das desigualdades acumuladas

Ao apresentar os resultados na mesa “Desigualdades no início da vida: o que mostram os dados do estudo”, o pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do IELS no Brasil, Tiago Bartholo, afirmou que o principal impacto do levantamento está justamente na constatação de que as desigualdades não aparecem isoladamente, isto é, elas se acumulam.

Segundo Bartholo, pobreza, raça e gênero aprofundam as desigualdades na aprendizagem. Meninos pretos, pardos e indígenas dos grupos mais vulneráveis apresentaram diferenças de até 71 pontos em numeracia em relação a meninas brancas de classes mais altas. “As desigualdades já estão cristalizadas aos cinco anos de idade”, resumiu.

O estudo também apontou que diferenças socioeconômicas impactam todas as dimensões avaliadas, sobretudo memória de trabalho e numeracia. Na comparação entre crianças de nível socioeconômico alto e baixo, a diferença chegou a 55 pontos em numeracia emergente.

Matemática ainda é o principal desafio da educação infantil

Os dados apresentados pela pesquisa mostram que o Brasil aparece próximo da média internacional em literacia emergente, com 502 pontos, mas registra desempenho abaixo da média em numeracia, com 456 pontos — 44 pontos abaixo da referência global.

Para especialistas, os resultados indicam que políticas públicas voltadas à alfabetização tiveram impacto positivo nos últimos anos, mas o mesmo movimento ainda não aconteceu em relação à matemática na educação infantil.

A diretora do Instituto Reúna, Kátia Smole, durante a mesa “Como está a aprendizagem e o bem-estar de crianças de 5 anos no Brasil?”, afirmou que o país construiu uma cultura educacional que prioriza a alfabetização e deixa a aprendizagem matemática em segundo plano desde os primeiros anos escolares.

Segundo Smole, existe uma falsa ideia de que trabalhar matemática na educação infantil poderia representar “escolarização precoce”, o que acabou afastando a numeracia do centro das práticas pedagógicas.

“Passamos uma mensagem muito clara para as professoras: priorizem a literacia. E elas estão fazendo exatamente isso”, afirmou.

“O bebê negro é colocado no chão”, diz secretária do MEC

As discussões também evidenciaram como o racismo estrutura o desenvolvimento infantil no país. No mesmo debate, a secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Kátia Schweickardt, destacou que o Brasil ainda carrega marcas profundas da escravização e do colonialismo, o que impacta diretamente as políticas educacionais.

Ao defender que qualidade e equidade não podem ser tratadas como conceitos separados, ela chamou atenção para práticas racistas ainda presentes no cotidiano escolar e das creches.

Segundo a secretária, crianças negras percebem desde muito cedo diferenças no acolhimento, no cuidado e na forma como são vistas dentro dos espaços educativos. Para ela, essas experiências subjetivas também produzem impactos concretos na aprendizagem.

“O bebê negro é colocado no chão. O bebê branco é acolhido no colo, elogiado, chamado de ‘bonitinho’. Ainda não conseguimos medir isso adequadamente em indicadores, mas sabemos o quanto isso impacta o desenvolvimento”, disse.

A secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Kátia Schweickardt, fala durante o seminário “Aprendizagem e bem-estar na Primeira Infância: evidências para as políticas públicas”. (Créditos: Lucas Rodrigues/Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal)

Famílias leem pouco e telas avançam sobre a infância

Os dados apresentados no seminário também revelaram desafios no ambiente familiar. Mais da metade das famílias brasileiras afirmou que lê pouco ou nunca lê para as crianças. Apenas 14% disseram realizar leituras ao menos três vezes por semana, índice abaixo da média internacional de 54%.

A pesquisa ainda mostrou que 50,4% das crianças utilizam dispositivos digitais diariamente em casa. Durante palestra na mesa “Conhecendo o IELS – International Early Learning and Well-being Study”, a vice-diretora de Educação e Habilidades da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Lucia Dellagnelo, afirmou que o uso frequente de telas aparece associado a níveis mais baixos de aprendizagem em literacia, numeracia e funções executivas.

A pesquisadora ponderou, porém, que o estudo não estabelece relação direta de causa e efeito entre os fatores. Outro dado apontado pela pesquisa é que apenas 37% das famílias brasileiras realizam frequentemente atividades ao ar livre com as crianças, percentual também abaixo da média internacional.

Leia mais: Ciclo de pobreza expõe crianças negras a ‘estresse tóxico’ na primeira infância

Coalizão cobra políticas públicas e ações integradas

Durante a abertura do evento, representantes das organizações responsáveis pela coalizão que viabilizou o estudo defenderam que os resultados precisam ultrapassar o campo acadêmico e influenciar diretamente as políticas públicas.

A superintendente do Itaú Social, Patricia Mota Guedes, afirmou que os dados não podem servir apenas como diagnóstico, mas como instrumento para enfrentar desigualdades históricas.

Guedes ressaltou que o debate sobre educação infantil não pode ser reduzido a uma “sala de espera” para o ensino fundamental, mas precisa ser compreendido como etapa central da garantia de direitos.

Já Dellagnelo, afirmou que o Brasil tem experiências capazes de inspirar outros países, especialmente pela articulação entre sociedade civil, fundações e poder público. A pesquisadora destacou que estudos internacionais mostram que desigualdades identificadas na primeira infância tendem a crescer ao longo da vida, tornando ainda mais urgente a adoção de políticas integradas.

“Quando o cuidado vai chegar à vida das crianças?”

No debate sobre políticas públicas, o subsecretário da Política Nacional Integrada da Primeira Infância do MEC, Alexsandro Santos, defendeu que o enfrentamento das desigualdades exige ações articuladas entre educação, saúde e assistência social.

Segundo o subsecretário, o país ainda opera com estruturas fragmentadas, incapazes de responder às múltiplas vulnerabilidades que atravessam a vida das crianças brasileiras.

Para o gestor, há desigualdades produzidas fora da escola — como pobreza e racismo estrutural —, mas também dentro dela, por meio de práticas pedagógicas, currículos e mecanismos de exclusão.

“O Estado brasileiro prometeu cuidar dessas crianças na Constituição, no ECA e no Marco Legal da Primeira Infância. A pergunta é: quando isso vai chegar, de fato, à vida delas?”, questionou.

A secretária nacional de Renda e Cidadania do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Eliane Aquino Custódio, reforçou que milhões de crianças beneficiárias do Bolsa Família seguem fora das creches, sobretudo em territórios periféricos e vulnerabilizados.

Custódio afirmou que o acesso à educação infantil ainda depende da decisão política de prefeitos e governadores e criticou a ausência de articulação entre as diferentes áreas do poder público. “Não adianta termos os melhores estudos do mundo se as políticas públicas não chegarem na ponta”, pontuou.

O jornalista viajou a Brasília a convite da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

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  • Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Com experiência em revisão, edição, reportagem, primeira infância e jornalismo independente. Tem trabalhos publicados no UOL (TAB, VivaBem, ECOA e UOL Notícias), Agência Pública, Ponte Jornalismo, Estadão e Yahoo.

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